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David de 10 anos vive com a família em barraco à margem de esgoto, mas talento supera dificuldades; projeto social atende 300 jovens de 8 a 16 anos na comunidade paulistana

As sinuosas e movimentadas vielas de Paraisópolis, localizada na zona sul de São Paulo, encontram a perfeição e a delicadeza do balé clássico em um estúdio de dança inaugurado em março deste ano. No centro do salão, David Rocha, de apenas 10 anos, exibe com facilidade os movimentos que aprendeu após dois anos frequentando aulas na sede do Ballet Paraisópolis, que atende 300 crianças do bairro. 

O talento na coreografia ensaiada parece superar a dura realidade que aguarda David do lado de fora da porta. Criado em um barraco na viela da Caixa Baixa, uma das partes mais carentes da região, sua família convive com montantes de lixo, acumulados na época das chuvas, enchentes e até presença de ratos. “Não é o ambiente mais feliz. Mas esqueço de tudo quando o vejo dançar”, diz a mãe Patricia Rocha, de 37, que mora há 15 anos em Paraisópolis.

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A paixão pela dança veio como uma agradável surpresa, mas também acompanhada por brincadeiras maldosas na escola. “Eu escuto que balé não é coisa de homem, mas não ligo”, explica o pequeno bailarino. Em uma discussão, ele desafiou o amigo a enfrentar uma aula com a enérgica professora e bailarina Mônica Tarragó, líder do projeto. “Hoje ele é aluno daqui também”, diz aos risos. 

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Ao lado de 20 bailarinos com até 16 anos, David integra o grupo especial da companhia, que é sempre levado para apresentações em espaços importantes, como o Auditório do Ibirapuera, também na zona sul. Patricia não acompanhou o solo do filho, pois estava nos bastidores como voluntária. “A alegria era como se estivesse visto. A dança deu uma nova chance e quero acreditar que ele terá um futuro melhor”. 

Nos palcos e longe do crime

A vida de 300 bailarinos, com idades entre 8 e 16 anos, deve ser moldada longe da criminalidade após o contato da dança. Essa é a aposta da experiente bailarina Mônica, que abandonou décadas de aula em escolas particulares para se dedicar ao projeto, desde março de 2012. E tudo começou quando ela descobriu que dois alunos bolsistas, jovens pobres do Jardim Ângela haviam sido aceitos no respeitado Teatro Bolshoi do Brasil. 

Professor Edilson Gomes e Mônica Tarrago (líder do projeto) posam com o grupo especial juvenil
Edu Cesar
Professor Edilson Gomes e Mônica Tarrago (líder do projeto) posam com o grupo especial juvenil


“Ali começou a vontade de ajudar crianças que eu conseguia ver da janela do meu apartamento”, conta ela, que mora no Morumbi, bairro de alto padrão que divide fronteira com Paraisópolis. Para que o candidato seja aceito no programa, Mônica tem duas exigências: estar matriculado na escola e 100% de frequência. “Isso eu faço questão de acompanhar de perto. Faz parte da disciplina do jovem”. 

Após oito anos de curso, jovens se formam bailarinas amadores e podem integrar companhias, continuar os estudos e se tornar mestras. “A minha primeira turma será formada em 2020. E espero formar professores e que eles continuem o projeto”. Esse é o sonho de Larissa Ferreira, de 16 anos, a mais velha do grupo especial juvenil. Após tentar dança do ventre e hip hop, ela se apaixonou pelo balé clássico após a primeira apresentação. “Todo mundo deveria ter uma experiência de palco. Mudou a minha vida”.

Durante a entrevista, Mônica observa atenta movimentos, detalhe das roupas e até o cabelo dos alunos. Meninos devem estar apropriadamente penteados e meninas não podem esquecer o gel e a rede para compor o coque. Entre uma bronca e outra, ela confessa ao iG que ainda não está satisfeita com a atual estrutura do projeto. O próximo desafio é conseguir novos patrocinadores, equipar o segundo andar do prédio com um novo estúdio de dança e receber as 800 crianças que aguardam na lista de espera. “Temos potencial aqui para mudar a vida de dez mil crianças, mas hoje não tenho estrutura para isso”. 

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