Estação 14 Bis-Saracura tem obra liberada pelo Iphan em SP

Linha Uni deverá manter áreas isoladas para resgate de patrimônio histórico no Bixiga; escavações revelaram peças de cultos de matriz africana

Terreno da Estação 14 Bis-Saracura, da Linha 6-Laranja, no Bixiga, Centro de São Paulo
Foto: Divulgação
Terreno da Estação 14 Bis-Saracura, da Linha 6-Laranja, no Bixiga, Centro de São Paulo

O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) autorizou que a concessionária Linha Uni dê continuidade às obras da Estação 14 Bis-Saracura, da Linha 6-Laranja do metrô de São Paulo , mas apresentou um conjunto de exigências voltadas ao resgate e preservação de achados arqueológicos.

A decisão foi tomada na última quarta-feira (2) e trata da conservação de um bairro histórico da capital paulista, o Bixiga , localizado na região da Bela Vista, Centro. As recomendações foram impostas após a identificação de elementos que podem estar associados a antigos cultos religiosos de matriz africana, encontrados durante escavações para a obra.

Achados estão relacionados a diáspora africana 

Por mais que as obras estejam liberadas em algumas partes, o Iphan determinou que locais com achados considerados excepcionais devem seguir isolados e protegidos até que o resgate arqueológico esteja completo.

Como na chamada “área 6”, onde vestígios de religiões de matriz africa foram localizados a 2,2 metros de profundidade em um cômodo do sítio arqueológico Saracura-Vai-Vai, que vem sendo mapeado desde 2022. Entre os objetos, destacam-se ossos bovinos e suínos, fragmentos de ovo de galinha, conta de vidro verde, montes de anil e feixes de gravetos.

Artefato encontrado no sítio arquilógico da Estação 14 Bis-Saracura, da Linha 6-Laranja, em 2026
Foto: Divulgação
Artefato encontrado no sítio arquilógico da Estação 14 Bis-Saracura, da Linha 6-Laranja, em 2026


O anil, tradicionalmente usado em rituais de purificação, e o feixe de gravetos, reforçam a hipótese de que o espaço tenha servido a práticas religiosas afro-brasileiras .

Por mais que o instituto não confirme a identificação como definitiva, o espaço sagrado parece estar associado à prática do Candomblé; o instituto aguarda análises laboratoriais sobre os bens encontrados.

Regras para o resgate e preservação

O relatório aprovado pelo Iphan estabelece seis medidas principais para a remoção dos artefatos, considerando a raridade dos vestígios encontrados e a possibilidade de encontrar novos artefatos até a finalização das obras; são elas:

  • Escavações manuais, voltadas a expor de forma adequada, registrar e recuperar pisos, estruturas e demais artefatos raros, tanto na Área 6 quanto em outros pontos que apresentem situações arqueológicas comparáveis;
  • Condução das ações de investigação e salvamento, aplicando métodos e técnicas arqueológicas ajustados à especificidade, à complexidade e ao valor dos artigos identificados;
  • Obrigatoriedade da presença de arqueólogo qualificado, com experiência comprovada em trabalhos de resgate de sítios relacionados à diáspora africana;
  • Participação garantida de liderança religiosa vinculada às tradições afro-diaspóricas, acompanhando os procedimentos referentes a achados ligados às práticas religiosas;
  • Desmonte manual de peças excepcionais e vestígios associados às práticas religiosas, realizado de forma integrada e contextualizada, preservando as relações espaciais e simbólicas entre os elementos encontrados;
  • Coleta de amostras de pisos, tijolos e demais componentes construtivos, seguindo a metodologia já aplicada em áreas previamente escavadas e observando as diretrizes técnicas estabelecidas pelo Iphan.

O órgão reforçou que não há necessidade de interromper toda a frente de obra, mas apenas de manter isolada a área dos achados até a conclusão do processo e aprovação de novo relatório.


Contexto histórico e impacto cultural

Os achados se somam às cerca de 110 mil peças já catalogadas no sítio Saracura-Vai-Vai até março de 2026, incluindo fragmentos de metais, ossos e cerâmicas. Pesquisadores apontam que o local pode estar relacionado a um quilombo existente às margens do córrego Saracura Grande desde o século 19.

Foto: Divulgação/ Lasca Arqueologia
Fragmentos arquiológicos encontrados no sítio, localizado na Estação 14 Bis-Saracura, em 2023


Para o Iphan, o sítio é fundamental para compreender e valorizar a história da população negra na formação da cidade de São Paulo.

Em comunicado, o órgão recomendou que a futura estação inclua um espaço de memória dedicado à valorização dessa trajetória, demanda já defendida pelo movimento Saracura-Vai-Vai.

Foto: Divulgação/ Lasca Arqueologia
Fragmentos de vidro e garrafas encontradas no sítio arquilógico Saracura Vai-Vai, em 2023


Obras e cronograma

A concessionária Linha Uni afirmou à Folha de S. Paulo que está analisando tecnicamente as determinações para reprogramar suas atividades “de forma responsável e coordenada”. A Estação 14 Bis-Saracura é a mais atrasada do projeto da Linha 6-Laranja, com apenas 15,53% das obras concluídas no último balanço público. Quando finalizada, deverá atingir 38,33 metros de profundidade.

Com a decisão, o Iphan busca equilibrar a continuidade das obras com a preservação de um patrimônio arqueológico considerado excepcional para a história de São Paulo, que revela materialmente aspectos da culturais e religiosos da população negra na cidade.

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Sítio arquiológico Saracura-Vai-Vai, na Estação 14 Bis-Sacura, Linha 6-Laranja