Weinstein condenado a 15 anos de prisão por agressão sexual

Ex-produtor de cinema Harvey Weinstein recebeu sentença por caso ocorrido em 2006 após saga jurídica de mais de seis anos

Defesa pediu clemência devido à saúde de Weinstein, de 74 anos
Foto: Foto: Reprodução
Defesa pediu clemência devido à saúde de Weinstein, de 74 anos

O ex-produtor de cinema de Hollywood Harvey Weinstein foi sentenciado nesta quarta-feira (23/09) a 15 anos de prisão por um delito sexual grave, em mais um desdobramento dos casos desencadeados pelo movimento #MeToo.

A sentença de Weinstein pelo abuso sexual de Miriam Haley, ex-assistente de produção de TV, em um caso ocorrido em 2006, foi anunciada após uma saga jurídica que durou mais de seis anos. Sua condenação de 2020 havia sido anulada pela mais alta corte de Nova York. Mas em um novo julgamento no ano passado, ele foi considerado culpado novamente por um segundo júri.

Outrora uma das figuras mais poderosas da indústria cinematográfica, Weinstein, que já foi premiado com um Oscar, produziu sucessos como Shakespeare Apaixonado, Pulp Fiction e Chocolate. Sua queda, no entanto, foi vertiginosa após acusações de abuso sexual que emergiram em 2017 e desencadearam o movimento #MeToo.

Os advogados de Weinstein, de 74 anos, deverão recorrer da decisão. Ele alega que jamais cometeu estupro nem abuso sexual.

Após a leitura da sentença, ele foi rapidamente retirado do tribunal em uma cadeira de rodas, enquanto algumas de suas acusadoras se abraçavam e celebravam a condenação.

Haley relata "efeito devastador" em sua vida

Weinstein enfrentava uma pena de até 25 anos de prisão pelo abuso sexual de Haley em seu apartamento em Manhattan, em 2006. Ele já cumpriu mais de seis anos de pena enquanto seu caso tramitava no sistema de justiça criminal. Haley relatou o abuso em dois julgamentos e voltou a se dirigir ao tribunal nesta quarta-feira.

"Ter sofrido abuso sexual por parte de Harvey Weinstein teve um efeito devastador em minha vida e em minha sensação de segurança, algo que talvez nunca desapareça. A decisão de denunciar fará com que eu viva olhando por cima do ombro nos próximos anos", disse Haley. "Para mim, isso é uma prisão perpétua", acrescentou.

Minutos depois, Weinstein pediu desculpas, ao mesmo tempo em que reiterava sua inocência.

"Refletir sobre tudo o que aconteceu desde 2017 me ajudou a reconhecer como minha conduta passada afetou negativamente outras pessoas. Vivo com muitos arrependimentos e peço desculpas sinceramente a qualquer pessoa que eu tenha afetado com minhas ações", disse.

A agressão que levou à condenação de Weinstein

Haley, de 49 anos, é uma ex-produtora de entretenimento que atualmente trabalha com publicidade.

Ela disse que conheceu Weinstein por meio de um contato em comum e trabalhou brevemente como assistente de produção no Project Runway, um reality show produzido por ele.

Haley contou que aceitou um convite para visitar o apartamento de Weinstein e, após uma breve conversa, ele avançou para beijá-la, segundo seu depoimento. Ela disse que o rejeitou, mas ele a agarrou, empurrou-a à força para dentro de um quarto e a agrediu sexualmente, ignorando seus apelos para que parasse.

Ela recordou que Weinstein perguntou: "Você não acha que estamos muito mais próximos agora?", seja após a suposta agressão ou em uma ocasião posterior, quando ela diz ter tido relações sexuais não desejadas – embora sem uso de força física – com ele.

Ela também lembrou de ter dito a ele, após o segundo encontro: "Você sabe que não pode continuar fazendo isso".

Algumas das acusadoras presentes no tribunal balançaram a cabeça negativamente enquanto ele falava.

Weinstein é a face do #MeToo, diz juiz

O juiz Curtis Farber afirmou que Weinstein já foi um "rei" na indústria cinematográfica, "mas o reconhecimento por essas conquistas empalidecerá diante do que você fez". Ele disse que Weinstein é agora conhecido como "um predador sexual, a própria face do movimento #MeToo".

Farber disse que Weinstein tratava as mulheres como "meros objetos para serem usados e descartados" e que ainda não assumiu a responsabilidade, retratando-se como vítima em entrevistas concedidas na prisão.

Após o julgamento, Haley disse estar satisfeita com a sentença, ressaltando que é evidente que Weinstein não reconheceu seus atos. "Acho que ele ainda se sente no direito de agir assim, e isso é parte do problema", afirmou ela.

A advogada de Haley, a renomada defensora dos direitos das vítimas Gloria Allred, rejeitou qualquer sugestão de que a condenação de Weinstein signifique o fim da era #MeToo. "As mulheres estão empoderadas como nunca antes", disse.

Por que Weinstein foi condenado pela 2ª vez

Weinstein foi inicialmente condenado a 23 anos de prisão depois que um júri o considerou culpado de agredir Haley e estuprar a aspirante a atriz Jessica Mann em 2013.

Julgado pela segunda vez no ano passado, ele foi novamente condenado por ato sexual criminoso em primeiro grau pela agressão a Haley – que também usava o nome Mimi Haley. Em um veredito dividido e inconclusivo, o júri o absolveu da acusação de forçar outra mulher, Kaja Sokola, a praticar sexo oral, e não chegou a um veredito sobre a acusação de estupro envolvendo Jessica Mann.

Após um novo julgamento terminar sem decisão do júri em maio, os promotores de Manhattan desistiram da acusação de estupro em vez de buscar um quarto julgamento, depois que Mann declarou não suportar a ideia de testemunhar novamente.

Defesa pediu clemência

O advogado de defesa Jacob Kaplan pediu a imposição de mais três anos além dos seis que Weinstein já cumpriu, argumentando que uma sentença mais longa aumentaria a probabilidade de ele morrer na prisão.

Weinstein foi hospitalizado seis vezes desde 2025, disse Kaplan, enquanto tratava de câncer no sangue, insuficiência cardíaca congestiva e problemas renais.

O ex-produtor também aguarda uma nova sentença em um caso separado de estupro em Los Angeles. Um tribunal de apelações da Califórnia manteve a condenação de 2022, mas anulou a sentença original de 16 anos porque o juiz havia considerado as condenações em Nova York – que foram posteriormente anuladas – como um fator agravante.

Após ser transferido entre a prisão estadual, onde testou positivo para covid-19 no início da pandemia, e o notório complexo de Rikers Island, em Nova York, Weinstein está alojado em uma unidade médica para detentos no Hospital Bellevue, em Manhattan.

A ascensão do #MeToo

A onda de acusações contra Weinstein teve início em 2015, quando algumas atrizes começaram a denunciar abusos cometidos pelo magnata.

Mesmo assim, a carreira de Weinstein somente veio a desmoronar em outubro de 2017, quando o jornal americano The New York Times e a revista New Yorker revelaram um histórico de abusos sexuais perpetrados pelo produtor durante décadas.

O caso se tornou uma bandeira do movimento feminista #MeToo, e encorajou dezenas de vítimas no meio artístico a falarem sobre abusos cometidos pelo ex-produtor. Entre estas, estavam atrizes consagradas como Uma Thurman, Angelina Jolie e Salma Hayek.

O caso também trouxe à tona a impunidade com que homens em posições de poder na indústria cinematográfica mantinham comportamento sexual impróprio contra mulheres.