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Há dois anos, David de Souza foi atropelado na famosa via de SP e teve braço jogado em córrego pelo motorista responsável por trágico acidente; iG acompanha volta dele ao local

Tudo ainda doía pelo corpo quando os médicos avisaram a David de Souza que ele teria de se adaptar a uma nova vida, agora sem o braço direito. Ele teria que aprender a fazer tudo com a mão esquerda, seriam necessários exercícios para fortalecer o lado direito e o total reequilíbrio corporal. Ele tinha acabado de acordar de uma cirurgia, mas a decisão foi imediata: não queria passar a vida inteira se lamentando. 

Ainda no hospital pediu para que a mãe trouxesse um caderno. Precisava praticar a escrita. “Eu estava terminando o terceiro ano e não podia parar”, argumenta. Pediu também que a mãe não chorasse. “Falei para ele não se lastimar. Eu não daria uma de ‘joão sem braço’ para ela. Eu queria me adaptar”, relata David, mostrando que conseguiu conservar o humor, apesar do baque cruel que  a vida lhe aplicou. 

A partir daí passou a fazer tudo de uma maneira mais lenta, rápida era apenas a evolução com que se adaptava. Um mês depois da alta do hospital, já estava em cima de uma bicicleta. Hoje faz uma média de 50km de pedaladas por dia. “Quando eu era pequeno, na minha escola, tinha um menino com problema em um dos braços e que eu via andando de bicicleta. Sabia que era possível”, recorda. 

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Sete meses depois de deixar o hospital, saiu da casa dos pais para morar com amigos. Na mesma época recomeçava no rapel, sua grande paixão além da bicicleta. “O ruim é que antes eu levava 5 minutos para montar todo o equipamento. Agora é mais difícil preciso usar a boca, ou apoiar nos joelhos para amarrar as cordas”, detalha. Pratica nos fins de semana e, às vezes é instrutor. Para as duas atividades não pode usar a prótese, que ganhou de uma empresa logo depois do acidente. 

Duro como a vida é

Mas nem tudo são flores na adaptação de David. Ele teve que largar o emprego de limpeza de fachadas que lhe rendia de mil a R$ 1200 por mês. No dia do atropelamento, ele se direcionava para o Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (ICESP). Lá, ele se penduraria num prédio de 112 metros de altura. Ironicamente, ele acabou sendo encaminhado por uma ambulância a uma unidade hospitalar próxima dali, o Hospital das Clínicas.  

Ficou dez meses sem trabalhar. Ele conta que o único dinheiro que recebeu neste período foi o seguro obrigatório pago por pelos motoristas e destinado para o custeio de parte das despesas médicas das vítimas de acidentes de trânsito. 

O acidente que decepou David teve repercussão nacional em 2013. Eram 5h40 da manhã do domingo 10 de março e ele percorria a ciclofaixa da Avenida Paulista, quando um carro vindo em zigue-zague o atropelou. O ciclista ficou desacordado por dois minutos e quando voltou consciente ouviu um transeunte gritar: “mas onde está o braço dele? ”. Neste momento, Thiago Chagas, que passava pelo local e ouviu o barulho do acidente o socorria. Coube a ele fazer massagem cardíaca, reanimar a vítima e fazer um torniquete, além, é claro, de tentar acalmar a vítima. 

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O iG acompanhou David de Souza num passeio Avenida Paulista, local do trágico acidente que sofreu, em março de 2013
Edu Cesar
O iG acompanhou David de Souza num passeio Avenida Paulista, local do trágico acidente que sofreu, em março de 2013


O motorista, o estudante Alex Siwek, que na época também tinha 21 anos, não prestou socorro. Como o braço decepado estava preso no caro dele, se direcionou até o córrego da Ricardo Jafet, na zona sul de São Paulo, e lançou o membro água abaixo. 

