Tamanho do texto

Brasil perde em violência apenas para El Salvador, Guatemala, Rússia e Colômbia; 4,6 mil mulheres morrem por ano no país

O Brasil é o quinto país do mundo em número de assassinatos de mulheres por razões de gênero, o chamado feminicídio, de acordo com a ONU Mulheres. 

Embora seja composto por um grupo de apenas 83 países - somente os que dispõem de estatísticas de violência contra a mulher - e não englobe, por exemplo, nações do Oriente Médio, o ranking dá a medida do tamanho do problema. 

Dados apontam que país tem ao menos 50 mil estupros por ano
Agência Brasil
Dados apontam que país tem ao menos 50 mil estupros por ano

São 4,6 mil assassinatos por ano, mostrando que o país só perde em violência para El Salvador, Guatemala, Rússia e Colômbia, segundo a lista. E pelo menos 50 mil casos de estupro são registrados anualmente. 

Em entrevista à BBC Brasil, a representante da ONU Mulheres no Brasil, Nadine Gasman, afirma que o número revela "uma sociedade muito machista, muito violenta, que assedia e estupra as mulheres". Segundo ela, o país tem boas leis, mas elas não são colocadas em prática com a força necessária. 

Confira os principais trechos da entrevista: 

BBC Brasil - O Brasil é o quinto país do mundo em número de feminicídios, a frente de muitos países considerados, no senso comum, mais violentos. Como a senhora explica isso? 

Nadine Gasman - De 2013 para 2015, o Brasil passou de sétimo para quinto lugar. Apenas os países que têm dados sobre assassinatos de mulheres fazem parte da lista, mas, sim, é verdade, o país está à frente de muitos outros. E os números são muito fortes. São 50 mil agredidas sexualmente a cada ano. 

E esse número é o das mulheres que notificam a agressão - porque trabalhamos com a estimativa de que apenas um terço das vítimas registra ocorrência. Há uma semana mais ou menos, a (ONG) Actionaid lançou uma pesquisa segundo a qual 86% - vejam bem, oitenta e seis por cento - das mulheres brasileiras já sofreram algum tipo de assédio. 

Esses números mostram uma sociedade muito machista, muito violenta, que assedia e estupra as mulheres. O caso da menina de Bom Jesus, no Piauí, e o da menina do Rio de Janeiro são crimes muito bárbaros, que demonstram um desprezo grande pela vida, pelo corpo e pela sexualidade das mulheres. 

No caso do Rio, 33 homens estupram uma jovem e tiram fotos, fazem daquilo uma festa. E postam nas redes sociais, revelando uma total falta de consciência de que cometiam um crime. 

Nadine Gasman:
Agência Brasil
Nadine Gasman: "Brasil tem uma cultura sexista muito forte"

BBC Brasil - Existe uma imagem, tanto nacional quanto internacional, de que o Brasil é um país mais liberal no que diz respeito aos costumes, às mulheres. 

Gasman - Eu acho que depende muito do que as pessoas classificam como liberdade. Existe uma mídia que apresenta a mulher brasileira como objeto sexual, com todos os preconceitos e estereótipos possíveis - mas pode haver uma leitura imprópria de que isso é liberdade. 

Se 86% das mulheres brasileiras dizem já ter sofrido algum tipo de assédio, que liberdade é essa que elas têm de andar pelas ruas, de ocupar espaços públicos? Acho que essa imagem que se criou não corresponde à vida real das mulheres brasileiras. 

BBC Brasil - A senhora acha que existe uma cultura do estupro no Brasil? 

Gasman - Sim, acho que o Brasil tem uma cultura machista muito forte, uma cultura sexista muito forte e uma cultura de estupro. O estupro é aceito pelos homens e não reconhecido por muitos como uma violação extrema dos direitos da mulher. 

Por isso estamos lançando agora a campanha "Eles por Elas", para que os homens se posicionem também, não se calem diante de situações de violência, não compartilhem vídeos como o do estupro dessa moça. 

Eles precisam entender que, com esses gestos, perpetuam a cultura do estupro. Que precisam se comprometer a deter essa barbárie, que usem os espaços que têm para conscientizar outros homens. É especialmente importante que se engajem. 

BBC Brasil - A violência contra a mulher é naturalizada no Brasil? 

Gasman - Sim, de muitas formas. Temos uma sociedade que aceita o machismo, a desigualdade entre homens e mulheres, em que a questão da igualdade de gênero não faz parte da cultura. 

Estupro no Rio chocou opinião pública e mobilizou polícia
Agência Brasil
Estupro no Rio chocou opinião pública e mobilizou polícia

O tema não é tratado nas escolas com a profundidade que deveria. A escola é o espaço para socializar meninos e meninas numa cultura de igualdade, respeito, tolerância. 

A mídia, por sua vez, banaliza o tema do estupro, do crime. O país tem uma boa resposta em termos de leis, mas elas não são implementadas com a força e a decisão necessárias. E tem até casos extremos de apologia ao estupro. É essa sociedade que perpetua a cultura machista e sexista.

BBC Brasil - É por isso que, frequentemente, as vítimas são apontadas como culpadas? 

Gasman - Sim, é parte da mesma cultura machista e sexista botar a toda a culpa na vítima: o que ela estava fazendo lá, por que estava vestida de tal jeito. 

Esse discurso é uma forma de desprezar o direito dela de estar onde quiser, de vestir o que quiser e, ao mesmo tempo, de não assumir a sua própria responsabilidade pelo ataque. 

BBC Brasil - Chamou a atenção na posse do novo governo interino o fato de só haver homens no ministério de Michel Temer. A falta de representação política contribui para essa situação? 

Gasman - A falta de representação política é resultado dessa mesma cultura. Obviamente que se tivermos maior representação de mulheres nos empregos públicos e privados, nas empresas, no Congresso Nacional, nos ministérios, isso muda a forma com que os homens se relacionam no espaço público e no poder. 

E quando tem muitas mulheres e muitas mulheres comprometidas com os direitos da mulher isso também muda a forma como a política é feita, como as instituições se organizam.