O sem-teto que vive na entrada de mansão abandonada em Londres

Há três anos, sueco Anders Fernstedt chama de casa um abrigo inusitado construído por ele no pórtico de um palácio bilionário

Anders Fernstedt defronte ao lar que construiu no pórtico de uma das propriedades mais caras de Londres
Foto: Matt Pearson, Rayanne Azevedo
Anders Fernstedt defronte ao lar que construiu no pórtico de uma das propriedades mais caras de Londres

Em Knightsbridge, é comum ver pessoas parando e olhando fixamente. Essa área do centro de Londres fica bem perto do Palácio de Buckingham, do Hyde Park e da Harrods, atraindo multidões de turistas curiosos.

Embora talvez não chame tanta atenção quanto a sede da monarquia britânica, uma curiosa coleção de plantas, guarda-sóis, sacolas de compras e brinquedos infantis, que ocupa a entrada de um edifício, atrai muitos olhares curiosos.

Esse arranjo peculiar, instalado sob um imponente pórtico, é o que Anders Fernstedt – um sueco que passou por dificuldades extremas – chama de lar há mais de três anos.

O edifício que abriga esse refúgio improvisado foi, há poucos anos, a casa mais cara de Londres.

A megamansão, localizada em 2-8A Rutland Gate, foi vendida em 2020 por um valor recorde na época – 210 milhões de libras (R$ 1,4 bilhão) – para Hui Ka Yan, fundador do grupo chinês Evergrande.

Condenado à prisão perpétua em agosto, Hui nunca chegou a morar no local, e a propriedade foi registrada em nome de sua esposa. O congelamento dos bens dela impede que o imóvel seja confiscado pelos liquidantes, deixando a casa em um limbo.

O mesmo acontecia com Fernstedt quando ele se deparou com o local pela primeira vez. "Pensei apenas que seria um abrigo para passar a noite. Sou um entusiasta de acampamentos, quase um botânico amador. Não tenho medo da natureza", contou ele à DW.

"Acampando no pórtico"

Fernstedt nunca entrou na propriedade, que parece estar em estado de deterioração. Em vez disso, ele construiu seu lar, aos poucos, no pórtico – onde colunas grandiosas guardam os 45 cômodos, a piscina coberta e as 116 janelas. Durante todo o ano, ele dorme sob a cobertura do pórtico e um grande guarda-sol, criando um cantinho reservado onde colocou colchões e roupas de cama. "Não tenho uma noite de sono ruim desde que me entendo por gente. E isso vale para as quatro estações. Não faz frio no inverno e, como não tenho paredes, aproveito a brisa durante o calor", disse ele.

"A ideia que eu tinha, quando comecei, era uma espécie de sonho fictício. 'Ah, sou apenas um garoto, meus pais estão na casa, está tudo normal; só pedi permissão a eles para acampar na varanda'."

Fernstedt foi criado pela mãe na Suécia, antes de seguir diversas carreiras, tanto em seu país natal quanto nos Estados Unidos, onde construiu uma reputação no setor de tecnologia.

Em 2016, mudou-se para o Reino Unido, onde trabalhou como jornalista e verificador de fatos em publicações como a revista The Economist, até que as oportunidades de trabalho escassearam por volta da época da pandemia de covid-19.

Uma participação em uma empresa de tecnologia, da época em que viveu nos EUA, garantiu a Anders uma reserva financeira que o ajudou a se manter. Mas o recurso não durou para sempre; ele acabou vivendo em uma barraca e, depois, em acomodações temporárias, onde presenciou episódios de violência e conviveu com pessoas que sofriam de dependências graves.

"Talvez, neste mundo contemporâneo, o aspecto mais curioso do meu estilo de vida seja o fato de eu viver completamente à margem do dinheiro", afirmou.

Apoio comunitário

Fernstedt estabeleceu laços com padarias, cafés e floriculturas, de onde obtém alimentos que não foram vendidos, flores para decorar seu espaço e acesso à rede elétrica. Ele também recorre a uma instituição de caridade para pessoas em situação de rua, nas proximidades de Victoria, para tomar banho, conseguir roupas e socializar. Ao mesmo tempo, ele se tornou uma figura amplamente aceita em um dos bairros mais abastados de Londres.

"Este é um bairro muito sofisticado. Depois de algumas semanas, percebi que todos sabiam da minha presença ali. E pensei: 'Como posso, de certa forma, sinalizar que estou aqui, sem estar presente de fato?'" "E pensei: meu 'eleitorado' precisa ser os filhos e netos dos meus vizinhos. Porque, se eles defenderem a minha causa à mesa de jantar, minhas chances melhoram", disse ele, explicando a presença dos brinquedos que se espalham por sua moradia.

"É, de certa forma, como a coleção de nozes de um esquilo", acrescentou, ao ser questionado se não se preocupa em deixar seus pertences expostos ao ar livre. "Tenho tantas 'nozes' que nem vou notar se algo desaparecer."

Há vizinhos que se incomodam com a presença dele, mas Anders faz o possível para manter seu espaço organizado e sua vida tranquila. Na verdade, muitos outros acreditam que a presença dele ajuda a evitar que o local se torne alvo de ladrões ou vândalos. De modo geral, porém, ele sente que a comunidade é acolhedora.

"Às vezes, as pessoas se aproximam perguntando do que eu preciso ou o que eu gostaria. Minha resposta padrão é: 'Bem, o que vocês acabaram de me dar: um pouco de normalidade, não é? E uma conversa amigável entre vizinhos'", contou. "Às vezes, me dão comida; em algumas ocasiões, até ganhei roupas, incluindo paletós italianos bem elegantes."

Pessoas na rua: preocupação crescente em Londres

Nem todas as pessoas em situação de rua em Londres conseguiram um estilo de vida tão estável. A organização beneficente Crisis estima que existam mais de 200 mil pessoas nessa condição na capital inglesa. Entre abril e junho, "4.392 pessoas foram registradas dormindo nas ruas de Londres – um aumento de 4% em relação ao mesmo período do ano anterior e de 58% na comparação com dez anos atrás".

Segundo dados do governo, havia 105.138 imóveis vazios em Londres em 2025 – o equivalente a uma em cada 37 residências. Andy Burnham, que assumiu o cargo de primeiro-ministro britânico em julho, prometeu oferecer a "todas as pessoas que dormem nas ruas da Inglaterra uma alternativa para sair dessa situação até o Natal".

Com um custo tão elevado – mesmo após seis anos de abandono do local –, Fernstedt sabe que a casa onde vive pode, a qualquer momento, tornar-se um lugar inviável para se morar.

Mas, nos últimos anos, esse lugar lhe proporcionou algo que ele desejava muito na época em que precisava montar sua barraca ou ser transferido de uma residência temporária precária para outra.

"Já não me preocupo tanto com a possibilidade de, ao virar a esquina, descobrir que tudo desapareceu. Como estou aqui há muito tempo, já não vivo mais com essa preocupação; afinal, se a gente se preocupa demais, não consegue ser feliz."