Proposta foi incluída no recente pacote de reformas do governo de Merz
Jens Thurau, Gustavo Queiroz
Proposta foi incluída no recente pacote de reformas do governo de Merz

Jens Thurau, Gustavo Queiroz

O pacote de reformas apresentado pelo governo alemão no início de julho, voltado para promover um alívio fiscal bilionário, inclui também propostas que enfraquecem a Lei de Liberdade de Informação (IFG) e podem restringir o acesso público a dados governamentais.

Críticos alertam que as mudanças ameaçam descaracterizar a função central da norma ao, por exemplo, exigir "interesse legítimo", prever novas taxas, limitar pedidos a pessoas físicas e cidadãos europeus e ocultar nomes de servidores.

A proposta compõe um pacote de 34 medidas destinadas a economizar 10 bilhões de euros (R$ 57 bilhões) aos cofres públicos e têm impacto direto sobre aposentadoria, impostos, sistema de saúde e burocracia. O pacote, segundo o chanceler federal Friedrich Merz (CDU), busca "colocar a Alemanha novamente nos trilhos", numa tentativa de reverter anos de estagnação econômica.

Governo diz combater ameaças externas

A IFG alemã existe desde 2006 e tem função semelhante à Lei de Acesso à Informação (LAI) brasileira, que garante a qualquer pessoa o direito de obter dados oficiais de órgãos federais. É com base nessa norma alemã que organizações, grupos ambientalistas, entidades de defesa do consumidor e jornalistas solicitam informações às autoridades – obrigadas a responder, exceto em casos ligados à segurança nacional.

Para os partidos governistas liderados pelos conservadores União Democrata Cristã (CDU) e União Social Cristã (CSU), esse tipo de informação precisa ser tratado com ainda mais cuidado em tempos de atividades globais de guerra cibernética e ataques de hackers. Ainda durante as negociações, o partido de Merz chegou a pedir a "abolição da lei em sua forma atual".

O interesse em alterar o escopo da norma já havia aparecido no acordo de coalizão firmado pela CDU/CSU e pelos social-democratas do SPD em 2025. Agora, a reforma afirma que existe uma necessidade especial de proteção dos dados governamentais em "tempos de uma complexa situação de ameaças internas e externas".

Pessoas físicas, taxas e "interesse legítimo"

Segundo os planos do governo, apenas pessoas físicas, e não mais organizações e associações, manteriam o direito básico de apresentar pedidos de informação. Além disso, demandas que hoje são gratuitas passariam a ter valores significativamente mais altos, com o solicitante sendo obrigado a cobrir os custos administrativos para realizar o serviço.

O governo também quer exigir que o solicitante demonstre "interesse legítimo" para obter o direito de solicitar informações. Hoje não há exigência de apresentar justificativa para pedir informações públicas. Segundo organizações que atuam pela liberdade de informação, como a FragDenStaat, isso barraria 99% dos atuais pedidos.

"O ponto essencial é que o comitê da coalizão decidiu que pedidos só serão permitidos quando houver um interesse especial por parte do solicitante", afirmou o jurista Thomas Fuchs, encarregado da Proteção de Dados e Liberdade de Informação de Hamburgo, à emissora pública alemã ZDF. "Isso é, no fundo, a morte do chamado direito à informação sem requisitos."

Direito restrito a europeus e ocultação de nomes

O governo também pretende avaliar se os direitos previstos na legislação atual podem ser limitados a "alemães e cidadãos da União Europeia residentes na Alemanha", o que restringiria o acesso de jornalistas de outras nacionalidades, por exemplo, a informações públicas.

Em comparação, tanto a LAI brasileira quanto a Freedom of Information Act (FOIA), dos EUA, permitem que estrangeiros e pessoas jurídicas protocolem pedidos de informação.

Outra mudança prevista é a possibilidade de sempre ocultar nomes de funcionários públicos em respostas oficiais, sob o argumento de protegê-los de "hostilidade e ameaças".

Dados relacionados à infraestrutura crítica, contraespionagem ecombate ao terrorismo passariam a receber tratamento ainda mais restritivo, ampliando as barreiras para solicitações feitas com base na IFG.

Críticos acusam esvaziamento da norma

Críticos afirmam que o conjunto das alterações tende a reduzir a transparência governamental e a esvaziar a função central da IFG. Associações afirmam que a exigência de "interesse legítimo" para protocolar pedidos inverte o princípio fundamental da lei e que a ocultação generalizada de nomes cria uma caixa-preta, dificultando o trabalho de ONGs e da imprensa.

O deputado Konstantin von Notz, do Partido Verde e membro do órgão parlamentar responsável pela supervisão dos serviços de inteligência, afirma que o Estado enfraquece suas bases legais de transparência sob o pretexto de se adaptar a novas ameaças à segurança.

A proposta representa "um grande retrocesso em relação a direitos dos cidadãos conquistados com muito esforço", diz.

Um total de 110 grupos da sociedade civil, entre eles Greenpeace, Transparência Internacional e Anistia Internacional, exigiram do governo que a atual lei permaneça intocada. "Quem limita o direito de acesso à informação a casos individuais sujeitos a justificativa, exclui organizações e eleva as taxas a níveis imprevisíveis, acaba, na prática, com a liberdade de informação", afirmaram.

"Se o governo federal agora pretende restringir os direitos de acesso à informação, dificultará o controle e a participação da sociedade, reduzirá a aceitação em temas como infraestrutura, uso do solo, proteção das espécies e proteção climática. Assim não se constrói confiança, mas mais desconfiança", disse à DW Martin Kaiser, especialista em clima do Greenpeace.

As críticas foram tão intensas que até parlamentares da base governista admitem reavaliar a reforma planejada. Enquanto as lideranças do SPD, que compõem a coalizão de Merz, apoiam a proposta do governo, membros da bancada da sigla divulgaram uma declaração conjunta contra os planos.

"Não pode haver redução dos atuais direitos de acesso à informação para cidadãos, imprensa e sociedade civil. A bancada do SPD no Bundestag não dará apoio à eliminação do atual nível de transparência garantido pela Lei de Liberdade de Informação."

Cerca de 100 mil solicitações em sete anos

Segundo dados oficiais do Bundestag (Parlamento alemão), o direito de acesso à informação é amplamente utilizado na Alemanha. Entre 2015 e 2022 foram apresentados aproximadamente 105 mil pedidos de informação a autoridades alemãs.

Apenas numa pequena parcela dos casos, cerca de 16.200, as informações foram fornecidas parcialmente, e em aproximadamente 9 mil casos os pedidos foram totalmente negados. O restante foi considerado respondido, segundo o governo federal.

Segundo a FragDenStaat, que já reuniu mais de 470 mil assinaturas contra a reforma, escândalos recentes do governo alemão foram revelados graças à Lei de Liberdade de Informação.

Pedidos de informação revelaram detalhes sobre contratos emergenciais e compras superfaturadas de máscaras durante a pandemia com suspeita de favorecimento político; expuseram falhas graves de planejamento associadas a um projeto ferroviário na Baviera e mostraram que parte do controle fronteiriço conduzido pela atual gestão ultrapassava limites legais.

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Autor: Jens Thurau, Gustavo Queiroz

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    Tags: Alemanha
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