
Muito antes das rodovias movimentadas, dos postos de combustíveis espalhados pelo caminho e dos sistemas de navegação por GPS, viajar de automóvel entre São Paulo e Campinas era uma verdadeira aventura . Em fevereiro de 1909, o conde francês Jacques Bouly de Lesdain percorreu aproximadamente 180 quilômetros entre as duas cidades em uma viagem que durou 25 horas e teve um obstáculo que hoje parece improvável: encontrar gasolina para continuar dirigindo.
A jornada aconteceu em uma época em que o automóvel ainda era uma novidade no Brasil e a infraestrutura rodoviária estava longe de oferecer as condições conhecidas atualmente. O percurso exigiu planejamento, improviso e ajuda de outras pessoas, transformando a travessia em um episódio marcante da história do automobilismo paulista.
Um dos momentos mais curiosos ocorreu em Atibaia, no interior de São Paulo. Segundo relato, Lesdain recebeu ajuda de um motociclista que tinha combustível no tanque . O encontro ilustra uma das principais dificuldades enfrentadas por quem se aventurava a percorrer longas distâncias de carro no início do século 20.
Quem era o conde que se aventurou pelas estradas paulistas?
Jacques Bouly de Lesdain era um aristocrata francês conhecido pelo espírito aventureiro . Quando chegou ao Rio de Janeiro, em 1908, aos 27 anos, já havia participado de expedições pela Ásia Central e viajado por regiões da Mongólia e da China . Ao lado da primeira esposa, a norte-americana Mabel Bailey, também havia cruzado territórios entre o Tibete e a Índia.

As experiências anteriores ajudaram a construir a imagem de um viajante disposto a enfrentar desafios. No Brasil, ele encontrou uma nova oportunidade de aventura: explorar as possibilidades do automóvel, uma tecnologia que começava a despertar curiosidade e a transformar os deslocamentos.
Para a viagem ao país, Lesdain trouxe um Brasier 16/26 HP , veículo de fabricação francesa . A marca ganhava projeção internacional e havia conquistado destaque em competições automobilísticas europeias. O conde também chegou a manifestar interesse em abrir uma representação da fabricante no mercado brasileiro.
Antes de seguir de São Paulo para Campinas, ele já havia protagonizado outras façanhas automobilísticas no país, chamando a atenção da imprensa e do público.
Automóvel ainda era novidade no Brasil
No começo do século passado, possuir um automóvel era algo restrito a uma parcela pequena da população . Os veículos importados chamavam a atenção por sua tecnologia e pelo potencial de substituir, em determinadas situações, os meios tradicionais de transporte.
Entretanto, a expansão do automóvel não foi acompanhada imediatamente pela construção de estradas adequadas. Muitas rotas eram precárias, e os deslocamentos dependiam das condições do terreno, da disponibilidade de caminhos e da possibilidade de conseguir auxílio durante o trajeto.
A situação tornava uma viagem entre cidades muito diferente de simplesmente entrar no carro e seguir pela estrada. Além de conhecer o funcionamento do veículo, era necessário pensar em ferramentas, manutenção e abastecimento.
Foi nesse cenário que a travessia de Lesdain entre São Paulo e Campinas entrou para os registros da história automotiva.
Gasolina era um dos maiores desafios
Atualmente, o motorista que percorre a ligação entre São Paulo e Campinas encontra uma estrutura rodoviária consolidada, com postos, serviços e diferentes alternativas de trajeto. Em 1909, a realidade era outra.
A oferta de gasolina ainda era limitada, especialmente fora dos grandes centros urbanos. Por isso, a autonomia do automóvel não dependia apenas da capacidade do tanque: era preciso saber onde encontrar combustível ou contar com a possibilidade de receber ajuda.
Durante o percurso, a passagem por Atibaia ficou marcada justamente por essa necessidade. Lesdain foi socorrido por um motociclista que tinha o tanque cheio, permitindo que a viagem prosseguisse.
