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Estudo inédito do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada foi feito a partir de uma análise que desconsidera todos os fatores econômicos e sociais

Mobilização no Complexo da Maré chama a atenção para o alto número de assassinatos de jovens negros no país
Tomaz Silva/ Agência Brasil 09.05.2015
Mobilização no Complexo da Maré chama a atenção para o alto número de assassinatos de jovens negros no país

Mesmo desconsiderando todos os fatores econômicos e sociais, os homens negros têm 23,5% mais chances de serem assassinados do que os brancos no Rio de Janeiro, aponta estimativa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). O estudo inédito foi feito a partir de uma análise metodológica nova, com base nos dados do Censo 2010 e do Sistema de Informações sobre Mortalidade, do Datasus.

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Foram analisados os dados de residentes e de pessoas que morreram na cidade do Rio de Janeiro em 2010, além de informações de escolaridade, local de residência, idade e estado civil, na amostra de homens entre 14 e 70 anos. No artigo Democracia Racial e Homicídio de Jovens Negros na Cidade Partida, os pesquisadores Daniel Cerqueira e Danilo Coelho concluíram que, mesmo entre pessoas de mesmo padrão social e econômico, os negros têm mais chances de serem vítimas de homicídios do que os brancos.

O objetivo da análise foi investigar as razões dessa diferença de letalidade baseada na cor da pele, já que de cada sete pessoas assassinadas no Brasil, cinco são afrodescendentes. Enquanto os homicídios de não negros caiu 13,7% de 2004 a 2014, no mesmo período o assassinato de negros cresceu 19,8%, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

“Existem duas hipóteses concorrentes. A da democracia racial, que fala que o negro morre mais porque é mais pobre, não porque é negro. E que ele é pobre porque foi largado desde a abolição da escravatura numa condição pior do que a do branco, aí você tem uma rigidez intergeracional – como ele era mais pobre lá no passado, continua mais pobre hoje, então ele morre mais”, afirmou Cerqueira.

O pesquisador disse ainda que a pesquisa nega a hipótese da chamada “democracia racial” e busca explicações no racismo. “A gente considera a hipótese do racismo, que afeta a letalidade de negros por três caminhos, dois indiretos e um direto. Os indiretos têm a ver com práticas educacionais e discriminação no mercado de trabalho. Então, quando você olha a distribuição de renda do Brasil, os 10% mais pobres têm 73,1% de negros e quando olha os 10% mais ricos, há 73,6% de brancos ou amarelos. Parte dessa pobreza já é o mecanismo via racismo da questão educacional e do mercado de trabalho. Além disso, investigamos o efeito direto do racismo sobre a letalidade de negros”, acrescentou.

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Para os pesquisadores, o racismo se mostra principalmente em três vertentes: políticas e práticas educacionais discriminatórias; discriminação no mercado de trabalho; e racismo institucional das polícias e da mídia na diferenciação da forma como são noticiadas mortes violentas de negros e de brancos. De acordo com Cerqueira, como é verdade que os negros são mais pobres, se a análise se resumir a separar as vítimas negras das não negras, “obviamente eles vão ser mais vitimados”.

Na probabilidade de cada pessoa no Rio de Janeiro sofrer homicídio, calculada pelos pesquisadores, entre os 10% que têm mais chance de sofrer homicídio, 79% eram negros. A pesquisa concluiu também que entre a população branca, há uma proteção maior da infância e juventude, mas o mesmo não ocorre com a população negra. Enquanto um adolescente branco tem 74,6% menos chance de ser assassinado do que um adulto branco, a chance de um adolescente negro ser vítima de homicídio é 23,2% maior do que a de um adulto negro.

Redução

A pesquisa indica ainda que, se a chance de ser assassinado fosse a mesma para homens brancos e negros, a taxa de homicídio na cidade do Rio de Janeiro seria 12,9% menor do que a atual.

Os pesquisadores fizeram uma análise para verificar como seria a sociedade sem o que eles chamam de “racismo que mata”, ou seja, se a cor da pele não tivesse impacto na letalidade.

O método considerou também, como um segundo passo, o aumento da escolaridade como fator redutor de risco de ser assassinado. Cerqueira explica que, com o ingresso no ensino médio, a taxa de homicídio na cidade poderia cair 19,8%.

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Pelos cálculos dos pesquisadores, a chance de uma pessoa com até sete anos de estudo ser assassinada é 70,2% maior do que a de alguém que tenha de oito a 11 anos de estudo. Somando a redução dos homicídios que a eliminação do racismo geraria ao fator de elevar os anos de escolaridade, Cerqueira e Coelho chegaram a uma provável redução de 30,2% na taxa de homicídio na cidade.

*Com informações da Agência Brasil

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