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Imóvel atingido no incidente desta quarta abrigava imigrantes bolivianos que viviam no local, onde também trabalhavam na produção de roupas. Ministério também vai apurar ocorrência de trabalho similar ao escravo

Incêndio em cortiço deixa quatro mortos e 24 feridos, em São Paulo, na manhã desta quarta-feira (23)
Rovena Rosa/Agência Brasil - 23.11.16
Incêndio em cortiço deixa quatro mortos e 24 feridos, em São Paulo, na manhã desta quarta-feira (23)

A Superintendência Regional do Trabalho e Emprego, em São Paulo, afirmou nesta quarta-feira (23) que vai investigar o incêndio que deixou quatro mortos na região do Brás, região central da capital paulista . O acidente que aconteceu nesta quarta ainda pode ter causado outras vítimas, uma vez que os bombeiros ainda estão no local em busca de pessoas sob escombros.

Há uma criança entre as vítimas que podem ainda estar presas nos destroços. O local atingido pelo incêndio abrigava imigrantes, especialmente bolivianos, que moravam e trabalhavam em oficinas de produção de roupas em condições degradantes.

Segundo o auditor fiscal do trabalho, Renato Bignami, disse à Agência Brasil, a situação dos imigrantes na zona atingida pelo fogo era irregular, já que permaneciam ali, confinados, tanto para trabalhar quanto para viver.

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O imóvel possui dois andares e, no local, foram encontrados botijões de gás, o que é proibido pelas normas do trabalho na legislação brasileira. Ademais, foi encontrada uma sobrecarga de fios elétricos e amontoados de tecidos utilizados na fabricação de roupas.

Trabalho escravo

De acordo com o auditor fiscal, o Ministério do Trabalho deve apurar, também, se a fábrica atingida nesta quarta-feira abrigava a situação chamada “sweat shop”, algo similar ao trabalho escravo. Ele explicou que esse tipo de “sistema trabalhista” foca nas subcontratações, terceirização intensa da cadeia produtiva, jornada de trabalho fatigante – em que os empregados ficam presos em um local precário, tal qual este incendiado.

Bigmani destacou que a legalização do trabalho aos imigrantes no Brasil ainda acontece de maneira muito burocrática, sem contar com a dificuldade dessas pessoas em encontrar empregos legalizados. Dessa maneira, o auditor fiscal admitiu que pode ter acontecido falhas na fiscalização.

“A superintendência trabalha fazendo auditorias e fiscalização, com o objetivo de prevenir tragédias. Contudo, é preciso compreender que existem poucos auditores do trabalho atuando. Há muitas coisas acontecendo e esses problemas precisam ser verificados de forma mais adequadas”, afirmou.

Ilegalidade

O cônsul da Bolívia no Brasil, Cláudio Luna, disse que quatro famílias bolivianas numerosas viviam no imóvel incendiado nesta quarta-feira. Por isso, o cônsul enfatizou que vai ajudar os imigrantes envolvidos no incidente a obter seus documentos, caso tenham perdido, além de “pretender colaborar” em casos de imigrantes ilegais.

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“Temos as leis de tráfico, de luta contra o trabalho análogo ao escravo, um acordo com os nossos amigos do Brasil, através dos nossos governos. Pelo momento, queremos que todos tenham documentações. Nós, como autoridades, vamos colaborar, fazer uma segunda via, certidão de nascimento, e também vamos ajudar a Polícia Federal do Brasil”, afirmou o cônsul.

O Serviço Social relatou dificuldades em cadastrar as famílias, agora desabrigadas, segundo informou o coordenador operacional da Defesa Civil, Nelson Suguieda. Ele disse que o grande problema encontrado para fazer o atendimento às vítimas é porque elas se negam a receber auxílio pelo fato de ser ilegais – e, dessa forma, não desejarem “se identificar”.

O secretário municipal dos Direitos Humanos e Cidadania, Felipe de Paula, informou que os desabrigados pelo incêndio desta quarta serão recebidos no centro de acolhida, próprio para imigrantes. Contudo, aqueles que estiveram ilegalmente no País podem ser deportados.

*Com informações da Agência Brasil

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