Cartas de Pokémon TCG
Micaela Wentz/ iG
Cartas de Pokémon TCG

Com o crescimento do mercado de Pokémon Trading Card Game , conhecido como TCG ou como Pokémon Estampas Ilustradas, no Brasil nos últimos anos, os chamados “scalpers”, espécie de cambistas que compram estoques inteiros de lojas, também vêm aumentando.

O problema da compra e superfaturamento de itens relacionados às cartas já era conhecido por colecionadores inseridos no hobby, mas, o assunto vêm ganhando mais atenção nas redes sociais após o lançamento da coleção comemorativa de 30 anos de Pokémon TCG. Através de vídeos, colecionadores dos Estados Unidos e do Brasil mostram lojas, que deveriam vender os produtos, com as prateleiras vazias.

Enquanto as lojas se encontram com os produtos esgotados, anúncios em sites se tornam cada vez mais comuns, com preços muito mais altos do que os sugeridos pelas companhias.

De acordo com Ananda Quintas, proprietária da loja especializada em TCG, USA Trendies, em Santo André, no ABC Paulista: “Esse comportamento [dos scalpers] desestabiliza o hobby e prejudica a todos: lojas, vendedores, colecionadores e jogadores. Alguém até pode pensar que não faz sentido porque a loja vendeu tudo e isso é ótimo... Só que é preciso pensar além, porque é essencial que as pessoas consigam curtir o hobby, tenham vontade de voltar, continuem jogando e colecionando. Se algo que era para ser divertido passa a ser frustrante, essa pessoa desanima e para com o hobby.”

Com a compra excessiva dos scalpers e altos valores impostos pelos mesmos nos produtos de TCG, os colecionadores e jogadores não estão com dificuldade apenas de encontrar as mercadorias, mas também em conseguir pagar.

Quem quer abrir pacotes, completar uma coleção ou montar um baralho passa a disputar com os scalpers e sente que precisa correr para comprar, porque, se deixar pra depois, talvez não encontre mais ou o preço já esteja fora do orçamento. Um momento que deveria ser divertido acaba virando uma preocupação. Ananda Quintas, proprietária da loja de TCG USA Trendies


Como forma de tentar lucrar com os produtos, lojas especializadas também aumentam seus preços de acordo com a demanda.

Para Cast, colecionador e influenciador digital de Pokémon TCG, o aumento do valor não é justificável em nenhum dos casos e atrapalha o hobby de quem realmente quer colecionar. Quando o assunto é o valor definido pelas lojas, o influenciador defende que a fonte da distribuição brasileira, que são as empresas Copag e Asmodee, tem um valor definido para lojistas e que o preço sugerido, que é divulgado ao público antes do lançamento de uma coleção, já deveria garantir lucro suficiente para as lojas:

Vamos dar um exemplo de uma Caixa de Treinador Avançado: a empresa que compra diretamente da Copag ou da Asmodee, paga cerca de 250 reais e tem o preço sugerido dela vendida a 400 reais. O que vem acontecendo hoje é com essa nova gama de pessoas que está entrando no mercado para serem lojistas, que não tem relacionamento suficiente ainda [com as marcas], que são novos e não detém essa possibilidade de compra com a fonte, eles compram o produto por 400, que deveria ser o preço para o cliente final, para revender acima e ter a margem de lucro conforme eles esperam Cast, colecionador e influenciador digital de Pokemon TCG


O influenciador, então, conclui: “Isso não justifica o valor aumentado das lojas. O que um novo empresário deve fazer nesse caso seria diversificar a sua gama de produto, criar relacionamento no decorrer do tempo e não ficar focado somente em coleções que tem mais hype, que saem menos.”

Scalpers e a coleção de 30 anos

Após o sucesso da coleção comemorativa de  30 anos de Pokémon TCG, os cambistas não se manifestaram somente acerca da quantidade de produtos que foram produzidos, mas, também expressaram descontentamento com o “pull rate” da coleção, espécie de taxa que mede quantas cartas raras saem em uma determinada quantidade de pacotes.

Através das redes, internautas dos Estados Unidos compartilharam comentários supostamente feitos por scalpers através de grupos na plataforma Discord, nos prints, é possível ver o descontentamento dos cambistas com a quantidade de produto que foi lançada, assim como a quantidade de cartas raras que os colecionadores estão tirando, com frases como:

Estou seriamente considerando tomar medidas legais contra a Pokémon. É revoltante que eles não tenham divulgado os números exatos de impressão, as taxas de pull rates e o tamanho real da oferta. Eles fizeram uma divulgação exagerada do conjunto, tornando nós, distribuidores secundários, vítimas do marketing deles. [...] Ninguém apoiou mais a Pokémon no passado do que nós, ajudando a distribuir o produto pelo valor justo de mercado, em vez do preço de varejo sugerido pelo fabricante, que estava abaixo do preço de mercado. Usário não identificado nas redes sociais



Este e outros comentários se espalharam através da comunidade de colecionadores nas redes sociais, e geraram respostas como: “Isso me deixa feliz, espero que isso não seja uma mensagem de brincadeira. Parabéns à Pokémon por imprimir essa coleção em grandes quantidades. Mal posso esperar para completar o master set dela”, dita por um espectador no TikTok após um vídeo que compartilhava o comentário do scalper.

