Ludopatia: apostas levaram empresário a perder R$ 100 mil em 72h

Vício em bets têm levado brasileiros ao endividamento, à depressão e até ao risco de suicídio; especialistas explicam como identificar o transtorno

Ludopatia: apostas levaram empresário a perder R$ 100 mil em 72h
Foto: Joédson Alves/Agência Brasil
Ludopatia: apostas levaram empresário a perder R$ 100 mil em 72h

Em apenas 72 horas, o empresário Marcelo Silva, de 31 anos, perdeu mais de R$ 100 mil durante o período em que estava viciado em jogos de azar. Primeiro, foram os R$ 50 mil que tinha na conta. Depois, outros R$ 50 mil emprestados. A reserva financeira construída ao longo dos anos desapareceu em um único fim de semana.

“Foi a pior fase da minha vida” , relembra.

Marcelo entrou no universo das apostas durante a Copa do Mundo de 2022 . Inicialmente, apostava apenas nos jogos da seleção brasileira, mas logo passou a jogar em campeonatos que sequer acompanhava, investindo quantias cada vez maiores de dinheiro.

Ele conta que acreditava não poder parar enquanto não recuperasse tudo o que havia perdido e se convencia de que abandonaria as apostas assim que voltasse ao ponto de partida.

Essa lógica estava diretamente ligada ao funcionamento das odds, indicador que define quanto a casa de apostas paga ao apostador em caso de vitória. Marcelo acreditava que bastaria fazer apostas maiores e aparentemente mais seguras para recuperar os prejuízos acumulados.

Eu pensava assim: ‘Se estou com R$ 3 mil de prejuízo, basta apostar R$ 10 mil com uma odd de 1,3 para recuperar minha perda’. Mas quando você está doente psicologicamente por causa do vício, acaba tomando péssimas decisões sem perceber.



Os impactos, porém, foram muito além das finanças.

“No trabalho, eu não conseguia me concentrar. Passava o dia inteiro pensando na próxima aposta ou acompanhando resultados. Já participei de reuniões importantes sem conseguir prestar atenção. Meu relacionamento também foi prejudicado e desenvolvi alopecia areata por causa da ansiedade.”

Outro desafio durante a recuperação foi a exposição constante às propagandas do setor.

Quem gosta de futebol sofre muito. A cada dez comerciais, sete são de casas de apostas. Por um tempo, precisei parar até de assistir aos jogos para conseguir me recuperar.



Hoje, após acompanhamento psicológico, Marcelo afirma que conseguiu retomar o controle da própria vida. Ainda assim, considera a recuperação um processo contínuo.

“Até hoje sinto vontade de apostar. Aprendi que vou precisar lidar com isso pelo resto da vida.”

A história de Marcelo está longe de ser um caso isolado. Reconhecida pela  Organização Mundial da Saúde (OMS) como transtorno mental, a ludopatia afeta cerca de 1,4 milhão de brasileiros . Outros 10,9 milhões apresentam comportamento de risco, segundo o Terceiro Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD III), realizado pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Quando a pessoa passa a apostar valores cada vez mais altos, tenta parar e não consegue ou continua jogando mesmo após grandes perdas na tentativa de recuperar o dinheiro perdido, o jogo deixa de ser uma escolha e passa a ser uma necessidade.

De acordo com o psiquiatra Edgar Oliveira, dois fatores dificultam que os pacientes reconheçam que estão enfrentando um vício.

O primeiro fator é neurológico: o vício altera o cérebro de um jeito que prejudica a autocrítica. A pessoa literalmente não enxerga o problema com clareza porque o órgão responsável por essa avaliação — o córtex pré-frontal — está sendo sobrecarregado pela dinâmica da compulsão. O segundo é cultural: apostar ainda carrega muito estigma, e admitir que perdeu o controle com algo visto como ‘fraqueza de caráter’ é muito difícil.



Segundo o especialista, muitos pacientes só procuram ajuda quando a situação já atingiu níveis extremos, com dívidas elevadas, relacionamentos abalados e risco de perda do emprego.

