Trump se elegeu nos EUA criticando o envolvimento de seus antecessores em guerras intermináveis, mas até agora não conseguiu negociar uma saída para o conflito no Irã que ele mesmo iniciou
Andreas Noll
Trump se elegeu nos EUA criticando o envolvimento de seus antecessores em guerras intermináveis, mas até agora não conseguiu negociar uma saída para o conflito no Irã que ele mesmo iniciou

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, expôs com bastante precisão o que poderá ser a nova fase da guerra contra o Irã. Segundo ele, os iranianos tentaram reconstruir seus sistemas de radar após a mais recente grande onda de ataques americanos.

"Esperamos até que eles estivessem quase reconstruídos e então os atingimos", disse Trump.

Na terça-feira (01/09), as forças armadas americanas voltaram a atacar numerosos alvos no Irã. Segundo o Comando Central dos EUA (Centcom), foram destruídos, entre outros, sistemas de radar e defesa aérea, instalações marítimas, capacidades de instalação de minas navais e equipamentos de comunicação.

O Irã respondeu com mísseis e drones contra instalações americanas na região. Com isso, concretizou-se aquilo que o Centcom havia indicado poucos dias antes como uma possível estratégia para a próxima fase da guerra.

A estratégia de "aparar a grama"

Segundo informações do portal de notícias Axios, ataques limitados e repetidos quando necessário teriam o objetivo de impedir que o Irã restabeleça suas capacidades militares no Estreito de Ormuz.

Um integrante do governo americano descreveu a ideia usando um conceito da política de segurança israelense: "aparar a grama".

A metáfora descreve uma estratégia que nem sequer promete derrotar definitivamente o adversário. Basta reduzir regularmente suas capacidades militares a um nível que mantenha a ameaça sob controle. Quando a grama volta a crescer, ela é cortada novamente.

Aplicada à situação do Irã, isso significaria que os Estados Unidos monitoram quais capacidades militares o adversário está reconstruindo e voltam a atacar quando um determinado limite é ultrapassado.

Sucesso com prazo de validade

Nos últimos meses, os Estados Unidos de fato obtiveram êxitos militares. As forças armadas americanas reduziram significativamente as capacidades militares iranianas no Estreito de Ormuz e iniciaram a remoção de minas navais iranianas.

Mas esses sucessos não são permanentes. Teerã repara ou adquire novos radares, sistemas de defesa aérea e mísseis antinavio.

As bombas americanas podem destruir posições importantes dos iranianos em pontos específicos. No entanto, o conhecimento técnico e a base industrial da tecnologia militar iraniana permanecem intactos.

Isso atrasa a reconstrução, mas não a impede. E os Estados Unidos se veem repetidamente diante da mesma escolha: aceitar que Teerã recupere capacidades militares ou voltar a atacar para destruí-las.

Já em abril, a especialista em Oriente Médio Mona Yacoubian, do Center for Strategic and International Studies (CSIS), em Washington, alertou para as consequências dessa dinâmica. Segundo ela, a situação pode evoluir para um "conflito permanente de baixa intensidade, interrompido por intervenções mais intensas".

A vantagem tática do Irã

O fato de a estratégia de "cortar a grama" ter limites também se deve ao fato de ela nunca ter sido concebida para uma guerra contra um Estado.

Israel desenvolveu a estratégia para combater atores não estatais, como o grupo palestino Hamas, considerado uma entidade terrorista por alguns países ocidentais.

Mas Yacoubian ressalta que o "corte da grama" pode ser uma "estratégia militar ultrapassada" no caso de adversários com características estatais e capacidades mais robustas.

Isso fica especialmente evidente no Estreito de Ormuz. Enquanto os EUA precisam manter a hidrovia aberta de forma confiável, ao Irã basta que o resto do mundo acredite que a travessia continua perigosa.

Mesmo um adversário militarmente muito enfraquecido pode, assim, impor custos consideráveis a Washington.

Além disso, os Estados Unidos enfrentam outro problema: podem controlar a intensidade de seus próprios ataques, mas não a reação de Teerã.

Trump já advertiu diversas vezes o governo iraniano contra qualquer retaliação militar.

Apesar desses alertas, o regime iraniano respondeu imediatamente aos últimos ataques americanos com mísseis contra instalações americanas na região. Somente a Jordânia informou que 13 mísseis balísticos cruzaram seu espaço aéreo, dos quais dez foram interceptados.

A questão nuclear

Yacoubian alerta, porém, para um risco ainda maior associado aos ataques regulares dos Estados Unidos: Teerã pode acabar concluindo que uma dissuasão duradoura só poderá ser alcançada "por meio da busca por uma arma nuclear".

Nesse cenário, Estados Unidos e Israel poderiam acabar acelerando justamente o desenvolvimento que pretendiam conter ao atacar o Irã.

Sob a perspectiva de Washington, as alternativas para Trump também não parecem muito melhores. Se ele permitir que o Irã recupere força militar na região do Estreito de Ormuz, arrisca novos ataques a embarcações e perturbações em uma das rotas energéticas mais importantes do mundo — com consequências já conhecidas para a economia global.

Apesar das tensões e das negociações repetidas, um acordo político entre Washington e Teerã fracassou até agora devido a divergências aparentemente incontornáveis.

Próxima "guerra sem fim"?

Por outro lado, a estratégia de "cortar a grama" tem seu apelo dentro dos EUA para Trump, apesar de todas as incertezas na política externa: ela dispensa ocupação militar, grandes contingentes de tropas terrestres americanas e esforços de reconstrução nacional ("nation building").

Ao mesmo tempo, ao se limitar a "aparar a grama", Trump se distancia das chamadas "guerras sem fim" de governos anteriores na Casa Branca que ele tantas vezes criticou.

No fim, porém, o que parece ser a solução para evitar uma guerra interminável pode ter justamente o efeito contrário.

Para Yacoubian, "cortar a grama" é na verdade uma "estratégia de Sísifo de desgaste sem fim": enquanto Washington não estiver disposto a aceitar, em algum momento, a reconstrução das capacidades iranianas, cada ataque bem-sucedido ensejará uma resposta, perpetuando o conflito.

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    Tags: Politica
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