No mapa do Brasil, alguns municípios parecem verdadeiros países. Altamira, no Pará, tem 159,5 mil km², uma área maior que a de Portugal . Barcelos, no Amazonas, soma 122 mil km², quase o tamanho da Grécia . Mas, ao contrário dessas nações, ambas as cidades somam juntas menos de 150 mil habitantes .
Essa discrepância territorial é um traço profundo da formação histórica do país.
“O Brasil tem um território imenso e uma tradição administrativa que remonta às sesmarias, quando grandes extensões eram distribuídas para controle colonial” , explicou ao Portal iG o professor Roberto Luiz do Carmo, sociólogo e demógrafo com pós-doutorado pela Brown University (EUA).
“Mesmo com o passar dos séculos, as redefinições políticas, de províncias a estados, mantiveram grandes áreas sob uma mesma jurisdição.”
Por que temos cidades maiores que países
Com 8,5 milhões de km², o Brasil é o quinto país mais extenso do planet a. Essa vastidão, somada ao processo de colonização que começou no litoral e avançou lentamente para o interior, resultou em contrastes geográficos marcantes: os municípios costeiros tendem a ser menores, enquanto os do Centro-Oeste e da Amazônia ocupam áreas gigantescas .
Segundo o IBGE , todos os dez maiores municípios brasileiros em extensão estão no Pará e Amazonas . O campeão, Altamira (PA), é quase duas vezes Portugal e supera na área países como Coreia do Sul ou Islândia. Em seguida vêm Barcelos (AM), São Gabriel da Cachoeira (AM), Oriximiná (PA) e Tapauá (AM).
Esses territórios enormes se explicam também por fatores geográficos e ambientais.
“Muitas dessas regiões englobam áreas indígenas e unidades de conservação onde o desmembramento não é permitido, o que mantém os municípios com áreas desproporcionais”, diz o pesquisador.
O outro extremo: cidades que cabem num bairro
Enquanto Altamira se estende por milhares de quilômetros, há municípios brasileiros menores que um bairro paulistano. Santa Cruz de Minas (MG), o menor do país, tem apenas 3,6 km², o equivalente ao bairro do Leblon, no Rio de Janeiro .
O contraste é visível também na densidade populacional: enquanto Altamira abriga 0,8 habitante por km², São Paulo (SP) concentra 7.527,8 pessoas por km², segundo o Censo 2022. A densidade média brasileira é de 23,9 habitantes/km², número que esconde desigualdades regionais profundas.
História e política moldaram os limites
As fronteiras municipais brasileiras são produto de séculos de disputas políticas, geográficas e econômicas. Ainda hoje há litígios territoriais entre estados, como na Serra da Ibiapaba (entre Piauí e Ceará) e na divisa entre Bahia e Minas Gerais.
Além das questões históricas, há um componente político forte na criação de municípios. A Constituição de 1988 facilitou os desmembramentos, provocando uma “explosão municipalista” nas décadas de 1980 e 1990. Hoje, o país conta com 5.568 municípios, além do Distrito Federal e do distrito estadual de Fernando de Noronha.
“Nem sempre a criação de novos municípios ocorreu de forma planejada. Faltou uma política pública que orientasse a ocupação e o equilíbrio entre território e população”, aponta Carmo.
Quando o tamanho é um problema
Municípios extensos e pouco povoados enfrentam desafios administrativos gigantescos. Distâncias longas, estradas precárias e baixa densidade tornam cara a oferta de serviços públicos. Em contrapartida, cidades muito pequenas sofrem com falta de recursos e estrutura.
“Há casos em que manter a administração de um município se torna inviável” , alerta o demógrafo. Ele lembra que, no Rio Grande do Sul, 290 dos 496 municípios perderam população entre 2010 e 2022, muitos deles com menos de 5 mil habitantes.
Com o envelhecimento da população e a desaceleração do crescimento demográfico, Carmo prevê uma mudança de rumo:
“Em vez de criar novos municípios, talvez o país precise discutir a fusão de alguns, principalmente onde há baixa capacidade econômica.”
Município não é cidade — e isso faz diferença
Um ponto importante, segundo o especialista, é distinguir os conceitos de “município” e “cidade”. O primeiro é uma unidade administrativa que pode englobar zonas rurais, distritos e vilas; o segundo refere-se apenas à área urbana.
Em municípios muito pequenos, todo o território é classificado como urbano, o que impacta diretamente na arrecadação.
“Áreas urbanas recolhem IPTU, que vai para o município. Já nas áreas rurais, o imposto é o ITR, que é federal. Essa diferença fiscal influencia como os prefeitos delimitam o território”, explica Carmo.
Do interior ao caos metropolitano
O processo que originou as grandes metrópoles brasileiras também tem raízes históricas. A industrialização do século 20 fez de São Paulo um polo de migração e crescimento urbano explosivo.
“O desenvolvimento das indústrias atraiu fluxos migratórios de várias regiões, especialmente do Nordeste. Isso impulsionou o crescimento da cidade e, depois, da região metropolitana” , recorda o professor.
Hoje, com a desindustrialização, o setor de serviços domina as metrópoles, mas os problemas se acumularam: desigualdade social, "periferização" e ocupação de áreas de risco.
“As grandes cidades se tornaram territórios de alta vulnerabilidade ambiental, algo que preocupa ainda mais diante das mudanças climáticas” , completa.
Um país de contrastes territoriais
Entre Altamira (PA) e Santa Cruz de Minas (MG), o Brasil mostra que sua geografia é também um espelho de sua história. A amplitude territorial, combinada à ausência de planejamento e às diferenças econômicas regionais, produz um mosaico de realidades urbanas e rurais sem paralelo no mundo.
Como resume Carmo:
“A variabilidade é enorme em termos de área e densidade demográfica. Ela reflete processos históricos, dinâmicas econômicas e influências políticas, e mostra como o Brasil ainda busca equilíbrio entre território e população.”