
O Ministério Público de São Paulo (MPSP) está monitorando possíveis vínculos entre candidatos e organizações criminosas nas eleições de 2026. Segundo o procurador-geral de Justiça de São Paulo, Paulo Sérgio de Oliveira e Costa, o órgão realiza, em conjunto com o Tribunal Regional Eleitoral (TRE) e as polícias, cruzamentos de dados para identificar pessoas ligadas ao crime organizado que tentam ocupar espaços de poder.
Na última eleição a gente identificou os 22 candidatos a prefeito e, nessa eleição, juntamente com o Tribunal Regional Eleitoral, com as polícias, a gente está fazendo, com as inteligências não só do MP, mas com as várias inteligências, os cruzamentos de dados para tentar identificar as pessoas. Procurador-geral de Justiça de São Paulo, Paulo Sérgio de Oliveira e Costa
Segundo o procurador, a preocupação não se limita ao financiamento de campanhas por organizações criminosas. Para ele, o crime organizado também busca indicar ou eleger pessoas diretamente ligadas aos seus interesses para ocupar espaços de poder.
Historicamente, criminosos se aproveitam de candidatos “eticamente fracos” por meio do financiamento de campanhas. A partir disso, segundo o procurador, esses políticos podem ficar, de certa forma, “faccionados” e fiéis aos interesses das organizações criminosas.
Infiltração em órgãos públicos
A preocupação do Ministério Público também se estende à tentativa de integrantes do crime organizado de ingressarem em instituições públicas.
Segundo Oliveira e Costa, uma mulher apontada por ele como “patroa do crime”, que atuava como instrutora de CACs para criminosos, foi presa no dia em que iria assinar um contrato de estágio com o MPSP.
O PGJ também citou o caso de um funcionário do MPSP que teria sido afastado após acessar informações de processos relacionados a organizações criminosas e repassá-las a advogados.
Para o procurador, os episódios mostram que o crime organizado não busca apenas recursos financeiros, mas também espaços dentro de estruturas que podem facilitar sua atuação.
PCC já participa da economia formal
A expansão do crime organizado também pode ser observada na economia formal. Oliveira e Costa afirmou que o PCC deixou de atuar apenas em atividades criminosas tradicionais e passou a participar diretamente de negócios aparentemente legais.
“Eles não estão se infiltrando na economia formal. Eles participam da economia formal”, afirmou.
Segundo o PGJ, operações do MPSP identificaram a atuação de organizações criminosas em diferentes setores, como combustíveis, fintechs, empresas de ônibus, lojas e outros estabelecimentos comerciais.
Na avaliação do procurador, a presença do PCC na economia formal é uma das características que fazem com que ele enxergue a facção como uma organização com características de máfia.
É máfia pela mistura de procedimento, pela hierarquia, pela inserção na economia, inserção no mercado formal, na economia formal, pela inserção dos negócios, pela construção de um ambiente de arregimentação de pessoas. Procurador-geral de Justiça de São Paulo, Paulo Sérgio de Oliveira e Costa
PCC e a máfia italiana
A atuação do PCC também ultrapassa as fronteiras brasileiras, uma vez que a facção já teria estabelecido relações com a ’Ndrangheta, uma das principais organizações mafiosas da Itália.
De acordo com ele, autoridades italianas que estiveram no Brasil relataram a existência dessa associação e informaram que já haveria integrantes do PCC “batizados” na Itália.
O procurador afirmou ainda que o PCC abastece países europeus com drogas e avaliou que o tráfico internacional e o tráfico interno atualmente ocupam posições semelhantes entre as principais atividades da facção.
Cooperação internacional
Com a expansão das organizações criminosas para outros países, Oliveira e Costa destacou a importância da cooperação internacional para as investigações.
O PGJ citou como exemplo uma extradição recente de um italiano para o Brasil, obtida por meio da cooperação entre São Paulo e a Itália, com participação de órgãos federais e do Ministério das Relações Exteriores e do Ministério da Justiça.
Segundo ele, a experiência demonstra que a articulação internacional pode, em alguns casos, funcionar melhor do que a cooperação entre os próprios entes federativos brasileiros.
Críticas à Lei Antifacção
O procurador-geral também fez críticas a um dos pontos da Lei Antifacção. Embora considere que a legislação tenha medidas importantes, Oliveira e Costa afirmou ser contrário à mudança que retira do Tribunal do Júri a competência para julgar determinados homicídios praticados em contexto de atuação de organizações criminosas, classificados na legislação como “narcocídio”.
Para o PGJ, não seria necessário deslocar a competência para um colegiado de juízes como forma de proteger os jurados de possíveis ameaças.
Na avaliação dele, o mecanismo de desaforamento, que permite transferir o julgamento para outra comarca em determinadas situações, já poderia ser utilizado nesses casos.