primeira avaliação do Plano de Ação do Pacto Nacional de Prevenção aos Feminicídios (PNPF)
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primeira avaliação do Plano de Ação do Pacto Nacional de Prevenção aos Feminicídios (PNPF)


A primeira avaliação do Plano de Ação do Pacto Nacional de Prevenção aos Feminicídios (PNPF) revela um cenário sem muitos avanços e aponta
falhas graves na rede de atendimento às mulheres, indicando que o país continua longe de dar uma resposta concreta à escalada da violência de gênero.

O documento, apresentado pela senadora Mara Gabrilli (PSD) na Comissão de Direitos Humanos na última quarta-feira (26), reúne dados oficiais, análises e informações obtidas em audiências públicas, reuniões técnicas e pedidos enviados ao Poder Executivo. A coordenação do Comitê Gestor do PNPF fica a cargo da Secretaria Nacional de Enfrentamento à Violência contra Mulheres, ligada ao Ministério das Mulheres.

Segundo a relatora, os resultados revelam a necessidade urgente de corrigir lacunas e reforçar a política.

“Não executar um orçamento dessa importância é um atestado de incompetência. Não podemos ver mulheres morrendo devido a inação”, declarou Mara Gabrilli para o Senado Noticias.

Ela afirmou também que os problemas identificados devem servir de base para aprimorar o plano e garantir atuação conjunta entre as instituições.

Resultado 

O documento foi elaborado com apoio do Observatório da Mulher no Senado, que levantou dados mostrando que o feminicídio continua em níveis altos no país. Entre 2020 e 2024, o Brasil registrou de 1.355 a 1.459 casos por ano, o que representa quatro mulheres assassinadas por dia.

As maiores taxas proporcionais estão nas regiões Centro-Oeste e Norte, enquanto os maiores números absolutos se concentram no Sudeste, especialmente em estados mais populosos, como São Paulo e Minas Gerais.

Feminicídio
Reprodução/freepik
Feminicídio

A análise também mostra que a maioria  das vítimas não chega a acessar a rede especializada mesmo após sofrer agressões. Além disso, muitas desconhecem os serviços disponíveis: 38% já ouviram falar na Casa da Mulher Brasileira, e 57% conhecem a Casa Abrigo. A subnotificação permanece alta, com 59% das mulheres deixando de denunciar o agressor.

O relatório aponta problemas estruturais já conhecidos, como a falta de integração entre saúde, segurança pública, assistência social e o Judiciário; a baixa presença da rede em áreas rurais e remotas; a falta de profissionais capacitados para atendimento com perspectiva de gênero; falhas no cumprimento de medidas protetivas; e desigualdades no atendimento a mulheres negras e povos originários.

A presidente da Comissão de Direitos Humanos, senadora Damares Alves (Republicanos), afirmou que o documento traz dados que “incomodam e entristecem” e lembrou que a política de combate ao feminicídio é transversal, envolvendo diversos setores do poder público e exigindo articulação entre diferentes órgãos.

“Não é fácil executar um plano dessa natureza, mas os apontamentos feitos pela senadora Mara Gabrilli vão gerar reflexões. Temos um grupo extraordinário nesta comissão para construir respostas”, afirmou.

Desafios encontrados

O relatório também aponta dificuldades na execução do Plano Nacional, que conta com R$2,5 bilhões previstos no Orçamento e reúne 73 ações distribuídas entre prevenção primária, secundária, terciária e produção de dados.

Entre os principais entraves identificados estão:

  • Baixa adesão e baixa execução do plano pelos estados. Algumas unidades federativas aderiram ao pacto, mas ainda não criaram planos locais de metas, o que dificulta a implementação nacional.
  • Contingenciamentos e recusa de recursos federais, com estados deixando de executar verbas destinadas a estruturas como a Casa da Mulher Brasileira.
  • Alta rotatividade de equipes nos ministérios responsáveis pelo acompanhamento das ações.
  • Rede psicossocial fragilizada, com metade das sobreviventes relatando ideação ou tentativa de suicídio.
  • Falta de capacitação, já que cerca de 80% dos profissionais que atuam na ponta não conhecem conceitos básicos sobre violência.
  • Ausência de integração entre instituições e falta de fluxos claros de encaminhamento.
  • Desigualdades raciais e territoriais, com 85% das vítimas sendo mulheres negras e até 32% dos casos registrados em áreas rurais ou de floresta.

Para o senador Flávio Arns (PSB), o documento oferece subsídios importantes para uma articulação mais ampla. “Os caminhos definidos aqui servem para estados e municípios. É preciso haver um sistema nacional para que essa cadeia funcione”, afirmou.

Somente em 2025, o DF já registrou dez feminicídios
Reprodução
Somente em 2025, o DF já registrou dez feminicídios

O senador Eduardo Girão (Novo) também criticou a baixa execução das ações. “Fiquei estarrecido ao ler alguns trechos. A eficácia é praticamente ínfima. É esse o governo que disse que defenderia as mulheres?”, questionou.

Recomendações

O relatório também traz uma série de recomendações para reforçar o Plano de Ação. Entre as principais propostas estão:

  • Ampliar a articulação entre ministérios, estados e municípios.
  • Garantir financiamento adequado e execução do orçamento destinado ao combate ao feminicídio.
  • Acelerar a criação de sistemas integrados de dados sobre violência.
  • Investir na capacitação contínua de profissionais da saúde, segurança pública e assistência social.
  • Fortalecer estruturas como as Casas da Mulher Brasileira, abrigos e unidades móveis de atendimento.
  • Estabelecer protocolos unificados de atendimento e fluxos claros entre os serviços.
  • Ampliar ações específicas voltadas para mulheres negras, indígenas, quilombolas e rurais.
  • Consolidar mecanismos permanentes de monitoramento e avaliação do plano.

Ao encerrar a apresentação, e com o relatório aprovado pela comissão, Mara Gabrilli destacou a necessidade de usar os dados levantados como ponto de partida para ações concretas. “O relatório mostra exatamente o que cada um deve fazer. Detectamos os problemas, agora precisamos trabalhar juntos para enfrentá-los”, afirmou.

O relatório agora segue como referência para ajustes no Plano Nacional, e os senadores cobram que as falhas apontadas se convertam em ações concretas. A expectativa é de que a articulação entre os governos avance e as medidas ganhem ritmo para reforçar a proteção das mulheres em todo o país.

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