Renan Santos
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Renan Santos

Ao Senhor Renan Santos,

Há frases que vencem pela aparência antes de serem julgadas pela razão. “Aluno que vai mal deve repetir” é uma delas. Soa firme, moral, disciplinadora. Parece restaurar a seriedade contra a frouxidão pedagógica, a exigência contra a aprovação automática, o mérito contra a complacência. Mas a política séria começa precisamente onde o slogan termina. E, neste caso, a pergunta decisiva não é se o aluno deve aprender antes de avançar. Isto é óbvio. A pergunta é se repetir o ano é o melhor instrumento para produzir aprendizagem real. E a resposta, moral e empiricamente, é não.

A repetência é o castigo que permite ao sistema absolver a si mesmo. A escola falha em diagnosticar, falha em intervir, falha em adaptar, falha em recuperar, falha em reconhecer perfis distintos, falha em dialogar com a família, falha em medir competências ao longo do caminho — e, ao fim, declara solenemente que quem falhou foi a criança. É um rito de purificação burocrática: transfere-se ao aluno a culpa por uma arquitetura pedagógica incapaz de aprender.

Não há virtude nisso. Há preguiça institucional com vocabulário de rigor.

Uma nação não se torna forte porque reprova mais. Torna-se forte porque aprende melhor, mais rápido e com menos desperdício humano. A repetência é uma tecnologia velha: pertence ao mundo da escola-fábrica, da criança-lote, da série-esteira, do currículo único e da avaliação como carimbo final. É a pedagogia da linha de produção. Quem acompanha a velocidade da máquina passa; quem não acompanha, retorna ao início da esteira. O problema é que seres humanos não são peças industriais. São combinações singulares de ritmo, vocação, contexto, trauma, talento, memória, linguagem, corpo, família, disciplina, interesse e oportunidade.

A direita brasileira, se quiser ser intelectualmente superior e não apenas emocionalmente mais severa, precisa abandonar a ilusão de que punição é sinônimo de exigência. Exigência verdadeira é mais difícil: exige diagnóstico contínuo, intervenção precoce, tutoria intensiva, progressão por domínio, trilhas diferenciadas, avaliação séria e responsabilidade de adultos. Reprovar é fácil. Ensinar é difícil. Personalizar é difícil. Medir competência real é difícil. Trocar método ruim é difícil. Auditar escola que fracassa é difícil. Responsabilizar gestor é difícil. Por isso o sistema prefere reprovar o elo mais fraco.

O Brasil não precisa de uma escola mais rígida. Precisa de uma escola menos burra.

Há um erro histórico que deveria humilhar qualquer formulador público. Depois do trauma da Primeira Guerra Mundial, parte da Europa preparou-se para a próxima guerra como se ela fosse uma repetição da anterior. Fortificou linhas, protegeu trincheiras mentais, investiu em defesas compatíveis com o horror que conhecia — e foi surpreendida por uma guerra de velocidade, aviação, blindados, coordenação e movimento. Preparou-se brilhantemente para vencer ontem. Perdeu para amanhã.

A educação brasileira corre o mesmo risco. Não adianta construir a melhor escola dos anos 80. Não adianta restaurar o boletim severo, a sala silenciosa, a lousa central, o aluno padronizado e a reprovação como instrumento disciplinar, quando o mundo que se anuncia exige outra arquitetura cognitiva. Precisamos hoje da melhor educação para este século, não da melhor versão nostálgica da escola industrial.

A inteligência artificial e a computação quântica estão entre as maiores rupturas já testemunhadas pela humanidade. Elas não mudam apenas ferramentas; mudam a relação entre conhecimento, trabalho, decisão, segurança, produtividade e poder. Enquanto isso, nossa escola ainda tenta remendar o modelo da Revolução Industrial: mesma turma, mesmo ritmo, mesma régua, mesmo conteúdo, mesmo calendário, mesma sentença. É como treinar cavalaria quando o adversário já domina drones.

O século XXI não premiará quem memorizou mais sob coerção. Premiará quem souber aprender, desaprender, recombinar, criar, interpretar, colaborar, programar, argumentar, liderar, adaptar-se e julgar informações em ambientes de incerteza. A escola que reprova sem descobrir o dom do aluno não é rigorosa; é cega. E uma instituição cega, quando recebe autoridade moral, transforma diferença em fracasso.

É aqui que o exemplo de Israel se torna incontornável. A grandeza israelense não nasceu da padronização humana, mas da alocação inteligente de talento sob pressão existencial. Um país cercado por ameaças não podia dar-se ao luxo de desperdiçar cérebros. Precisava encontrar aptidões, classificá-las com precisão, treiná-las com intensidade e colocá-las onde produziriam maior efeito estratégico. O gênio institucional de Israel foi compreender que capital humano mal alocado é vulnerabilidade nacional.

Daniel Kahneman, antes de ser Nobel, participou de esforços de seleção e avaliação nas Forças de Defesa de Israel, ajudando a substituir impressões intuitivas por métodos estruturados de avaliação. A lição é brutalmente simples: excelência não nasce de colocar todos na mesma linha de produção; nasce de identificar melhor, alocar melhor e desenvolver melhor. O soldado certo na função certa vale mais do que uma massa padronizada de talentos desperdiçados. Essa lógica ajudou a formar uma das forças de defesa mais extraordinárias da história moderna: não por uniformizar capacidades, mas por descobrir capacidades e discipliná-las para excelência.

A escola brasileira deveria aprender esta lição. O aluno matemático precisa ser levado à profundidade. O artístico, à forma. O técnico, à construção. O esportivo, ao corpo disciplinado. O verbal, à linguagem. O científico, ao método. O empreendedor, à criação de valor. O aluno com dislexia, TDAH ou DPAC precisa de diagnóstico e adaptação, não humilhação ritual. O aluno pobre precisa de compensação inteligente de lacunas, não de condenação por ter nascido com menos capital cultural. O núcleo comum deve existir leitura, escrita, matemática, ciência, história, civismo mas o percurso não pode ser uma cela única.

Repetência é sintoma de sistema que falhou. Não é cura.

A política correta não é aprovar automaticamente. Aprovação automática é fraude. Mas repetência automática é violência administrativa. Uma empurra o problema para frente; a outra empurra o aluno para trás. A solução superior é progressão por domínio: o aluno avança no que domina e recebe intervenção obrigatória no que não domina. Se não sabe frações, repete frações, não a infância. Se não compreende texto, recebe leitura intensiva, não um ano de vergonha. Se falhou em duas competências, corrige duas competências, não sua identidade inteira.

O Brasil precisa de escolas diferentes para talentos diferentes, com padrões altos em todas. Escola técnica não deve ser depósito de pobre. Escola artística não deve ser luxo de elite. Escola esportiva não deve ser desculpa contra estudo. Escola acadêmica não deve ser prisão para quem aprende fazendo. Todas devem exigir excelência, mas excelência proporcional à vocação, ao potencial e ao destino formativo de cada aluno.

Senhor Renan, a frase correta para uma política nacional séria não é “aluno que vai mal repete”. A frase correta é: aluno que vai mal deve ser diagnosticado cedo, apoiado com método, cobrado por domínio, orientado por vocação e conduzido à excelência possível. E se muitos alunos vão mal, a escola, a gestão e o sistema também devem ser julgados.

Porque o fracasso de uma criança jamais deve ser usado como álibi para o fracasso de uma instituição.

O verdadeiro rigor não é fazer o aluno repetir. O verdadeiro rigor é fazer o sistema aprender.

Daniel R. Schnaider é Presidente do Conselho da PRIME Society -
Inovação para um futuro sem pobreza

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