
A Assembleia Legislativa da Saxônia-Anhalt, na Alemanha, exigiu o fim imediato de toda a ajuda financeira e militar alemã à Ucrânia. A moção foi aprovada em sessão extraordinária com os votos dos partidos Alternativa para a Alemanha (AfD), de ultradireita, e da Aliança por Justiça Social e Racionalidade Econômica (BSW), sigla antiwoke que combina posições econômicas de esquerda com pautas típicas da direita em questões como imigração e diversidade.
Ambos os partidos pressionam o atual governador da Saxônia-Anhalt, Sven Schulze, da sigla conservadora União Democrata Cristã (CDU), a defender negociações de paz com a Rússia no Bundesrat – o órgão que representa os 16 estados federados da Alemanha.
Da deputada estadual Claudia Wittig (BSW), Schulze ouviu que é sua responsabilidade "se empenhar, por todos os meios, em prol da paz".
No entanto, como os estados alemães não possuem competências específicas em política externa, a moção não vai alterar em nada a política do governo alemão em relação à Ucrânia.
Ainda assim, a iniciativa foi duramente criticada pelos demais partidos no parlamento estadual da Saxônia-Anhalt.
"Quem exige um cessar-fogo apenas da parte atacada não está pedindo paz, está pedindo a capitulação", declarou Stefan Ruland (CDU), acusando AfD e BSW de "inverter os papéis de vítima e agressor."
A sessão extraordinária ocorreu em meio às negociações para a formação de um novo governo na Saxônia-Anhalt. A AfD venceu as eleições de setembro de 2026 com quase 44% dos votos; contudo, não alcançou a maioria absoluta no novo Parlamento estadual, dependendo, portanto, do apoio de outras agremiações para formar um governo.
Posições pró-Putin como elo de ligação
O BSW – que conquistou pouco mais de 5% dos votos, garantindo assim representação no recém-eleito Parlamento estadual – é o único partido disposto a manter conversas oficiais com a AfD. O diretório estadual da sigla de ultradireita é classificado pelas autoridades de segurança como "comprovadamente extremista de direita", e por isso os demais partidos rejeitam qualquer aliança com a AfD.
A moção de AfD e BSW contra o apoio alemão à Ucrânia é vista por observadores como um sinal de uma cooperação mais estreita e de longo prazo entre as duas legendas que, ideologicamente, têm origens muito distintas.
"O que [esses dois partidos] têm em comum é a rejeição à elite política, a postura pró-Putin e a crítica ao apoio alemão à Ucrânia", explica à DW o cientista político Armin Pfahl-Traughber, da Escola Federal de Administração Pública da Alemanha.
No passado, políticos da AfD expressaram diversas vezes simpatia pelo sistema político do presidente russo, Vladimir Putin. Björn Höcke, influente presidente estadual da AfD na Turíngia, descreveu o líder russo em 2023 – um ano após o início da guerra de agressão russa contra a Ucrânia – como um "paladino de um mundo de Estados livres e soberanos".
Um partido de esquerda aliado à AfD?
O BSW foi fundado em 2024 como uma dissidência do partido A Esquerda. Sua fundadora, Sahra Wagenknecht – que, inicialmente, deu nome à aliança –, era considerada, até então, um ícone controverso da esquerda alemã, defendendo uma mudança radical na política econômica do país.
Dentro do A Esquerda, ela foi, no passado, a representante mais proeminente da chamada "plataforma comunista", que mantinha uma forte proximidade com a Rússia. No entanto, suas pautas conservadoras em questões sociais e suas críticas à política migratória alemã passaram a gerar cada vez mais rejeição dentro do partido, o que acabou resultando em sua saída da legenda no intuito de fundar o BSW.
No que diz respeito a uma possível cooperação entre a AfD e o BSW, um encontro no início de outubro de 2026 ganhou as manchetes: a convite de uma editora de ultradireita, representantes de ambos os partidos se reuniram na Saxônia-Anhalt para um jantar destinado a construir confiança. À mesa, estavam também figuras controversas das cenas de ultradireita e da esquerda dogmática. Segundo as partes envolvidas, o encontro transcorreu em tom amigável.
O anfitrião do jantar era o editor-chefe da revista de ultradireita Compact, Jürgen Elsässer. O empresário defende há anos a criação de uma chamada "frente transversal" (do alemão "Querfront") para unir os extremos à direita e à esquerda.
Pfahl-Traughber, porém, questiona o conceito e diz não ver a cooperação entre AfD e BSW como uma "frente transversal". "Tenho dúvidas se o BSW ainda pode ser classificado, de fato, como parte da esquerda política."
De fato, a fundadora do partido, Sahra Wagenknecht, construiu sua carreira política na esquerda. Ela e seus correligionários se alinham mais a esse campo em agendas socioeconômicas. Mas pendem para a direita em temas como migração e costumes, pontua o cientista político.
Para o renomado historiador e publicista alemão Ilko-Sascha Kowalczuk, o BSW não é, de forma alguma, um partido de esquerda. "O BSW nunca foi de esquerda; sempre foi reacionário", afirma à DW.
Kowalczuk vê tanto a AfD quanto o BSW como uma ameaça à democracia. "O BSW e a AfD são dois lados da mesma moeda. Ambos servem como porta-vozes do Kremlin; ambos buscam objetivos semelhantes na política interna e uma reestruturação estatal antidemocrática, rumo a um modelo autoritário."
Corrosão do apoio popular à Ucrânia?
Embora a recente decisão do Parlamento estadual na Saxônia-Anhalt provavelmente não deva ter impactos imediatos na política alemã em relação à Ucrânia, Kowalczuk alerta para as consequências.
"Por enquanto, a AfD e o BSW ainda estão isolados, mas, com essa postura, eles conquistam amplos setores da sociedade, especialmente no leste do país. A perda de solidariedade com a Ucrânia vai avançar e, em breve, atingirá também parcelas maiores da CDU e do SPD [o Partido Social-Democrata, parceiro da CDU na coalizão do governo federal]", afirma o historiador à DW.