“Eu ainda estava no hospital e o motorista já tinha saído da cadeia (David de Souza)

O caso chocou muita gente. Manifestações ocorreram. Uma das médicas da equipe do Hospital das Clínicas, especializada em reimplante e que tratou David, desabafou numa rede social: “Quero manifestar a minha indignação quanto à atitude desse monstro (...). Estávamos prontos para tentar o reimplante, mas infelizmente a polícia e os bombeiros não conseguiram encontrar o braço no rio”. 

Dias depois, Rachel Baptista apagou o comentário da rede, mas o fato é que se até seis horas depois do acidente, seria possível reimplantar o braço em David. “Eu ainda estava no hospital e o motorista já tinha saído da cadeia”, diz.  A justiça concedeu habeas corpus a Siwek onze dias depois do acidente. No ano passado, ele foi condenado a seis anos de prisão em regime semiaberto.  

Pedido de perdão que nunca veio 

A evolução de David nestes dois anos após o acidente foi grande, mas uma coisa não muda desde quando soube que tinha perdido o braço: a convicção de que não quer e não deve matutar sobre o acidente. “Se eu ficar pensando em tudo o que aconteceu me vem pensamentos, que são ruins e não levam a nada”, admite o ciclista, hoje com 24 anos. Ele decidiu perdoar o motorista que o atropelou, “mesmo sem ele nunca ter pedido perdão” e partir para outra. 

Se eu ficar pensando em tudo o que aconteceu me vem pensamentos, que são ruins e não levam a nada (David)

Antes, quando andava de bicicleta, colocava todo o peso sobre os braços. Agora, o ponto de equilíbrio é outro e é o abdômen que segura tudo. “Isso exige muito mais. Antes doíam os braços, agora é a barriga e, às vezes, as costas”. São 22km entre a casa em Diadema e o novo trabalho no administrativo da Universidade Mackenzie. O trajeto é feito sempre de bicicleta. 

A expectativa para este ano é passar no vestibular para Arquitetura. Já conseguiu bolsa na universidade que trabalha. “Vai ficar tudo mais fácil, poderei estudar e trabalhar no mesmo lugar”, projeta. 

Primeiro diploma da família 

Outra mudança na vida foi que passou a chamar mais atenção quando anda na rua. “As pessoas ficam olhando direto, às vezes estranham o fato de eu não ter um braço, às vezes me reconhecem e às vezes me olham com pena. Eu odeio isso”, confessa. 

O mais difícil ainda é voltar a escrever, para ele é mais complicado até que desenhar. “Ainda não está bom. Desenhar é mais fácil, né? Se errar você passa por cima e concerta. O único problema é que não consigo variar muito a força no papel, faço traço mais grosso.” 

Ele passou pela rede de reabilitação paulista Lucy Montoro, na Vila Mariana. “Ia para lá de bicicleta”, conta. Lá, ele aprendeu como comer, cozinhar se equilibrar, fez muita musculação e também terapia. Esta última ele logo desistiu. “Chegou uma hora que falei que estava bem, só queria aprender a fazer as coisas”. 

David agora planeja se tornar arquiteto
Edu Cesar
David agora planeja se tornar arquiteto

Para todos os outros aprendizados, ele segue à risca. “Ainda não consigo cortar cebolas. Como apoio a faca aqui do lado direito [aponta para o coto] e aproximo a cebola, acaba que é horrível. Fica muito perto dos olhos”, justifica. “Sábado eu fiz costela na pressão e pudim. Eu gosto muito de cozinhar. Minha mãe me ajudou com as cebolas”, completa.  

Se tem alguma coisa que ele mudou com tudo isso? Muita coisa. Ele passou a ser conhecido, a dar entrevistas. Muita gente ajudou “e muita gente também quis se promover em cima do que aconteceu”, comenta. Mas o que ele aprendeu é que a vida não é só trabalho e estudo. “Levava uma vida tão corrida que não dava nem para refletir. Agora priorizo muito o lazer”. 

Ele não vai mais poder ser bombeiro, como queria, mas aguarda conseguir passar no vestibular de arquitetura. “Serei o primeiro dos meus sete irmãos a fazer um curso superior. Eu sou o caçula. Isso é importante para mim e pode incentivar que os outros também façam”.

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