Spike: o único animal sepultado no Cemitério da Consolação

O cachorro foi acolhido pelos funcionários em 2019, viveu no local por três anos e ganhou um lugar especial na história do espaço

Spike no Cemitério da Consolação
Foto: Arquivo pessoal
Spike no Cemitério da Consolação

O cachorro Spike transformou a rotina do Cemitério da Consolação , no Centro de São Paulo, assim que chegou. Acolhido com carinho pelos funcionários, viveu ali por cerca de três anos e fez história : até hoje, é o único animal sepultado na necrópole mais antiga em funcionamento da capital .

De acordo com o monitor de passeios do cemitério, Francivaldo Gomes, mais conhecido como Popó, Spike foi abandonado  em um farol na Rua da Consolação, durante as férias de inverno do ano de 2019 . Inicialmente, Popó conversou com comerciantes e moradores locais tentando descobrir de onde teria vindo o animal, mas não encontrou respostas.

A cada dia, Spike subia mais um trecho em direção ao cemitério, até finalmente cruzar o portão, que costuma permanecer aberto. Ainda arisco e traumatizado pelo abandono recente, começou a vagar pelas alamedas, observando a movimentação humana com desconfiança.

A gente passava nas alamedas e via aquele cachorro, ele olhava para gente, saía da rua, entrava em outra rua, com medo, um pouco arisco. Um dia, a moça que trabalha aqui na limpeza preparou um pratinho de comida e saiu andando para ver se ele via aquele prato e se aproximava.
Popó, monitor turístico do Cemitério da Consolação


Com um prato de comida disponibilizado por uma funcionária, logo acima de um túmulo, Spike se aproximou e comeu. Diariamente, com o fornecimento de alimento, o cachorro foi permitindo cada vez mais o contato dos funcionários, até o dia em que aceitou carinho.

Popó afirma que a curiosidade para se aproximar surgiu exatamente da permanência contínua do animal no local: “É raro aparecer um cachorro aqui e permanecer pelo tempo que ele estava permanecendo. Foi uma novidade na época.”

Com a aproximação, os funcionários resolveram batizá-lo: “Vamos colocar o nome Spike. E ele passou a fazer parte do nosso convívio, do nosso trabalho aqui no cemitério da Consolação”.


O primeiro “bom dia”

Embora os portões ficassem fechados durante a noite, Spike já estava de prontidão assim que os funcionários chegavam logo cedo, sempre a postos para dar e receber o primeiro “bom dia” .

Quando chegávamos, umas 6h45, ele estava ali no portão para recepcionar cada funcionário que entrava para trabalhar. Fomos criando um enorme carinho por ele. O primeiro bom dia era para ele, porque ele já estava no portão, queria receber aquele bom dia.
Popó, monitor turístico do Cemitério da Consolação


Com o passar dos dias e o acompanhamento da rotina, Spike começou a seguir os passos dos funcionários . De acordo com Popó, o cachorro chegava a acompanhar os sepultamentos e exumações, ficando próximo aos funcionários assim que percebia a movimentação dos mesmos para um novo trabalho.

O nosso dia-a-dia com o Spike era de alegria, porque se alguém chegasse para trabalhar com algum mau-humor, por algo que tivesse passado em casa ou na rua, Spike chegava aqui e apaziguava aquela situação. Ele era bem dócil, se aproximava e deixava a gente acariciá-lo e isso transmitia uma energia tão boa para aquela pessoa, para o funcionário que talvez estivesse com algum problema em casa.
Popó, monitor turístico do Cemitério da Consolação


O carinho e conforto de Spike não era transmitido somente para os funcionários, mas também aos visitantes do histórico cemitério. “Todo pessoal que vinha visitar o cemitério, ele também tinha esse carinho”, afirma Francivaldo.

As pessoas que vinham visitar os seus entes queridos aqui e ele se aproximava, ficava em cima do túmulo. Não tinha como aquela pessoa não fazer um carinho nele, porque ele já ficava ali de prontidão, esperando ser acariciado. Nesse momento da visita de cada família ao cemitério, a família chegava chorando, triste, mas, quando se aproximava do túmulo, passava um instante ali e o Spike chegava. Para ela [família] é como se viesse um anjo tranquilizá-la, porque o Spike fazia este papel.
Popó, monitor turístico do Cemitério da Consolação


De acordo com Popó, o animal também “acompanhava o cortejo do começo ao fim”, seguindo as famílias até o local de sepultamento após o velório, que acontecia na capela do cemitério: “Aquela multidão ali levando [o corpo], alguns até mesmo chorando, e o Spike desfilando no meio como se tivesse falando ‘eu vou tranquilizar cada um que está sofrendo neste momento’. Quando a gente chegava até o túmulo, antes de sepultar, ele já subia em cima do túmulo e ficava esperando aquele momento que a família tinha a última prece a fazer e ele ficava ali.”

