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Arábia Saudita teme a chegada da revolução árabe

Maior produtor de petróleo do mundo se preocupa em manter a ordem interna para evitar protestos como o dos países vizinhos

27/02/2011 15:05

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Sejam quais forem os interesses nacionais dos três países que impediram a votação do plano de sanções do Conselho de Segurança contra a Líbia, o que está ocorrendo é uma prova da impotência da comunidade internacional em impedir crimes sanguinários dos ditadores contra seus povos. Durante anos nada se fez de concreto para impedir o genocídio que ocorria no Sudão. Enquanto Kadafi continua massacrando seu povo, o Conselho de Segurança discute nova versão para a proposta de ações contra ele. E quem é que vai fazer os mortos voltarem à vida? E os feridos recuperarem o seu estado anterior? Os diplomatas podem ter tempo, mas as vítimas não têm. E é realmente uma vergonha o que vem acontecendo.

 

Eu praticamente assisti aos primórdios da Organização das Nações Unidas, quando se transferiu de São Francisco, onde realizou sua primeira reunião, para Lake Success, em Long Island, Nova York. Não me lembro de nada semelhante. O rei da Arábia Saudita, guardião de Mecca e Medina, os lugares mais sagrados do Islã, prefere confiar em seus métodos de manter a ordem interna a contar com a “eficácia” das organizações internacionais que se apresentam como defensoras da paz mundial.

A Arábia Saudita é o mais importante fornecedor de petróleo para o mundo industrializado. O rei saudita esteve durante três meses em tratamento nos Estados Unidos, incluindo um período em recuperação no Marrocos. E a poucos dias de sua volta ao seu palácio em Riad, determinou a divisão de 37 bilhões de dólares entre os quase 20 milhões de sauditas natos. Foi um ato que, no contexto atual da região, entende-se como tentativa de comprar tranquilidade evitando que sua gente siga o exemplo de outros povos árabes. Ele é um beduíno e foi recebido festivamente com uma dança tradicional beduína, a impressionante dança das espadas. Está com 87 anos.

 

Na ausência dele, governou seu irmão, o príncipe herdeiro Sultan. Estima-se que existam 5 mil príncipes sauditas da família de Ibn Saud, que foi o fundador da monarquia numa operação na qual derrotaram a família Husseini, de ascendência do profeta. Um ramo dos Husseini governa a Jordânia. Um filho do rei derrotado, Faisal, que foi coroado monarca do Iraque pelos ingleses, morreu numa revolta popular na qual também toda sua família foi massacrada. Os homens de relações públicas do rei saudita Abdullah já tinham preparado um ambiente para o seu retorno, anunciando que iriam implementar um plano de ajuda às famílias de renda baixa e de classe média. Inicialmente incluía aumento salariais para contrabalancear a inflação, que por todos os países está sacrificando os povos por conta do aumento do preço dos produtos alimentícios básicos.

 

Pelo que tomou-se de conhecimento, logo será aplicado um programa de benefícios aos desempregados e de construção de casas de baixo preço. O país está prevendo o investimento, em 2011, de 155 bilhões de dólares em obras e para seu programa de benefícios sociais. A Arábia Saudita, até a noite de hoje – num ambiente predominante no Oriente Médio não se pode prever nada – não tinha sofrido nenhuma influência das revoltas que vêm ocorrendo nos países árabes. Inclusive Bahrein, que é um paisinho colado à Arábia Saudita, e tem a principal base militar naval americana na região, está instável. A maioria dos cerca de 800 mil habitantes do país é da seita xiita, mas o riquíssimo rei Hamad é sunita. Por enquanto, tudo que os xiitas exigem é uma participação no governo. Destaco esse fato porque existe uma minoria xiita substancial na Arábia Saudita que preocupa a monarquia sunita, seita que é reconhecida como aquela que pratica a religião maometana segundo a tradição herdada do profeta Maomé.

 

Numa pesquisa no Facebook verifica-se existir um apelo para que o povo saudita dedique o próximo 11 de março a ser um “dia de fúria”, o que, sem precauções muito cautelosas e moderadas, pode precipitar um levante popular. A Arábia Saudita, sozinha, extrai cerca de 4 bilhões de barris de petróleo por ano, o que equivale a cerca de 20% da produção mundial, que é de 26,4 bilhões. A produção de Bahrein, que é muito menor, é de estratégica importância para a frota americana que abastece.

 

Existem inúmeros blogueiros na Arábia Saudita. Ao que consta, o blog de Ahmad al-Omran é dos mais populares. Ele tem 6,2 mil seguidores no Twitter. E a mensagem dele é muito corajosa, pois afirma que já se passaram os tempos em que doações da monarquia bastavam para acalmar a população. No atual contexto o dinheiro da família do rei, diz ele, equivale a preocupar-se apenas com os sintomas. A doença social que existe no país é ignorada.

O povo árabe, como se verificou nas revoltas já ocorridas, não se levanta em protesto pelo estado de miséria que afeta as maiorias, nem pelas dificuldades econômicas sofridas pelas chamadas classes médias. O povo árabe, que vive há décadas submetido a governos autocráticos, tais como monarquias absolutistas e ditaduras, quer liberdade, quer o poder de influir nas questões que dizem respeito ao seu destino.

 

Quaisquer ações ou movimentos que ameacem ou atinjam a produção de petróleo da Arábia Saudita se traduziriam em aumentos espetaculares do preço do barril. Os possíveis altíssimos preços do petróleo poderiam levar a economia mundial, que ainda não se recuperou da recessão que sofreu nos últimos anos, a entrar até em depressão. Seria uma socialização internacional da miséria.

 

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