O episódio ajuda a dimensionar como o abastecimento era um desafio para os primeiros motoristas. Sem a rede de postos que se tornaria comum nas décadas seguintes, uma reserva de combustível e a colaboração de outras pessoas podiam fazer diferença entre continuar o trajeto e ficar parado no caminho.
A experiência também mostra que a popularização do automóvel dependia de mudanças que iam além da fabricação dos veículos. Era necessário desenvolver estradas, ampliar o acesso ao combustível e criar uma estrutura de apoio para quem viajava.
Um percurso de 180 quilômetros em 25 horas
A viagem de São Paulo a Campinas levou 25 horas para ser concluída . A distância registrada para o percurso era de aproximadamente 180 quilômetros.
O tempo necessário para vencer esse trajeto evidencia as limitações enfrentadas pelos primeiros automobilistas. A duração não pode ser comparada diretamente à de uma viagem atual, já que as condições das vias, a disponibilidade de serviços e as características dos veículos eram muito diferentes.
Naquele período, o automóvel exigia atenção constante e a experiência de dirigir envolvia muito mais do que controlar o volante e acelerar. Imprevistos mecânicos, dificuldades para abastecer e as condições dos caminhos podiam interferir no andamento da viagem.
O feito de Lesdain representou, assim, um exemplo das possibilidades e dos limites do transporte motorizado em uma fase em que o Brasil ainda começava a se adaptar à presença dos carros.
A aventura fazia parte de uma trajetória maior
A passagem por Campinas não foi a primeira experiência de Lesdain em grandes percursos automobilísticos no país. Em 1908, o francês já havia realizado uma viagem entre o Rio de Janeiro e São Paulo que se tornou célebre pelas dificuldades enfrentadas.
A expedição começou em março daquele ano e durou 36 dias para percorrer cerca de 700 quilômetros. Na ausência de uma estrada que conectasse diretamente as duas cidades, o grupo precisou seguir por caminhos de boiadeiros e trilhas entre fazendas.
Durante a jornada, os viajantes enfrentaram lama, chuvas, falta de pontes e dificuldades para encontrar combustível e alimentos. Em alguns trechos, o veículo chegou a precisar da força de juntas de bois para sair de situações complicadas.
A travessia ganhou repercussão na imprensa e ajudou a consolidar a imagem de Lesdain como um dos pioneiros das longas viagens de automóvel no Brasil. Pouco depois, ele também participou de uma das primeiras viagens automobilísticas entre São Paulo e Santos.
Em julho de 1908, o conde disputou o Circuito de Itapecerica, considerado a primeira corrida de automóveis do Brasil. A participação, porém, foi marcada por acidentes : após bater o próprio Brasier durante os treinos, ele utilizou outro veículo e sofreu um novo acidente, no qual quebrou o queixo.
A viagem a Campinas, realizada no ano seguinte, deu continuidade a essa trajetória de experiências com um meio de transporte que ainda estava longe de fazer parte da rotina da maioria dos brasileiros.
O que a viagem representa para a história de Campinas?
A travessia de 1909 ajuda a compreender como eram os deslocamentos entre Campinas e a capital paulista antes da consolidação das grandes rodovias. Embora o automóvel já despertasse interesse, viajar por estradas ainda era uma atividade que exigia tempo, preparação e disposição para lidar com imprevistos.
O caso também permite observar uma etapa importante da transformação dos transportes no estado de São Paulo. Com o aumento da circulação de veículos, tornou-se cada vez mais necessário adaptar os caminhos existentes e construir vias voltadas especificamente ao tráfego motorizado.
Em 1921, alguns anos depois da viagem de Lesdain, foi inaugurada a estrada São Paulo–Campinas, apontada pela Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) como a primeira rodovia brasileira construída especialmente para o trânsito de carros e caminhões.
A diferença entre os dois momentos ajuda a dimensionar a transformação ocorrida em pouco mais de uma década. Em 1909, uma viagem de cerca de 180 quilômetros podia levar mais de um dia e depender da ajuda de um motociclista para conseguir gasolina. Anos depois, a construção de uma estrada planejada para automóveis representava um passo importante na modernização dos transportes.