
Por volta das 20h15 de 19 de fevereiro de 1994, paramédicos entraram com uma mulher de 31 anos na emergência do Riverside General Hospital, na Califórnia, nos Estados Unidos. Gloria Ramirez tinha câncer de colo do útero em estágio avançado, respirava rápido e respondia às perguntas com palavras soltas. Menos de uma hora depois, o pronto-socorro ficou vazio e parte da equipe estava caída no estacionamento.

O intrigante episódio se iniciou na execução da desfibrilação na paciente. Ao tirar a camiseta de Gloria Ramirez, a equipe médica notou uma película oleosa sobre a pele e um forte cheiro de alho. A enfermeira Susan Kane colheu sangue e sentiu odor de amônia na seringa, enquanto a residente Julie Gorchynski viu partículas claras boiando no líquido. Poucos minutos depois, as duas profissionais da saúde desmaiaram. A terapeuta respiratória Maureen Welch, que também entrou em contato com a enferma, foi a terceira a desmaiar.
Dos 37 funcionários do plantão, 23 tiveram algum sintoma e cinco foram internados. A enfermeira Gorchynski ficou duas semanas na UTI com apneia, hepatite, pancreatite e necrose nos joelhos. Infelizmente, Gloria Ramirez morreu às 20h50 do mesmo dia, depois de 45 minutos de reanimação. O legista apontou arritmia por falência renal ligada ao câncer.
Uma equipe de materiais perigosos vasculhou a sala e não achou nenhum tipo de gás no local, apesar das suspeitas. Em setembro, o Departamento de Saúde da Califórnia concluiu que os funcionários haviam sofrido um surto de doença sociogênica em massa, ou histeria coletiva, ocasionada possivelmente por um odor. A enfermeira Gorchynski, revoltada com a conclusão do órgão californiano, processou o hospital em 6 milhões de dólares.
Para a grande maioria dos especialistas, a explicação não batia com os fatos. A hipótese mais discutida veio do Laboratório Nacional Lawrence Livermore, onde os os químicos acharam dimetilsulfona no sangue de Ramirez. A enferma teria aplicado na pele o dimetilsulfóxido (DMSO), desengraxante de loja de ferragens usado como remédio caseiro para dor.
Durante o transporte até o hospital, o oxigênio da ambulância teria convertido o solvente em dimetilsulfona, que cristalizou no sangue frio da seringa. Posteriormente, em uma reação química nunca observada antes, o material teria se transformado em sulfato de dimetila, composto testado como gás de guerra.
Dezenove dos vinte sintomas do processo químico batiam com a tese. O legista também adotou a versão em novembro, 9 meses depois da morte de Ramirez. A família da americana, porém, negou que ela usasse DMSO.
Stanley Jacob, pioneiro nas pesquisas com o solvente, chamou a tese de "impossibilidade química". Mesmo assim, a teoria foi publicada na revista científica Forensic Science International e segue em debate na comunidade especializada até os dias atuais, configurando um dos maiores mistérios dos últimos 40 anos.