A ministra Cármen Lúcia, decana da Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF), se destacou na sessão desta quinta-feira (11) do julgamento da trama golpista, ao apresentar o voto que asseguraria a maioria no colegiado para condenar, pela primeira vez na história brasileira, um ex-presidente da República e generais de 4 estrelas, além de aliados, por tentativa de golpe de Estado.
O caso, inédito na Justiça brasileira, ganhou ampla repercussão mundial, não apenas pelo seu ineditismo, mas, sobretudo, pela pressão enorme exercida pelo governo dos Estados Unidos sobre os ministros do STF e o governo brasileiro.
A minsitra discorreu sobre o voto com voz serena, respeitosa com os colegas e elegante com a plateia de milhões de pessoas que assistiam ao julgamento.
Sem se intimidar com o contexto tenso que cercava a sessão, soube ser firme e certeira, fundamentando com clareza as suas convicções nas provas apresentadas ao longo do devido processo legal e amparada na Constituição brasileira.
Com a coragem, a força e a sensibilidade inerentes às mulheres,Cármen Lúcia conseguiu amenizar o clima pesado que costuma acompanhar julgamentos criminais.
Para tanto, apresentou um voto como uma bela receita, com a medida certa para punir golpistas, harmonizando provas com fatos históricos, reflexões filosóficas, acrescentados de muita indignação, leveza e poesia.
Entre os autores citados por ela como referências estão o poeta Affonso Romano de Sant'Anna, a historiadora Heloisa Starling, o filósofo italiano Maquiavel e o escritor francês Victor Hugo.
A seguir, o poema "Que País é Este?", de Affonso Romano de Sant'Anna, recitado pela ministra. Vale a sua releitura por toda a carga simbólica que ele carrega (*)
Que País É Este?
Uma coisa é um país,
outra um ajuntamento.
Uma coisa é um país,
outra um regimento.
Uma coisa é um país,
outra o confinamento.
Mas já soube datas, guerras, estátuas
usei caderno "Avante"
— e desfilei de tênis para o ditador.
Vinha de um "berço esplêndido" para um "futuro radioso"
e éramos maiores em tudo
— discursando rios e pretensão.
Uma coisa é um país,
outra um fingimento.
Uma coisa é um país,
outra um monumento.
Uma coisa é um país,
outra o aviltamento.
(...)
2
Há 500 anos caçamos índios e operários,
há 500 anos queimamos árvores e hereges,
há 500 anos estupramos livros e mulheres,
há 500 anos sugamos negras e aluguéis.
Há 500 anos dizemos:
que o futuro a Deus pertence,
que Deus nasceu na Bahia,
que São Jorge é que é guerreiro,
que do amanhã ninguém sabe,
que conosco ninguém pode,
que quem não pode sacode.
Há 500 anos somos pretos de alma branca,
não somos nada violentos,
quem espera sempre alcança
e quem não chora não mama
ou quem tem padrinho vivo
não morre nunca pagão.
Há 500 anos propalamos:
este é o país do futuro,
antes tarde do que nunca,
mais vale quem Deus ajuda
e a Europa ainda se curva.
Há 500 anos
somos raposas verdes
colhendo uvas com os olhos,
semeamos promessa e vento
com tempestades na boca,
sonhamos a paz da Suécia
com suíças militares,
vendemos siris na estrada
e papagaios em Haia,
senzalamos casas-grandes
e sobradamos mocambos,
bebemos cachaça e brahma
joaquim silvério e derrama,
a polícia nos dispersa
e o futebol nos conclama,
cantamos salve-rainhas
e salve-se quem puder,
pois Jesus Cristo nos mata
num carnaval de mulatas.
(...)
Publicado no livro "Que país é este? e outros poemas" (1980).
(*) O poema foi escrito durante a ditadura militar, baseado na frase de Francelino Pereira, ex-governador biônico de Minas Gerais e ex-presidente da Arena, partido político ultra conservador apoiado pelos militares. A indagação de Francelino foi feita em 1976, quando o Brasil ainda estava mergulhado nas trevas da ditadura. Após anunciar que o então ditador Ernesto Geisel iria promover uma abertura política, ele ficou indignado, porque ninguém acreditou que isso seria possível. Diante disse disparou a pergunta que entraria para a história: "Que país é esse? A frase inspiraria ainda o também poeta e músico Renato Russo.