Imagem mais nítida do Sol revela fenômeno previsto há um século

Registro feito no Havaí mostra estruturas de até 19 km e confirma um fenômeno previsto pela ciência há mais de um século

Observação foi feita em 14 de abril de 2025 pelo Telescópio Solar Daniel K. Inouye, no Havaí, nos Estados Unidos
Foto: Reprodução/Nasa
Observação foi feita em 14 de abril de 2025 pelo Telescópio Solar Daniel K. Inouye, no Havaí, nos Estados Unidos

Cientistas registraram a imagem mais detalhada já feita da superfície do Sol e identificaram redemoinhos ligados a um fenômeno conhecido como instabilidade de Kelvin-Helmholtz, um fenômeno previsto pela ciência há mais de um século.

A observação foi feita em 14 de abril de 2025 pelo Telescópio Solar Daniel K. Inouye, no Havaí, nos Estados Unidos, maior telescópio solar do mundo, em uma região ativa próxima de uma mancha solar . Os resultados foram anunciados em 05 de agosto de 2026 pelo Observatório Solar Nacional da Fundação Nacional de Ciência dos Estados Unidos e fazem parte de um estudo publicado na revista Nature.

O equipamento conseguiu registrar detalhes da superfície do Sol com cerca de 19 quilômetros de resolução em uma sequência de imagens feitas em cerca de três minutos. Entre os 47 redemoinhos analisados pelos pesquisadores, a distância típica entre eles foi de aproximadamente 65 quilômetros. Os tamanhos variaram de 25 a 170 quilômetros.

Mesmo em um período tão curto, foi possível acompanhar a formação e a movimentação dos redemoinhos nas bordas de regiões onde o campo magnético do Sol é mais forte.

O estudo foi feito por pesquisadores do Observatório Solar Nacional, do Observatório de Alta Altitude do Centro Nacional de Pesquisa Atmosférica dos Estados Unidos e do Instituto Max Planck para Pesquisa do Sistema Solar, na Alemanha.

Como os redemoinhos se formam

A instabilidade de Kelvin-Helmholtz acontece quando duas camadas de material se movimentam lado a lado em velocidades diferentes. A diferença de velocidade cria um movimento de deslizamento entre elas, fazendo pequenas ondulações crescerem e assumirem formas semelhantes a ondas ou redemoinhos.

Esse fenômeno é conhecido pela física desde o século 19 e já foi visto em diferentes situações, incluindo movimentos de fluidos, oceanos, atmosferas de planetas e interações entre o vento solar e os campos magnéticos dos planetas.

No Sol, porém, a existência desse processo na superfície era prevista pelos cientistas, mas ainda não tinha sido observada diretamente com esse nível de detalhe.

Na superfície visível do Sol, chamada de fotosfera, o plasma, material extremamente quente formado por partículas eletricamente carregadas, está em movimento constante, subindo e descendo.

Os pesquisadores perceberam que os fluxos de material se aproximam das regiões onde o campo magnético é mais concentrado. Nesses limites, o material pode se movimentar em velocidades diferentes, criando as condições necessárias para o surgimento da instabilidade.


Como a descoberta pode ajudar a entender o Sol

Os pesquisadores ainda estudam como esses movimentos podem fazer parte do armazenamento e da liberação de energia no Sol.

O campo magnético solar pode guardar energia conforme se movimenta e se cruza, o que pode deixar o campo magnético instável. Quando essa energia é liberada, podem acontecer fenômenos como explosões solares, jatos e ejeções de massa coronal . Esses eventos podem afetar satélites, sistemas de navegação, comunicações e redes elétricas na Terra e no espaço.

Os redemoinhos observados podem participar dos movimentos que causam essa instabilidade no campo magnético. A descoberta pode, então, ajudar a explicar uma das etapas que formam a energia liberada durante a atividade solar.

Os pesquisadores também consideram que a instabilidade pode ajudar a transportar energia para regiões mais altas da atmosfera e participar do processo de aquecimento da coroa solar, camada mais externa da atmosfera do Sol, que pode atingir temperaturas de aproximadamente 1 milhão de graus Kelvin. A razão pela qual essa região é tão quente continua sendo estudada pelos cientistas.