Fortaleza tem "relação controversa" com seu cartão postal

Os fortalezenses querem a sombra e a água fresca das barracas da Praia do Futuro, mas reconhecem que elas poluem a cidade

Daniel Aderaldo, iG Ceará | 14/04/2011 21:55

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O fortalezense vive uma relação controversa com as barracas instaladas na Praia do Futuro. A maioria da população aprova os estabelecimentos, mas sabe que as agressões ambientais existem e que elas precisam ser corrigidas. É o que revela pesquisa encomendado pela Câmara Municipal de Fortaleza sobre a identificação dos moradores da cidade com esses equipamentos que se tornaram referência de lazer da capital cearense.

Foto: Daniel Aderaldo/iG Ampliar

Praia do Futuro, em Fortaleza: as barracas viraram um complexo de turismo

A comida, a água de coco e o caranguejo são os principais atrativos para os visitantes que procuram a Praia do Futuro. O mar é convidativo, mas são o serviço, a segurança e o conforto proporcionados pelas barracas que tornaram os seis quilômetros de orla o destino turístico mais procurado da cidade e um dos lazeres prediletos do fortalezense.

O crescimento desordenado das barracas e a apropriação do espaço público, contudo, fizeram a Justiça Federal no Ceará questionar a legalidade dos empreendimentos, o que motivou a realização da pesquisa “A Imagem das Barracas da Praia do Futuro em Fortaleza”, que ouviu cerca de duas mil pessoas para traçar um perfil da imagem que a população faz do espaço e de seus equipamentos.

As barracas existem há mais de 30 anos na Praia do Futuro, localizada no leste da cidade. No início, as estruturas eram simples, feitas de madeira e cobertas com palha de carnaúba, um tipo de palmeira típica do Ceará. Hoje, apesar de ainda serem chamadas de barracas, esses estabelecimentos se tornaram verdadeiros complexos com vários ambientes, piscinas, lagos artificiais e parques aquáticos.

O estudo da Câmara mostra que o fortalezense não está disposto a abrir mão dessa estrutura, mas ao mesmo tempo reconhece que as barracas agridem o meio ambiente, provocando poluição e ocupando área permanente de proteção (APP).

Em outubro de 2010 uma decisão proferida pelo juiz José Vidal Silva Neto, da 4ª Vara Federal, atendeu a uma ação civil pública proposta pelo Ministério Público Federal (MPF), pela Advocacia Geral da União (AGU) e pela Prefeitura Municipal de Fortaleza (PMF) contra os proprietários de estabelecimentos comerciais instalados nesse trecho do litoral cearense.

Perguntados se concordam com a medida de demolir as barracas, 914 disseram que não e 910 afirmaram concordar com um reordenamento. Apenas 130 entrevistados expressaram o desejo de que se cumpra a decisão judicial.

Ainda que as barracas sejam quase uma unanimidade, os entrevistados mostraram ter dimensão dos prejuízos causados ao meio ambiente. Conforme a pesquisa, 57% das pessoas ouvidas apontaram as barracas como principais causadoras de poluição na orla.

De acordo com o coordenador da pesquisa, Leonardo Vasconcelos, quando o questionamento foi sobre vantagens e desvantagens da estrutura, 32,6% apontaram como positivo o atrativo turístico e, como negativo, 33,1% indicaram a poluição e os prejuízos ao meio ambiente.

A pesquisa revelou ainda que 12,5% dos entrevistados vão à praia com muita freqüência e 14,6% disseram ir uma vez por semana. Do total de entrevistados, 1735 vivem em Fortaleza e 244 vivem em outras cidades – a maioria da região metropolitana. Desse grupo, 118 disseram ir à Praia do Futuro sempre que estão na cidade.

Foto: Daniel Aderaldo/iG

As barracas da Praia do Futuro oferecem não apenas drinques e comida. Algumas delas têm massagem e piscina

Ao abordar o tipo de reordenamento que se deve fazer na praia, Leonardo destacou que os pontos mais abordados pelos entrevistados foram a padronização das barracas, a organização do uso da praia e a diminuição do número e da área das barracas.

Reordenamento

A representante da Advocacia Geral da União (AGU), Isabel Cecília Bezerra, explica que o local em que as barracas estão erguidas é uma Área de Proteção Permanente (APP) e que, portanto, não podem ser edificadas com vistas ao interesse particular. “As barracas fazem parte da cultura do cearense e do turismo, mas me preocupo com o aspecto legal, que não pode ser desprezado. AGU, população, empresários, todos reconhecem que deve haver um reordenamento. O ponto de toque, no entanto, é como se dará esse reordenamento, como o Poder Público e os demais entes podem trabalhar sem ferir a legislação.”

A presidente da Associação dos Empresários da Praia do Futuro, Fátima Queiroz, afirmou que grande parte dos proprietários são favoráveis a regularização das barracas: “As barracas são um patrimônio de lazer e de turismo, é inegável".

Abandono

Das 160 barracas instaladas na Praia do Futuro, apenas 126 estão em funcionamento. As outras 34 estão estão abandonadas, sendo que boa parte está em ruínas. Elas estão desmoronando, cobertas por dunas e algumas servem de esconderijo para criminosos.

Em reportagem sobre o aniversário de 285 anos de Fortaleza, o iG ouviu o arquiteto e urbanista Joaquim Cartaxo sobre o problema das barracas. Ele defendeu adotar medidas como a imediata demolição das barracas abandonadas, seguida da urbanização das áreas em que estavam construídas para melhor a segurança dos usuários.

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