Dona Carmem foi considerada uma foragida da Justiça
Divulgação/CineB
Dona Carmem foi considerada uma foragida da Justiça


Foram exatos 100 dias vivendo na clandestinidade. Ao mesmo tempo, dois dos seus oito filhos estavam presos, cumprindo uma determinação da Justiça. Mesmo assim, a principal liderança do Movimento dos Sem-Teto do Centro ( MSTC ), Carmem Silva, de 59 anos, que também teve sua prisão preventiva decretada, confiava na Justiça. “Somos perseguidos porque lutamos por moradia numa região nobre como é ao centro da capital. Isso incomoda muita gente, mas a justiça foi feita”, diz.

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Dona Carmem – como é mais conhecida - ganhou notoriedade ao ocupar o antigo Hotel Cambridge, que hoje está regularizado pela prefeitura. A experiência acabou virando um filme, o que aproximou a líder do MSTC e seus filhos de celebridades como Maria Gadú, Caetano Veloso e Ana Cañas.

Na semana passada, por unanimidade, três desembargadores do Tribunal de Justiça (TJ) de São Paulo concederam habeas corpus para dona Carmem e seus dois filhos, a produtora cultural Preta Ferreira e seu irmão Sidney Ferreira. Os três estão respondendo em liberdade à acusação de extorsão a moradores que viviam nas ocupações lideradas por Carmem. “Isso é vingança, mentira. Quem conhece nossos movimentos sabe como trabalhamos”, avisa. 

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O habeas corpus, porém, não possibilita que Dona Carmem volte a frequentar as ocupações, o que, segundo a mesma, não vai impedir de lutar pelas moradias e uma São Paulo "mais compacta".

Em entrevista exclusiva ao iG, a líder do MSTC nega extorsão e afirma que é perseguida por fazer valer as regras da ocupação e incomodar ao garantir moradia no centro a pessoas que os mais ricos querem ver nas marginais da cidade.


Dona Carmem com a filha Preta Ferreira
Divulgação/Ocupação Cambridge
Dona Carmem com a filha Preta Ferreira


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Como foi viver na clandestinidade durante cem dias e ao mesmo tempo saber que dois dos seus filhos estavam presos?

Foi como se estivesse numa prisão, num cárcere privado. Era a mesma angústia, como se eu estivesse presa, sem saber notícias de minha família e sem poder conviver com as pessoas do movimento. Vivi um vácuo como estivesse num buraco negro. Emagreci cinco quilos, mas busquei equilibrar a mente lendo muito, fazendo reflexões, autocrítica e me fortalecendo. Não posso negar a luta. Nosso movimento por moradia é legítimo. Está em nossa Constituição.

Como foi o reencontro com Preta e Sidney?

Tem sido maravilhoso. Momento de muito entrega e muito amor. Tudo isso deixa a gente mais forte para continuarmos lutando.

Artistas, urbanistas e movimentos de direitos humanos fizeram campanha pedindo a libertação de seus filhos. Esse apoio a confortou durante esse período?

Totalmente. Confortou muito nossa família. Quem nos apoia conhece nossos projetos de ocupação, que são referências no mundo todo. Nossa luta tem um significado muito importante. Quem mandou nos prender tem a caneta nas mãos, mas precisam conhecer nossas ocupações. Saber quantas pessoas tiramos das ruas, que hoje vivem dignamente.

No processo, as pessoas que a acusaram dizem que o movimento extorquia os moradores para viver nas ocupações. O que tem a dizer sobre isso?

A prova que não falam a verdade está nas ocupações que coordenamos. A ocupação do Hotel Cambridge , que virou um projeto definitivo, atende mais de cem famílias. Todas essas pessoas estão tendo suas casas financiadas e regularizadas pelo poder público. A ocupação 9 de Julho é outra referência. As pessoas que me acusaram agora são as mesmas que estavam me denunciando em um processo antigo, que já fui absolvida. Na verdade, fui julgada duas vezes pelas mesmas acusações. As denúncias de agora foram requentadas através de depoimentos em rede social. São 'fake news'. 

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A fama de ser autoritária criou muitos desafetos?

Isso é o que falam. Por isso que acredito que tenham um propósito de me condenar. Eu trabalho com rigor. O que é trabalhar com rigor? É trabalhar de acordo com a lei. Eu não admito oportunismo nas ocupações. Não admito vender o apartamento, não admito bater em mulheres. Quem participa de nosso movimento não pode vender drogas nas ocupações e as crianças têm que estar matriculadas nas escolas. Isso realmente incomoda muita gente.

Dona Carmem promete continuar sendo uma liderança, mesmo afastada das ocupações
Divulgação/Blog Ocupação Cambridge
Dona Carmem promete continuar sendo uma liderança, mesmo afastada das ocupações


O movimento por moradia é perseguido pelo poder público e pela Justiça?

É perseguido. Eles querem que a família de menor renda não viva no centro . Querem que more nos fundões da cidade. Nós lutamos por uma cidade compacta. Isso incomoda muita gente. Ocupamos lugares que estavam abandonados.

Você terá de cumprir algumas medidas cautelares enquanto seu processo segue na Justiça. Vai se afastar da liderança do movimento?

Eu não vou me afastar do movimento. Continuarei liderando, dando orientações. Sou conselheira municipal da habitação. Não posso negar a luta. Mas enquanto o processo continua, não poderei frequentar as ocupações . Seguirei à risca a determinação da Justiça.

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