"Ameba de fogo" quebra recorde ao sobreviver a calor de 70 °C

Organismo foi encontrado em uma fonte geotérmica na Califórnia e continuou se dividindo a 63 °C, estabelecendo um novo limite para a vida

Ameba de fogo (Incendiamoeba cascadensis) a 60ºC
Foto: Beryl Rappaport/NASA
Ameba de fogo (Incendiamoeba cascadensis) a 60ºC

Cientistas descobriram uma espécie de ameba, apelidada de " ameba de fogo ", capaz de suportar com calor de até 70 °C. O estudo foi publicado nesta terça-feira (29).

A Incendiamoeba cascadensis foi descoberta durante uma expedição a fontes geotérmicas do Parque Nacional Vulcânico Lassen, na Califórnia, nos Estados Unidos, que reúne fontes de água naturalmente aquecidas. Os pesquisadores procuravam organismos capazes de viver em condições extremas .

A ameba foi testada em laboratório para ver como reagia ao aumento da temperatura. A partir de 57 °C, as amebas continuaram crescendo. Aos 63 °C, o microrganismo conseguiu se dividir a 63 °C, estabelecendo um novo limite de temperatura conhecido para a reprodução de um organismo eucarionte.

A 64 °C, a "ameba de fogo" ainda conseguia se movimentar para procurar alimento. Quando a temperatura chegou a 70 °C, porém, ela deixou de se reproduzir e formou estruturas chamadas cistos, que ficam dormentes e podem voltar à atividade quando a temperatura volta a esfriar.

Antes dessa descoberta, algumas espécies de fungos e algas vermelhas  alcançavam o limite conhecido de temperatura para organismos eucariontes, em cerca de 60 °C.

A descoberta impressiona, pois o calor intenso pode danificar proteínas, outras moléculas importantes para o funcionamento das células e também as membranas que mantêm os seres eucariontes vivos.

Beryl Rappaport, autora principal do estudo, coletando amostras de Incendiamoeba cascadensis no Parque Nacional Vulcânico Lassen, na Califórnia
Foto: Kristen Skruber/NASA
Beryl Rappaport, autora principal do estudo, coletando amostras de Incendiamoeba cascadensis no Parque Nacional Vulcânico Lassen, na Califórnia


O que permite à ameba suportar o calor

Os pesquisadores analisaram o material genético da ameba para entender como ela consegue continuar ativa em temperaturas tão elevadas.

A equipe identificou vários genes ligados à proteção do DNA e à percepção das condições do ambiente. Foi observado um aumento na atividade de determinados genes quando a temperatura subia. Entre eles estavam genes envolvidos na manutenção das proteínas, que precisam manter uma estrutura adequada para funcionar.

Conseguimos descobrir muitas estratégias que podem ajudar a I. cascadensis a sobreviver a altas temperaturas, e algumas dessas estratégias podem ser usadas por organismos que gostam de calor de todos os grupos de seres vivos. 
Beryl Rappaport, pesquisadora.


Os pesquisadores também compararam informações genéticas da nova espécie com dados de estudos realizados em diferentes partes do mundo. Eles encontraram trechos semelhantes de DNA em amostras de regiões geotérmicas da Nova Zelândia e do Parque Nacional de Yellowstone, nos Estados Unidos. O resultado indica que outras amebas capazes de suportar temperaturas elevadas podem existir em diferentes regiões do planeta.


Ameba expande ideia dos limites para a vida

A busca por organismos capazes de viver em condições extremas costuma se concentrar em bactérias e arqueias. Por terem menos estruturas celulares que podem ser danificadas pelo calor, frio, acidez ou radiação, bactérias e arqueias conseguem aguentar viver em ambientes que são difíceis para outros organismos.

Os seres que conseguem viver em temperaturas muito altas são chamados de termófilos . Para ser considerado um organismo verdadeiramente adaptado ao calor, ele precisa conseguir se reproduzir, movimentar-se, alimentar-se e sobreviver acima de 45 °C.

Os pesquisadores estudam organismos extremófilos , aqueles que vivem em condições ambientais muito difíceis , também para entender quais são os limites da vida.

Estudar extremófilos nos ajuda a compreender melhor os limites bioquímicos e fisiológicos da vida como a conhecemos na Terra. (...) Essas informações, por sua vez, ajudam a orientar a busca da NASA por vida à medida que ampliamos o conjunto de condições em que acreditamos que a vida poderia existir em outros lugares.
Alison Olcott, cientista do programa de Exobiologia da NASA.