O que é “Pau do Presidente”? Castanheira marca rodovia no Brasil

Marco inaugurado em 1972, perto de Altamira, no Pará, guarda a história de uma estrada usada como símbolo de integração nacional na ditadura militar

O Pau do Presidente é o monumento que marca o início da construção da Rodovia Transamazônica (BR-230)
Foto: Reprodução
O Pau do Presidente é o monumento que marca o início da construção da Rodovia Transamazônica (BR-230)

Uma castanheira amazônica se tornou um dos marcos históricos da Rodovia Transamazônica (BR-230) , no Pará . Conhecido popularmente como “Pau do Presidente”, o monumento foi criado para registrar o avanço de uma das principais obras de infraestrutura do regime militar e o projeto de integração da Amazônia ao restante do Brasil.

Localizado perto de Altamira, no sudoeste paraense, o marco tem uma placa de bronze ligada à inauguração da rodovia. A estrutura remete a um episódio de setembro de 1972, quando o então presidente Emílio Garrastazu Médici participou da cerimônia de entrega do primeiro grande trecho da estrada ao tráfego.

No entanto, a história do monumento começa antes. Em 9 de outubro de 1970, Médici esteve na região para marcar simbolicamente o início das obras da Transamazônica . Na ocasião, uma castanheira foi derrubada, e uma placa foi colocada no tronco que permaneceu no local.

Segundo artigo publicado na revista Acervo, do Arquivo Nacional, o monumento foi inaugurado em 27 de setembro de 1972, em uma cerimônia que marcou a entrega do primeiro trecho trafegável da rodovia. O conjunto foi construído em uma clareira na floresta, nas proximidades do rio Xingu . 

Por que o monumento ficou conhecido como “Pau do Presidente”?

O apelido popular faz referência ao tronco de castanheira usado como marco simbólico da obra e à participação do presidente Médici na cerimônia de início da construção.

A placa instalada no local apresentava a rodovia como uma iniciativa histórica de conquista e colonização da Amazônia . O monumento não era apenas uma referência à abertura de uma estrada, mas também representava a mensagem política difundida pelo governo militar sobre a ocupação e a integração territorial do país.

Naquele período, a Transamazônica fazia parte de um projeto de expansão da infraestrutura e de incentivo à ocupação da região amazônica. A abertura de estradas e a instalação de núcleos de colonização eram apresentadas pelo governo como formas de conectar áreas consideradas distantes dos principais centros econômicos brasileiros.

Estudos históricos sobre a rodovia analisam esse discurso como parte da propaganda oficial da ditadura, que associava grandes obras ao desenvolvimento nacional. Contudo, a experiência na região também foi marcada por dificuldades de infraestrutura e pelos impactos sociais e ambientais da ocupação. 

Pesquisas sobre a propaganda da época mostram que a região era frequentemente retratada como um espaço pouco ocupado, argumento usado para justificar a colonização e a exploração econômica. Essa visão desconsiderava a presença de povos indígenas e de comunidades que já viviam no território.

O que está escrito na placa da Transamazônica?

A inscrição original faz referência ao início da construção da rodovia às margens do rio Xingu . O texto apresenta a obra como uma iniciativa para a “conquista e colonização” da Amazônia, expressão que revela a visão oficial adotada pelo governo militar naquele momento histórico.

O monumento foi planejado para reforçar a importância simbólica da estrada. Além do tronco com a placa, o conjunto original incluía estruturas de concreto, elementos decorativos feitos com madeiras de diferentes tonalidades e formas triangulares que apontavam para diferentes direções.

A composição foi construída em uma clareira próxima a Altamira, no mesmo local em que havia ocorrido a cerimônia de início das obras, em 1970. 

Restauração do monumento

A castanheira original não está mais no local, visto que o tronco se deteriorou com o passar do tempo. Em 2013, durante uma restauração do monumento, ele foi substituído por um tronco semelhante, de menor proporção. A placa histórica foi retirada da madeira e instalada em um suporte de concreto ao lado.

A mudança preservou o marco, mas alterou sua configuração original. Por isso, a estrutura vista atualmente não corresponde integralmente ao tronco que recebeu a placa durante a construção da rodovia.

O episódio também evidencia o desafio de conservar monumentos feitos com materiais orgânicos expostos às condições climáticas da Amazônia. 

O que é a Rodovia Transamazônica

Oficialmente identificada como BR-230, a Transamazônica é uma rodovia federal que atravessa diferentes estados das regiões Norte e Nordeste . O projeto foi lançado durante o governo de Emílio Garrastazu Médici, no período da ditadura militar, com a proposta de ampliar a conexão terrestre e estimular a ocupação de áreas da Amazônia.

A estrada atravessa estados como Paraíba, Ceará, Piauí, Maranhão, Tocantins, Pará e Amazonas . No Pará, passa por municípios importantes para a circulação regional, entre eles Altamira e Marabá .

Rodovia Transamazônica
Foto: Reprodução
Rodovia Transamazônica


Embora o governo militar apresentasse a Transamazônica como um símbolo de desenvolvimento e integração nacional, a obra também é alvo de críticas pelos impactos sociais e ambientais associados à sua construção e à ocupação da região amazônica.

Entre os impactos identificados por pesquisadores estão o desmatamento, a pressão sobre territórios indígenas e os conflitos relacionados à ocupação das terras. Estudos também documentam violações de direitos de povos indígenas e ribeirinhos, além de problemas enfrentados por trabalhadores envolvidos na construção da estrada.


Assim, o “Pau do Presidente” representa mais do que um marco da engenharia rodoviária. O monumento também remete a um projeto político cuja memória envolve tanto a promessa de integração nacional quanto os custos humanos e ambientais da ocupação da Amazônia .