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O Haiti, com quem o Brasil negocia doação de testes de Covid, enfrenta espiral autoritária
O Antagonista
O Haiti, com quem o Brasil negocia doação de testes de Covid, enfrenta espiral autoritária

Num esforço para se livrar de parte dos cerca de 5 milhões de testes para detecção da Covid-19 encalhados em um armazém federal e que vencem a partir de abril, o Ministério de Saúde afirmou durante a semana que um dos destinos dos exames — ao menos 1 milhão do total — poderia ser o Haiti .

O governo brasileiro, no entanto, ainda aguarda uma resposta dos caribenhos sobre se o país dispõe de laboratórios e equipamentos capazes de coletar e processar os testes. “ Se os haitianos não tiverem como fazer essas análises ou como realizar coletas, não será possível ao Brasil dar início a alguma eventual doação “, diz o ministério.

Sendo o país mais pobre das Américas, o Haiti é frequentemente foco de ações humanitárias. A negociação dos exames, contudo, ocorre em um momento complicado, com o país mergulhado em uma espiral autoritária.

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O ex-presidente, Jovenel Moise , recusou-se a deixar o posto no domingo, 7. Pela Constituição, a duração do mandato de presidente é de cinco anos. Mas Moise alega que, como o início de seu governo atrasou por problemas de fraude nas eleições de 2015, ele só teria de deixar o poder em 2022.

Não se trata apenas de uma questão sobre interpretação da Constituição . “ O Haiti entrou nos últimos dias em uma ditadura total. Jovenel Moise se mantém no poder com o apoio das Forças Armadas e da Polícia Nacional. Há ainda uma coordenação entre o governo e os líderes de gangues violentas na capital Porto Príncipe . Eles estão aterrorizando a oposição, juízes independentes, jornalistas e ativistas dos direitos humanos “, diz o cientista político haitiano John Miller Beauvoir, que vive no Canadá e escreveu um livro sobre a política haitiana.

Jovenel Moise não organizou eleições durante o seu mandato. Com isso, os prefeitos foram substituídos por pessoas escolhidas por ele. O Parlamento também foi suspenso. Uma agência nacional de inteligência foi criada por decreto, sem qualquer freio institucional. Quando integrantes do Tribunal de Cassação, a maior instância da Justiça haitiana, tentaram nomear um presidente interino para preencher o vácuo de poder, Moise reagiu prendendo três juízes da corte e mais vinte pessoas.

O retorno da violência é um sinal de que o efeito da intervenção da força de paz Minustah, sob a liderança do Brasil, a partir de 2004, já se dissipou. “ Um dos objetivos da força de paz era justamente neutralizar esses grupos violentos. Mas o governo atual dá dinheiro e armas para eles “, diz Beauvoir.

Apesar dos atropelos autoritários, Jovenel Moise não tinha enfrentado a condenação de americanos e europeus. Ativistas haitianos já conseguiram convencer deputados democratas sobre a gravidade da situação e alertaram para as violações dos direitos humanos. “ Quem mais tem influência no Haiti são os Estados Unidos. A esperança de muitos haitianos é que o governo de Joe Biden mude de posição “, diz Beauvoir.

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