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Manifestantes questionam a legitimidade do governo Temer e acusam a atual administração de cortar programas sociais como o Minha Casa, Minha Vida

Manifestantes protestam contra o governo Temer na Avenida Paulista, em São Paulo
Reprodução/Twitter
Manifestantes protestam contra o governo Temer na Avenida Paulista, em São Paulo


Manifestantes protestam contra o governo Temer, neste domingo (4) na Avenida Paulista, em São Paulo. O ato, convocado pelo grupo Frente Brasil Popular – constituído pela Central Única dos Trabalhadores (CUT) e pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) – e Povo Sem Medo – que reúne mais de 30 movimentos sociais – começou em frente ao Museu de Arte de São Paulo (Masp) após a passagem da tocha paralímpica no mesmo local. Por causa do evento, o governo de São Paulo chegou a proibir o ato  que estava marcado para ocorrer por volta das 15h, mas voltou atrás após acordo com os organizadores  para adiar o início do protesto.

O ex-senador Eduardo Suplicy, a deputada federal e candidata à prefeitura de São Paulo, Luiza Erundina, e o cartunista Laerte juntaram-se à multidão que carrega faixas e placas de "Fora Temer" e "Diretas Já".

“Hoje é mais uma mobilização popular pelo Fora Temer exigindo Diretas Já, eleições para presidente do país, e defendendo nossos direitos”, disse Guilherme Boulos, um dos líderes do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) e da Frente Povo Sem Medo. “Queremos reafirmar também nosso direito à manifestação. É escandaloso o que foi feito pela Polícia Militar e pela Secretaria de Segurança, não só aqui [em São Paulo], nas manifestações dessa última semana”.

Apesar de o ato ocorrer de forma pacífica, houve momento de tensão, quando uma fila de policiais militares começou a chegar ao local, acompanhada de vaias e gritos de frases como "Queremos o Fim da Polícia Militar" e "Fascistas". Um dos manifestantes arremessou uma garrafa em direção aos policiais e um dos policiais ameaçou responder, mas isso não aconteceu. Do caminhão de som, os organizadores pediram calma aos manifestantes, pedindo que não respondessem a provocações.

O ex-senador Eduardo Suplicy juntou-se aos manifestantes na Avenida Paulista
Twitter/Reprodução
O ex-senador Eduardo Suplicy juntou-se aos manifestantes na Avenida Paulista

Um post publicado pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) confirmando a manifestação no Facebook, neste domingo pela manhã,  revoltou usuários que apoiaram o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff . “A avenida paulista é um lugar sinônimo de trabalho, de gente que acorda cedo e vai em busca dos seus objetivos e do capitalismo que vocês imbecis tanto criticam. Amanhã vai aparecer tudo destruído”, afirmou um deles.

A mensagem fez referência a atos de depredação que vêm ocorrendo nas manifestações desde a última semana. Uma série de estabelecimentos comerciais e agências bancárias foram destruídos durante confrontos com a Polícia Militar (PM).

A jovem Deborah Fabri, de 19 anos, afirmou ter perdido a visão do olho esquerdo em uma das manifestações. Testemunhas dizem que a jovem foi atingida por estilhaços de bombas lançadas pela PM.

Manifestação em São Paulo foi convocada
Reprodução/Twitter
Manifestação em São Paulo foi convocada


O Ministério Público do Estado de São Paulo informou estar "observando as ocorrências" e afirmou que, até o momento, não designou um promotor de justiça para acompanhar as investigações do caso porque Deborah "não procurou a autoridade policial".

Além da presença da PM, foi autorizada por Michel Temer também a atuação das Forças Armadas nesta tarde para garantir a segurança da passagem da tocha paralímpica na avenida.

“Não esperamos confronto nenhum [hoje]. Nosso confronto é com o governo golpista. Mas nosso objetivo aqui não é ter enfrentamento na rua. Nosso objetivo é fazer com que a manifestação aconteça e dê o seu recado para o Brasil todo do que nós queremos”, disse Boulos.

Para Vagner Freitas, presidente nacional da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e um dos líderes da Frente Brasil Popular, o ato deste domingo na Avenida Paulista é fechado em três temas: “É o Fora Temer e esse desgoverno ilegítimo; nenhum direito a menos, porque o que se apresenta é a retirada de direitos dos trabalhadores e sociais e da democracia; e o povo quer lutar. Consideramos esse governo ilegítimo e seria importante, para voltar a normalidade democrática, que a população pudesse ser atendida em uma votação direta para legitimar o governo”, disse.