Outro aspecto preocupante é o risco de suicídio. Estudos indicam que pessoas com ludopatia apresentam índices de ideação suicida significativamente maiores do que a população geral. Entre os pacientes que buscam tratamento, até 50% já tiveram pensamentos suicidas e cerca de 17% tentaram tirar a própria vida, segundo dados da Associação Americana de Psiquiatria.

“Isso acontece porque a soma de vergonha, dívidas impagáveis e sensação de não ter saída cria um estado de desespero muito intenso. É por isso que o tratamento precisa ser especializado e urgente, mas o Brasil está pouquíssimo preparado para ajudar, seja no sistema público ou privado” , afirma.

Histórias que se repetem

A trajetória de Marcelo não é única. Leila Pereira também viu as apostas deixarem de ser uma distração para se tornarem um problema que afetou sua vida financeira, profissional e emocional.

Ela conheceu as apostas esportivas em 2024 por meio de influenciadores digitais. O que começou com apostas de baixo valor em uma única plataforma rapidamente evoluiu para o uso de diversos sites.

Na época, enfrentava um quadro de depressão e encontrou nos jogos uma forma de aliviar a sensação de solidão. Com o passar dos meses, porém, o hábito se transformou em compulsão.

Leila perdeu o emprego, começou a recorrer a empréstimos e passou a viver em função das apostas.

Eu comecei a tirar nos cartões empréstimos e não via que eu não ganhava suficiente pra repor o que eu perdia. Então comecei a pegar dinheiro com um e com outro. Enquanto eu ganhava, pegava e pagava, mas nunca dava. Eu ia ficando mais e mais enrolada. Era como uma droga. Eu já dormia e acordava com aqueles símbolos na minha cabeça.



Embora a família soubesse que ela apostava, Leila compartilhava apenas os momentos de vitória. As perdas, os empréstimos e as dívidas permaneceram escondidos até que uma das pessoas para quem ela devia dinheiro procurou seu marido.

Ao todo, ela acumulou cerca de R$ 50 mil em dívidas, incluindo valores tomados com agiotas.

“ Hoje eu me encontro depressiva. Estou com essa dívida que todo dia tem alguém me cobrando. Já não durmo mais e não consigo dizer ao meu esposo que ainda devo. Fora que ele nunca mais me deu dinheiro, pois acha que ainda jogo. Com a desconfiança da família, todos te abandonam. Hoje eu não vivo mais, vegeto. Todos os dias torturo minha mente me culpando” , desabafa.

Leila afirma que só descobriu que a ludopatia era uma doença ao assistir ao relato de outra mulher nas redes sociais. Apesar disso, ainda não faz acompanhamento médico e encontra dificuldades para falar sobre o problema.

Quando o caso chega à Justiça

Embora as apostas envolvam risco assumido pelo jogador, especialistas apontam que pessoas diagnosticadas com ludopatia podem ter direito de recorrer à Justiça em determinadas situações. Segundo o advogado Charles Dias, a possibilidade de recuperar valores perdidos ou obter indenização depende da comprovação de que a plataforma falhou no dever de proteção ao consumidor.

Entre os fatores analisados estão a existência de comportamento compulsivo, a ausência de mecanismos eficazes de prevenção, a omissão diante de movimentações excessivas e o descumprimento das regras de jogo responsável previstas na legislação brasileira.

Para o especialista, diagnósticos e laudos médicos não são obrigatórios para ingressar com uma ação, mas costumam ter peso relevante na comprovação da vulnerabilidade do jogador e na avaliação dos danos sofridos.

"Na prática, o diagnóstico psicológico ou psiquiátrico possui enorme relevância probatória. Isso porque o laudo técnico ajuda a comprovar a existência da ludopatia, o comprometimento do discernimento, a perda de autocontrole e a hipervulnerabilidade do consumidor. Em ações mais complexas, sobretudo aquelas que buscam nulidade das apostas ou restituição integral dos valores, os relatórios médicos e psicológicos costumam exercer papel decisivo na formação do convencimento judicial" , explica Charles.