Terra diz ser "absurdo" acusar Bolsonaro de genocídio: "ele não pôde interferir"

Deputado federal e ex-ministro da Cidadania, Osmar Terra depõe à CPI da Covid nesta terça-feira (22)

Osmar Terra (MDB-RS) na CPI da Covid
Foto: Divulgação/Agência Senado/Edilson Rodrigues
Osmar Terra (MDB-RS) na CPI da Covid

Em depoimento à CPI da Covid nesta terça-feira (22), o deputado federal e ex-ministro da Cidadania, Osmar Terra  (MDB-RS), disse que não concorda em chamar o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) de "genocida" porque ele não pôde interferir na condução da pandemia no Brasil.

Na ocasião, Terra foi questionado pelo senador Eduardo Girão (Podemos-CE) sobre Alberto Fernández, presidente da Argentina. "O senhor considera o presidente da Argentina genocida, já que os números, de formas proporcionais, são muito parecidos com o Brasil?"

Em resposta, o ex-ministro afirmou que "acha que ele tentou fazer o que acreditava", apesar de "ter o poder de decidir por cima dos governadores e prefeitos". "Isso não é um genocídio, né? Como o presidente Bolsonaro, que não pôde interferir, ser acusado de genocida. É um absurdo, eu não concordo com isso", disse ele.

Assista ao vivo:


Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado - 6.6.19
Senador Marcos Rogério (DEM-RO)


Mais cedo, o senador Marcos Rogério (DEM-RO) exibiu um vídeo do médico oncologista Drauzio Varella , já desmentido, falando sobre previsões de como seria pandemia de Covid-19 no Brasil. Porém, a gravação foi feita em janeiro de 2020, antes mesmo do primeiro caso ser registrado no país.

Nas imagens, o médico diz que o país teria um grande número de pessoas infectadas, depois atingiria uma estabilidade e os casos diminuiriam até não existirem mais. A gravação, no entanto, foi realizada quando ainda não existiam muitos dados sobre a doença no mundo e foi desmentida pelo próprio médico meses depois.

No momento em que o vídeo foi exibido pelo senador, o vice-presidente da Comissão, Randolfe Rodrigues (Rede-AP), o questionou sobre a data de publicação. Assim que Marcos Rogério disse que foi compartilhado em 30 de janeiro de 2020, os outros parlamentares interromperam a fala do senador afirmando que o vídeo era antigo e já havia sido desmentido.

Veja:


Mais tarde, Randolfe exibiu outro vídeo do médico, desta vez de maio de 2020, em que Drauzio diz que há um remorso de que "no início não foi bem avaliado o que poderia acontecer". "Os dados que a gente tinha, vinham da China, os dados chineses eram dados parciais, e a única coisa que a gente sabia é que depois dos 80 anos de idade, a mortalidade chegava a mais ou menos 15%, 14,8%, o que eles diziam, e que não morria ninguém abaixo de 40 anos", afirma o oncologista.

Veja:





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"Gabinete paralelo"

Foto: Divulgação/Agência Senado/Edilson Rodrigues
Osmar Terra (MDB-RS) na CPI da Covid

O deputado Osmar Terra negou que tenha feito parte do chamado "gabinete paralelo" do Ministério da Saúde e ironizou questionamentos feitos por senadora.

"Esse gabinete pelo que eu saiba nunca existiu, eu sou um deputado, eu não posso falar? eu não posso ter uma opinião? Se o presidente me ouve ou não, se eu sou tão poderoso assim, que ele me ouve e não ouve mais ninguém, isso não existe, o presidente tem discernimento, ele sabe o que tem que fazer, eu não participo nem de live com ele", declara o deputado, ex-ministro da cidadania no governo Bolsonaro.

Terra ainda disse que caso conduzisse a pandemia como membro do Ministério da Saúde, os resultados do Brasil, que passou do meio milhão de mortes pela Covid-19, "seria melhor":

"Eu tenho convicção de como teria se conduzido essa pandemia, não seria pior do que aconteceu com isolamento e lockdown, seria melhor, se nos tivéssemos adotados o modelo da Coréia(...)".