Spike, o primeiro e único animal a ser enterrado no Cemitério da Consolação
Foto: Arquivo pessoal/ Popó
Spike, o primeiro e único animal a ser enterrado no Cemitério da Consolação


O monitor afirma que cada movimento do animal durante o cortejo passava a impressão de que Spike queria transmitir seu amor àquela família e aos amigos que haviam perdido alguém. Francivaldo também disse que, muitas das vezes, o “ritual de carinho” do cachorro chamava a atenção de visitantes, gerando comentários de apreço.

Isso tranquilizava o sofrimento dessa pessoa que estava enlutada naquele momento. Spike deixou uma hiper história de amor, de carinho, de paz, de gratidão para todos nós que trabalhamos aqui no Cemitério da Consolação.
Popó, monitor turístico do Cemitério da Consolação


Túmulo e legado

No dia 14 de novembro de 2022, Spike foi, mais uma vez, vítima da crueldade humana . Quando os funcionários chegaram para o trabalho naquela manhã de segunda-feira, estranharam a falta do animal, e o encontraram já sem vida, no lado direito da Rua 11 do cemitério, após ter sido envenenado.

Popó conta que o veneno foi deixado em um pote de ração, o que evidenciou a intenção deliberada de matar o animal. Além de tirar a vida de Spike, a ação criminosa matou cerca de cinco gatos que viviam nas dependências do cemitério.

Como forma de homenagear a memória de Spike, amigo leal dos funcionários, um túmulo simples foi erguido junto ao muro nos fundos do Cemitério da Consolação — ainda que a prática não fosse formalmente permitida.

O túmulo é simples, sabemos que cemitério não podia enterrar animais, mas onde enterrar aquele amigo que era quase um funcionário?
Popó, monitor turístico do Cemitério da Consolação


Foto: Micaela Wentz/ iG
Túmulo de Spike no Cemitério da Consolação, no Centro de São Paulo

Em sua lápide, que hoje faz parte também do trajeto turístico do Cemitério, é possível ler a frase: “Amigo fiel, obrigada pela alegria de cada dia de trabalho juntos, guardião dos amigos”. De acordo com Popó, visitantes que conheciam a história de Spike ainda passam pelo seu local de descanso e o presenteiam com flores .

O Cemitério da Consolação, que foi fundado em 1858 e tem as dependências tombadas pelos órgãos de preservação do patrimônio histórico da capital paulista, abriga diversas figuras importantes e simbólicas para a história nacional, contando com túmulos e mausoléus recheados de arte; o equipamento público quase como um museu a céu aberto . Hoje, entre toda a história que o abriga, o espaço guarda também o túmulo de Spike.

Ele faz parte da história de um cemitério que agrega pessoas da alta sociedade, pessoas que fizeram a história deste país e ele, infelizmente, está junto aqui em um túmulo bem distante ao lado do muro do cemitério, mas é como se ele estivesse adormecido aqui, guardando o cemitério que ele tanto amava.
Popó, monitor turístico do Cemitério da Consolação


Popó conta que Spike também ganhou uma espécie de título de “guardião do Cemitério”, dado pelos funcionários, uma vez que não permitia a entrada de alguns andarilhos durante a noite. Lembrando-se com carinho, o monitor afirmou que hoje o cachorro protege o espaço como um “guardião de todos que estão aqui adormecidos”.

A pessoa, quando é boa, deixa um legado. No caso dele, ele foi um animalzinho, mas deixou muito amor no coração de muita gente.
Popó, monitor turístico do Cemitério da Consolação


Atualmente, o cemitério ainda acolhe cerca de 30 gatos que frequentam as dependências, com voluntários que aparecem diariamente para fornecer água e alimentos.

Foto: Arquivo pessoal/ Popó
Spike e Popó durante um dia de trabalho no Cemitério da Consolação