Freitas disse não esperar por confrontos no protesto de hoje. “Da nossa parte, não. Mas não tenho dúvida nenhuma de que a imprensa deve denunciar ao mundo a escalada de violência que vive o Brasil. É lamentável que uma menina perca a visão, não sei se perdeu, espero que não, mas essa possibilidade dela perder a visão, e a polícia não fazer nada e o secretário não dar uma reclamação sobre isso."

Segundo o presidente da CUT, os manifestantes decidiram fazer uma caminhada – e não ficar parados na Avenida Paulista, para indicar que “estão em movimento”. “Movimento é movimento. Queremos demonstrar que estamos em luta e na rua e não vamos ficar parados”. Após a concentração em frente ao Masp, os manifestantes seguiram sentido Consolação em direção à Avenida Rebouças. A manifestação está prevista para terminar no Largo da Batata, zona oeste.

Concentração em Copacabana

No Rio de Janeiro, centenas de pessoas se reuniram em frente ao Hotel Copacabana Palace, na Praia de Copacabana, para protestar contra o governo do presidente Michel Temer. 

Victor Guimarães, representante do Movimento de Trabalhadores Sem Teto (MTST), disse que cresce nas ruas o movimento de resistência, apesar do boicote da mídia. Guimarães acredita que as pessoas estão atentas a retrocessos nas politicas públicas e direitos sociais. Como exemplo, cita a reforma trabalhista, em discussão no governo e o corte no Programa Minha Casa, Minha Vida.

Manifestantes contrários ao governo de Michel Temer concentram-se em frente ao Hotel Copacabana Palace
Twitter/Reprodução
Manifestantes contrários ao governo de Michel Temer concentram-se em frente ao Hotel Copacabana Palace


"Na primeira semana de interinidade já suspenderam com uma canetada a contratação de dez mil moradias nos país", afirmou. "Dez mil famílias inteiras tiveram o sonho da moradia interrompido por uma canetada. Até hoje, não chamaram a gente para negociar,  eles não conversam", afirmou, referindo-se à linha do programa que repassava recursos para organizações sociais construirem os prédios e que foi suspensa.

Segundo o representante MTST, o governo anunciou que voltaria atrás, mas não desbloqueou ainda os recursos de menos de 2% do programa nessa modalidade e que não passava pelas mãos de grandes construtoras.

Preocupada com o que chamou de retrocessos na educacao, a jovem Maria Eduarda Luporini, de 16 anos também estava na manifestação. Para ela, os anúncio de reformas, incluindo privatizações e cortes de gastos públicos levará o ensino público ao colapso, principalmente o ensino superior com o qual ela sonha. "Esse governo só vai acentuar os problemas do país, quem mais vai se prejudicar sao os trabalhadores e o pobres", disse.

Teresinha Martins Sobral, de 83 anos, aposentada, afirmou olhar com desconfiança para o novo governo. "Um governo que chegou aonde está por cima do voto popular não é legítimo", disse. Ela acompanha a situação política do país e diz que é a mais grave pela qual já passou.

"Já vi tantas coisas, mas de toda minha jornada de vida, isso é pior. As perdas diante do que tínhamos conquistado, de direito, minha sobrinha agora mesmo estava me falando do corte de verbas nas universidades, ou seja, é um golpe sobre as conquistas recentes."

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Para ela, as pessoas têm mais consciencia agora do que em 1964, quando os militares chegaram à presidência à força. Por isso, participam de protestos. "A manifestação é pacífica, por direitos, o brasileiro tem que se manifestar contra o golpe", afirmou Teresinha.

Manifestantes questionam a legitimidade do governo de Michel Temer
Twitter/Reprodução
Manifestantes questionam a legitimidade do governo de Michel Temer

Também aposentada, a professora universitária, na faixa dos 60 anos, Beti Rabeti, identifica sinais de machismo no processo que tirou Dilma Rousseff do Palácio do Planalto, pelo Congresso, em um processo cuja legalidade é questionada por setores da sociedade.

"Há uma dimensão machista, até misógina, no fato de termos a primeira mulher presidenta afastada", afirmou. Ela não acredita em reversão, mas avalia que a resistência vai existir. " A luta politica nunca foi e nem nunca será fácil. A esquerda hoje é mais necessaria que nunca. A luta é contínua", disse.

Com frases bem humorados contra o governo, como "Já falei, vou repetir, é o povo que tem de decidir", além de  cartazes a favor de eleições, a manifestação seguiu em direção ao Canecão, tradicional casa de shows, ocupada pelo movimento "Ocupa Min".

A Policia Militar não faz estimativa de público em manifestações no Rio. Os organizadores da Frente Brasil Popular não passaram o número de participantes.

*Com informações da Agência Brasil


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