Aos risos, o deputado debochou de questionamento feito pela parlamentar Eliziane Gama (Cidadania-MA) se ele poderia ter sido indicado ao cargo de ministro da Saúde:

“Se eu sou tão poderoso como a senhora me classifica, eu poderia ter sido se eu quisesse”, disse.

Osmar Terra (MDB-RS) afirmou ainda que as opiniões do presidente sobre imunidade de rebanho, tratamento precoce e contra lockdown não foram fruto de aconselhamento paralelo. Ele também negou que tenha influenciado diretamente o presidente a defender tais ideias.

"O presidente fala o que ele quer falar. Eu não tenho poder sobre ele, de dizer o que ele deve falar. Isso não existe. Não tem cabimento querer imputar um poder sobrenatural para as pessoas. Ele ouve todo o mundo, mas isso não significa que tem gabinete paralelo. Isso é uma falácia", disse Terra.

O deputado também afirmou que chegou a comentar suas opiniões com Bolsonaro em alguns momentos. "A relação que eu tenho com o presidente é de amizade e ele tem essa relação com muitos outros deputados. Gosto do presidente, tenho simpatia por ele. Quando, de vez em quando, o presidente me pergunta alguma coisa ou eu acho que tenho que falar alguma coisa, eu falo. Mas minha opiniões são públicas", disse. 

Já no início do depoimento, Terra defendeu o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), comparando a governantes de outros países. "A Argentina vai superar o número de mortes do Brasil. Aqui o presidente não teve a caneta na mão e lá teve. E o presidente da Argentina vai ser chamado de genocida?", disse. Sobre suas previsões erradas sobre os números da pandemia, Terra disse que se baseou em sua experiência em outras cinco pandemias. Veja:



Também no início do depoimento, Terra reconheceu que suas previsões sobre a pandemia da Covid-19 eram otimistas e que não se concretizaram.

"Eu sei que vão mostrar um monte de vídeos meus falando das previsões. Eu já quero antecipar aqui dizendo para vocês que as previsões que eu fiz foram baseadas não num estudo matemático apocalíptico, como foi o do Imperial College, mas nos fatos que existiam na época, em março", afirmou. E completou: "Aquelas previsões sã minhas conclusões, são conclusões pessoais. Os dados que tínhamos na época me permitiram ser otimista", disse Terra.

Osmar Terra defendeu em várias ocasiões, durante a pandemia,  posicionamentos rechaçados pela comunidade científica, como a "imunidade de rebanho" natural - sem vacinação - e o uso de remédios sem comprovação científica. Além de ser contra o isolamento social.

De acordo com a apuração da GloboNews, o parlamentar teria se reunido 17 vezes com o presidente Bolsonaro desde o início da pandemia. Em um determinado vídeo no Palácio do Planalto, em setembro de 2020, Osmar acompanha Bolsonaro em um evento com médicos que manifestam-se de maneira contrária à vacina. Também é defendido o uso de farmacos ineficazes, a criação de um "shadow cabinet" ('gabinete das sombras' em tradução livre) para aconselhar o presidente.

No requerimento de convocação de Osmar Terra, os senadores Rogério Carvalho (PT-SE) e Humberto Costa (PT-PE) argumentam que "ações equivocadas e omissões lesivas ao interesse coletivo podem decorrer da forma como as principais autoridades do país viam e continuam vendo a ameaça do novo coronavírus . Neste ponto, é essencial saber qual a verdadeira concepção que o maior mandatário do país tem sobre o contexto no qual estamos inseridos e quem ajudou a construir esta noção".


Outros requerimentos também serão votados antes da oitiva de Osmar. Nela, estarão em pautas pedidos de informação, quebras de sigilo e convocações de depoentes. Entre elas, a do governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro - que não poderá ser votada devido ao entendimento da ministra Rosa Weber, do Supremo Tribunal Federal ( STF ), que suspendeu a convocação para depoimento dos executivos municipais.