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Arquivo pessoal
Maria Luiza Santana do Nascimento faleceu aos 70 anos com suspeita de covid-19

A dor da perda que se abateu sobre a família de Maria Luiza Santana do Nascimento se somou a um turbilhão de dúvidas. Aos 70 anos , moradora da Rocinha, ela morreu por volta das 23h30m deste domingo, 29, na Unidade de Pronto Atendimento ( UPA ) da comunidade, na Zona Sul do Rio, com sintomas do coronavíru s.

Os exames para confirmar se ela teve a covid-19 ainda devem demorar alguns dias. Mas, além de terem que se despedir de Maria Luiza à espera de uma resposta, os parentes dela receberam um prazo de 24 horas para retirar o corpo da unidade de saúde e esbarraram com uma série de desinformações sobre como proceder.

"Não podemos nem ter o luto. Teremos que vivê-lo outra hora. O corpo não pôde sequer ser levado para o IML (Instituto Médico Legal), que nos respondeu que não recebem mais casos suspeitos de coronavírus , apenas os de mortes violentas", conta a jornalista e professora Raquel Lobão, nora de Maria Luiza.

Se confirmada a morte por covid-19 , ela seria a primeira vítima na Rocinha , maior favela do Rio, que desde o início da pandemia preocupa os especialistas devido às condições da comunidade, onde muitas casas não têm nem janelas.

Até o boletim divulgado neste domingo à noite pela Secretaria municipal de Saúde (SMS), não havia casos comprovados da doença na Rocinha, embora a pandemia já tivesse chegado a outras áreas pobres, como Manguinhos, Parada de Lucas e Cidade de Deus.

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A família conta que Maria Luiza não tinha doenças preexistentes, como diabetes ou problemas cardíacos. A primeira vez que ela procurou a UPA foi na quarta-feira da semana passada, mas voltou para casa com um diagnóstico de gripe . No sábado, ela começou a sentir falta de ar e voltou para a unidade.

A partir daí, tudo foi muito rápido, sem tempo nem de entender o que estava acontecendo.

"Minha sogra era uma pessoa para cima, otimista, com uma boa saúde. Ao chegar à UPA, ela fez exame de sangue, três sessões de nebulização e, na terceira, teve uma crise de tosse . Ela foi levada, então, para a sala vermelha, onde foi entubada . Ficou isolada, e o filho mais velho só podia vê-la através de uma proteção transparente. Ontem à noite, ele percebeu uma movimentação. Os rins dela tinham parado. Três horas depois, ela faleceu" relata Raquel.

Família avalia cremação ou enterro

Segundo a nora de Maria Luiza, a coleta de material para o exame do coronavírus foi realizada no próprio domingo, ainda sem resultado. Na certidão de óbito, a causa foi identificada como septicemia pulmonar não especificada. E começou ali mais uma agonia.

"Apesar da obrigação da família de tirar o corpo da UPA em 24 horas, ninguém soube nos orientar como deveríamos fazer o sepultamento . É uma situação surreal. Depois de o IML nos informar que não receberia o caso, tivemos que contratar um serviço funerário. A empresa que está nos dizendo quais são os procedimentos, como a necessidade de enrolar o corpo em um pano e dois plásticos", diz a jornalista.

A família analisa agora se vai enterrar ou cremar o corpo de Maria Luiza. Independentemente da decisão, será uma despedida acompanhada por poucos .

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Segundo a funerária explicou à família, no caso de um sepultamento não haverá velório , e só uma pessoa poderá acompanhar o enterro. Se optarem pela cremação , haverá um velório apenas simbólico, para no máximo dez pessoas, limitado a uma hora de duração.

"E se não pudéssemos pagar a funerária ? Na UPA, questionamos isso. Ouvimos de um funcionário que 'procurariam um hospital grande para que lidassem com o corpo'. Não sabemos nem se, após a morte, vamos receber o resultado do teste do coronavírus. Queremos essas respostas, porque, assim como nós, outras famílias podem estar passando pelo mesmo", afirma Raquel.

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