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Especialistas afirmam que lama terá grande impacto em rios, fauna e solo da região, afetando diretamente a população

BBC

Mais de cem homens do Corpo de Bombeiros trabalhavan nos resgates neste domingo (8)
Corpo de Bombeiros/Divulgação - 08.11.2015
Mais de cem homens do Corpo de Bombeiros trabalhavan nos resgates neste domingo (8)

O equivalente a quase 25 mil piscinas olímpicas de lama foi despejado nas redondezas próximas à barragem que se rompeu na cidade de Mariana (MG). A mineradora Semarco (responsável pelo local) garantiu que não há nada tóxico nos 62 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério de ferro liberados durante o acidente.

Mas especialistas ouvidos pela BBC Brasil afirmam que, apesar de o material não apresentar riscos à saúde humana, ele trará danos ambientais que podem se estender por anos.

“Comparado ao mercúrio, por exemplo, esse rejeito não é tóxico, já que é formado basicamente por sílica. Ninguém vai desenvolver câncer, nada disso. O risco não é para ao ser humano, mas para o meio ambiente", diz o professor de geologia da Universidade Estadual de Londrina (UEL) Cleuber Moraes Brito, consultor na área de meio ambiente e mineração.

Assista ao vídeo do momento em que a barragem se rompe em Bento Rodrigues:

"Essa lama avermelhada deve causar danos em todo o ecossistema da região, impactando por anos seus rios, fauna, solo e até os moradores, no sentido de que o trabalho deles, como a agricultura, pode se tornar impraticável."

Solo alterado
Os danos ao meio ambiente no entorno da barragem podem ser, a  grosso modo, químicos ou de ordem física. O primeiro diz respeito à desestruturação química do solo, não só pelo ferro, mas também por outros metais secundários descartados durante o processo de mineração. 

Segundo Cleuber, esse solo recebe uma incorporação química anormal, já que o resíduo tem excesso de ferro, que pode alterar o pH da terra.

Assista aos resgates aéreos na região do 'tsunami de lama':

Bombeiros continuam com os trabalhos de resgate das vítimas da barragem que se rompeu em Mariana e que atingiu mais 6 distritos vizinhos. Desde ontem e durante todo o dia, mais de 100 bombeiros realizaram buscas, resgates e salvamentos por terra e pelo ar com nossas aeronaves. Confirmamos até o momento 1 vítima fatal e 13 desaparecidos, funcionários da Samarco. Os trabalho continuam. O vídeo abaixo é da cidade de Paracatu de baixo.

Posted by Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais on Sexta, 6 de novembro de 2015

Já o impacto físico dos rompimentos dizem respeito à quantidade de lama - e não à composição. "O problema não é o material em si, mas o fato de a lama ter coberto a região, soterrando a vegetação", afirma Mauricio Ehrlich, professor de geotecnia da COPPE, da UFRJ.

"Esse resíduo é pobre em material orgânico, ou seja, não favorece o crescimento de vegetação. Assim, o que acontece é que essa lama vai começar a secar lentamente, criando uma capa ressecada por cima do solo, dificultando a penetração de água. E, por baixo, esse solo segue mole."

Veja fotos da tragédia em Minas Gerais:

Maurício reforça ainda que, além do solo infértil, outro impacto ambiental está relacionado aos rios da região. Com o vazamento, os sedimentos vão sendo arrastados e se depositando nos trechos onde a corrente é mais fraca. Isso prejudica a calha dos rios, que podem ser assoreados, ficarem mais rasos ou até terem seus cursos desviados. 

Outro risco é o de que muitas nascentes sejam soterradas. Esse impacto nos recursos hídricos também afeta sua fauna, especialmente peixes e microrganismos, que compõem a cadeia alimentar nos rios.

Bombeiros resgatam animais da lama que segue avançando por Minas rumo ao Espírito Santo
Corpo de Bombeiros/Divulgação - 08.11.2015
Bombeiros resgatam animais da lama que segue avançando por Minas rumo ao Espírito Santo

"Mudança no perfil do solo, impacto nos recursos hídricos, na fauna. Quanto tempo a natureza vai demorar para assimilar tudo isso?", questiona o geólogo da UEL. Segundo ele, apesar de ainda ser cedo demais para ter essa resposta, é possível dizer que um programa para resgatar a área degradada em Mariana dure cerca de 5 a 10 anos.

Os especialistas salientam que é preciso fazer um levantamento do impacto, sendo que uma das primeiras medidas reais será retirar a lama o quanto antes, especialmente por meio de escavação.