
Imagina o nível de desespero de uma pessoa que resolve deixar tudo para trás e começar uma nova vida em outro país só com a roupa (molhada) do corpo. Imagina o que vivem diariamente 50 mil pessoas, num cálculo conservador, para arriscar a vida em uma viagem sem garantia de volta em busca de melhores oportunidades em um outro país, outra língua, outra cultura, outra lei.
Parece cena de filme sobre o fim do mundo, mas acaba de acontecer em Ceuta, enclave espanhol localizado no norte da África. Muitos, na tentativa de fugir de cercas, muros e forças de controle migratório, contornaram as restrições a nado. Chegariam do outro lado da fronteira sem nada para chamar de seu. Nem uma bolsa com um computador ou troca de roupas. Nada, a não ser a esperança de um reinício.
Não deve ter outra imagem mais didática do fracasso da civilização – ao menos a civilização planejada por europeus desde a colonização, e que hoje bate às suas portas para lembrar quem ativou essa bomba.
Entender como tudo isso aconteceu exige um pequeno regresso no tempo. Em 1884, a Espanha colonizou a região conhecida como Saara Espanhol. Anos depois, já nos anos 1970, quando potências europeias começaram a se retirar da África, os espanhois deixaram o território sem realizar um referendo de autodeterminação para o povo local (os saarauís).
O Marrocos reivindicou e passou a controlar a maior parte do território, o que gerou uma guerra violenta contra a Frente Polisário, um movimento de libertação nacional saarauí apoiado pela Argélia. A disputa permanece até hoje sem solução definitiva graças ao estabelecimento de fronteiras arbitrárias de nações, como a França, durante o período colonial. Seria como se os Estados Unidos pegassem parte do Rio Grande do Sul e do Uruguai, dissessem um belo dia “isso tudo é meu”, saíssem de lá em outro belo dia, e deixassem uruguaios e brasileiros se matando, cada um em sua língua, para definir quem é dono de quê. Melhor não dar ideia.
No caso, o desenho das fronteiras desenhado pela França favoreceu o território argelino.
Após a independência, os dois países entraram em conflito armado por disputas territoriais nas regiões de Tindouf e Bechar. A desconfiança histórica alimenta até hoje uma corrida armamentista e geopolítica no Norte da África. E isso tem um custo econômico e social.
A constante tensão com a Argélia e os confrontos contra a Frente Polisário no Saara Ocidental forçam o governo marroquino a manter um dos orçamentos de defesa mais robustos da África. O governo local chega a direcionar cerca de 3,8% a 4% do seu Produto Interno Bruto para despesas militares, índice superior à média mundial.
Mais: devido às rivalidades locais, não existe uma zona de livre-comércio ou de integração econômica por lá. O PIB dos países da região deixam de crescer entre 1% e 2% todos os anos devido à aposta em acordos bilaterais sem tanto sentido e eficiência logística. É uma perda significativa de oportunidade comercial histórica.
O limbo causa insegurança jurídica para empresas que pretendem investir na região. Cortes internacionais, como o Tribunal de Justiça da União Europeia, costumam anular ou restringir acordos comerciais e de pesca do Marrocos que incluam recursos do Saara Ocidental sem o consentimento do povo saarauí. A medida limita o potencial de exportação da nação africana. Gera mais pobreza, mais tensão, mais desejos de fuga.
Apenas 14 quilômetros separam a Espanha do Marrocos no Estreito de Gibraltar – Ceuta, a cidade buscada pelos imigrantes, nem isso. Enquanto a antiga metrópole hoje se beneficia diretamente do mercado comum da União Europeia, recebe fundos estruturais e possui indústrias de alto valor agregado há décadas, Marrocos, uma ex-colônia, ainda vive os reflexos da violência da colonização.
A diferença está no PIB per capita (nominal) entre as duas nações. Um espanhol ganha, em média, US$ 41,5 mil dólares ao ano. Um marroquino ganha US$ 5.100.
Diante da mais grave crise humanitária, os europeus fingem que não é com eles. Ou mandam erguer novos muros para que novos imigrantes tentem na próxima vez a sorte ou o azar de morrer no mar.