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José Rubens Chachá conta como soube que a casa que comprou na rua Kansas, em São Paulo, foi o cativeiro de Washington Olivetto

Crimes e casos de violência que tiveram repercussão nacional dificilmente são esquecidos pelas vítimas diretas ou até mesmo por pessoas comuns que acabaram fazendo parte da história. Com o sequestro do publicitário Washington Olivetto, que completa 10 anos nesta quinta-feira , não foi diferente. Ser proprietário da casa utilizada como cativeiro do publicitário não estava nos planos do ator e diretor José Rubens Chasseraux, o Chachá, de 57 anos. “Quase caí para trás quando me contaram. Sem saber, comprei o cativeiro de um amigo”, disse com bom humor o experiente ator.

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Casa usada como cativeiro na rua Kansas, no Brooklin. Antes nº 40, hoje ela ocupa o 44 da rua
Carolina Garcia
Casa usada como cativeiro na rua Kansas, no Brooklin. Antes nº 40, hoje ela ocupa o 44 da rua
Chachá morava em Higienópolis com os filhos do primeiro casamento e buscava uma casa para morar com sua atual mulher, a bailarina Adriana Rabello. O desejo de ter mais um filho despertou no casal o interesse de buscar um novo lar. “Como qualquer pessoa que busca uma casa, decidi andar pelas ruas do bairro que tinha interesse, o Brooklin", explica.

O ator conta que foi até pesquisando com moradores possíveis residências a venda na região, até que decidiu explorar a rua Kansas, no mesmo bairro. Na altura do número 44, estava um belo sobrado a venda. Chachá conta que foi atraído principalmente pelo preço do imóvel que, segundo ele, estava 40% abaixo do esperado.

José Rubens Chachá, que comprou casa usada de cativeiro no sequestro do publicitário
TV Globo
José Rubens Chachá, que comprou casa usada de cativeiro no sequestro do publicitário
"Ali as casas valiam no mínimo R$ 500 mil e aquela estava R$ 340 mil. Achei mais estranho ainda quando percebi a pressa da proprietária em vender o imóvel."

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Fechada há um ano, a casa já possuía sérios problemas estruturais e estava muito suja. "Assustei quando entrei pela primeira vez. Havia um cômodo que era um buraco. Era escuro, sem ventilação e a parede [pintada com tinta escura] escondia algumas frases rabiscadas". Como a visita era monitorada pela proprietária, Chachá chegou a questionar a divisão do cômodo já que não acompanhava a arquitetura do imóvel.

Porém, com receio de perder a venda, acredita o ator, a mulher omitiu a real finalidade do cômodo e a informação que o local havia sido habitado por Washington Olivetto durante os seus 53 dias sequestrado . "Ela apenas disse que o antigo dono havia dividido o banheiro em dois para montar uma biblioteca ao lado. Na hora eu falei: 'Quem teria cometido o crime de dividir esse lindo banheiro?' Não acredito até hoje que usei a palavra crime", contou ao iG , rindo do episódio.

Reformas

Mais uma vez a rapidez para a compra da casa surpreendeu a família de Chachá. "Quando dei por mim, já estava dentro da casa realizando medições. Para mim, ali parecia um 'bunker' de tão fechado. Decidi que iria transformar o imóvel", explica o ator afirmando que até aquele momento ainda não sabia o passado da casa.

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Já em tempo de iniciar a reforma, Chachá recebeu a visita de um "simpático senhor muito bem vestido" que morava no outro lado da calçada. Um simples ato de "boa vizinhança" acabou mudando a percepção quer o ator e sua família tinham da casa. "Muito sorridente ele me disse: 'Espero que sua minha família possa superar os sentimentos negativos desse lugar. Você sabe o que aconteceu por aqui, não é?'. Nessa hora tremi, eu pensei em assassinato."

Chachá e Adriana Rabello em evento, em SP.
Divulgação
Chachá e Adriana Rabello em evento, em SP. "Fomos muito felizes naquela casa", diz o ator
"Foi quando ele citou o caso de Washington. Só pensei naquele quartinho. Frases nas paredes e escuro praticamente um buraco no meio de uma bela construção. Um perfeito cativeiro. Só eu mesmo para não desconfiar", disse rindo e assumindo certa ingenuidade por não ter identificado prontamente a finalidade do local. Chachá e sua família não desistiram do imóvel e sim decidiram que o primeiro cômodo que seria demolido durante as reformas seria o "tenebroso quartinho".

Durante três meses e com um investimento de aproximadamente R$ 100 mil a casa foi repaginada e já não abrigava nenhum aspecto ruim ou negativo. Até mesmo o quartinho, antes tenebroso, agora havia se transformado no quarto do filho mais novo do casal. "Morei cinco anos ali. Foram anos de prosperidade, amor e alegria. Construí minha família e aquela casa representa a vida".

Para o ator e sua mulher, o caso acabou se tornando curioso e não trouxe nenhum mal à família. Amigo e colega de trabalho de Olivetto, Chachá assumiu para o iG que chegou a pensar em convidar o publicitário para tomar uísque e "eliminar os pensamentos ruins". "Não sobrou nada de negativo ali para contar, mas pensei um pouco e desisti da ideia [de convidar Olivetto] . O que seria uma brincadeira para mim, para ele poderia ser devastador", concluiu.

Morador do bairro de Moema, Chachá vendeu o imóvel há dois anos para outro colega de trabalho e "melhor amigo", Sérvulo Augusto Vieira, também ator e irmão da atriz Suzana Vieira. Sérvulo conversou com a reportagem e afirmou só ter tido bons momentos em sua casa. Atualmente, com os reparos e segurança reforçada, a casa passou a valer R$ 1 milhão, estimam os moradores da famosa rua Kansas.

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