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Ocirema Roldan , de 71 anos, morreu vítima de enfisema pulmonar em abril e teve o corpo encaminhado à USP

Rafael, de camisa vermelha, junto à mãe, dona Ocirema, e os irmãos
Arquivo pessoal
Rafael, de camisa vermelha, junto à mãe, dona Ocirema, e os irmãos

Tabagista por mais de 30 anos, dona Ocirema Roldan tinha convicção de que seu corpo seria "um bom material para a ciência". O desejo foi realizado. Há pouco mais de um mês, desde o dia seguinte ao da sua morte decorrente de um efisema pulmonar, o corpo da senhora de 71 anos faz parte do acervo de cadáveres da Universidade de São Paulo. Ficará ali por anos para ser estudado, dissecado, perscrutado pelos estudantes durante as aulas de Anatomia.

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"Ela não fez curso superior, mas sempre quis muito colaborar com a ciência e sabia que seu corpo seria um bom material pelas doenças decorrentes de tanto tempo como fumante", conta o filho Rafael Roldan, 35 anos. Naquele triste 27 de abril, após saber da morte da mãe, ele, a irmã, Andrea, e o irmão, Frederico, providenciaram a documentação e asseguraram a vontade e o destino de Ocirema. 

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Foi um processo simples e que provocou reações positivas no velório abreviado da matriarca – por conta da doação, foram apenas quatro horas antes de o corpo da matriarca ser levado à USP, onde os familiares não têm permissão de visita. "No dia seguinte, claro que imaginei o que estava acontecendo com a minha mãe e tal. Mas sei que não posso perguntar e nem ir aos laboratórios", conta Rafael.

Dona Ocirema, aos 71 anos, brincando com a motoca da neta
Arquivo pessoal
Dona Ocirema, aos 71 anos, brincando com a motoca da neta

O acesso ao corpo se dará apenas após o período de utilização nos laboratórios, quando a instituição vai questionar a família sobre a vontade de sepultar os restos de Ocirema em um jazigo familiar ou pedir autorização para que a USP encaminhe o material para um jazigo da própria universidades destinado a isso. 

Até lá, a família terá em mente o exemplo que Ocirema deu em vida e na morte. "No velório, em vez de estranhar a atitude dela, muitos elogiaram o quanto ela era avançada, despojada", lembra o filho. 

"Quando você morre, pode virar disco de vinil, quadro artístico, joia e até cinza no espaço. Mas a doação é a forma de ser útil", compara Rafael, convicto de que deseja o mesmo fim para si mesmo.  Num futuro, espera ele, em que a doação voluntária de corpos tenha ganhado muito mais adeptos.

Por enquanto, a prática ainda é rara. Nos cinco primeiros meses de 2015, a Universidade de São Paulo (USP) recebeu cinco cadáveres para estudo científico, incluindo o de Ocirema. Muito pouco para a demanda – o ideal é um corpo por ano para cada grupo de seis alunos e na USP, atualmente, são 180 estudantes para cada um dos exemplares disponíveis – mas um número razoável diante da carência. Em toda a década passada, a instituição recebeu apenas dez corpos: um por ano. Em 2015, a média está sendo de um por mês.



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