A mudança da mentalidade dos colecionadores

Com a atuação dos scalpers não é só o valor do produto que se altera, mas também o valor individual de cada carta.

Quando uma única pessoa simplesmente vai e pega o estoque completo ou pega uma quantidade muito grande de produtos para não abri-los e única e exclusivamente especular em cima disso, o colecionador sofre com isso e não somente o colecionador, como o mercado secundário como um todo, porque a tendência são os preços tanto dos produtos quanto os das cartas avulsas aumentarem. Cast, colecionador e influenciador digital de Pokemon TCG


O valor de uma carta avulsa pode variar muito de acordo com fatores como: tiragem limitada, alta procura, a raridade, arte e artista, popularidade do Pokémon, jogabilidade da carta, entre outros fatores. Por mais que existam justificativas para os valores, quando o produto é interceptado e não chega ao colecionador, a dificuldade de encontrar uma carta específica aumenta e, consequentemente, seu valor também.

Com os preços aumentados, novos colecionadores aparecem interessados não apenas em ter as cartas ou jogar com elas, mas em lucrar com cada pacote. Para Ananda, que não é somente proprietária da USA Trendies mas também é certificada como Professora Pokémon e atua em eventos oficiais da franquia, a mentalidade do lucro incomoda bastante.

Ela afirma que a ideia de abrir um pacote e apressar até o final procurando por uma carta que pode valer muito dinheiro não é o que define hobby, e passa a ideia de que a compra “valeu a pena” somente se a carta gerar retorno: “Tudo começa a ser medido em lucro e prejuízo, como se as cartas de papel colorido fossem ações de mercado ou algum tipo de criptomoeda, no caso, "cartamoeda".


Tanto para a lojista, quanto para o influenciador Cast, o ato de colecionar é muito maior que o lucro, ele insere o colecionador em uma comunidade que permite a experiência real do hobby.

A gente quer que se construa uma comunidade saudável, a gente quer que cada vez mais as pessoas curtam, as pessoas se divirtam, as pessoas façam amigos Cast, colecionador e influenciador digital de Pokemon TCG




Existe toda uma experiência ali: a arte, a nostalgia, o jogo, as amizades. Quando o preço ocupa todo esse espaço e tira a leveza e a diversão, o hobby perde muito. Ananda Quintas, proprietária da loja de TCG USA Trendies

O crescimento, a divulgação e a falsa promessa de lucro

Segundo um levantamento divulgado pela OLX em 2025, o mercado de cartas colecionáveis teve uma grande alta. Nos dados publicados, as vendas do TCG cresceram cerca de 130% nos primeiros meses do ano passado quando comparado ao mesmo período de 2024.

No relatório, quatro TCGs tem destaque, são eles: Pokémon, Yu-Gi-Oh!, Digimon e Magic; a franquia Pokémon ficou no topo da lista, contando com 92% das vendas. A participação do TCG não se limita às vendas, mas as cartas da franquia também foram as mais procuradas e mais anunciadas na plataforma.

Grande parte desse crescimento foi influenciado por celebridades nas redes sociais como, por exemplo, o coach, influenciador digital e empresário Thiago Nigro, conhecido como Primo Rico.

Em diversos vídeos, o empresário divulga cartas de Pokémon e ensina seus seguidores a investir a partir das mesmas, muitas vezes mostrando como uma carta pode ser valorizada quando enviada para uma avaliação internacional que define sua qualidade; caso a carta apresente uma “qualidade 10”, o valor mais do que dobra na maior parte dos casos.

Conjunto de cartas valorizadas no mercado
Micaela Wentz/ iG
Conjunto de cartas valorizadas no mercado


Em uma de suas publicações, Thiago inclusive mostra uma compra de R$ 15 mil, com diversas caixas lacradas de pacotes de cartas e as abre juntamente com uma equipe, buscando por cartas valiosas.

O influenciador não é o único a demonstrar abertamente interesse pelo mercado, jogadores de futebol como Memphis Depay, jogador do time paulistano Corinthians, Lamine Yamal, da seleção espanhola e até mesmo  Neymar Jr já declararam apreço ao hobby.

Mas as diversas publicações mostrando a constante tiragem de cartas valiosas com preços elevados não é fiel à maioria dos casos: “É preciso ter cautela com as ilusões e manipulações de mercado porque estamos falando de cartas de papel colorido que não possuem lastro e são destinadas a jogar ou colecionar.”, afirma a lojista Ananda Quintas

É importante diferenciar o preço anunciado e o preço que a venda realmente acontece, porque um anúncio elevado não significa necessariamente que aquele é o valor da carta, ou o valor que as pessoas estão realmente dispostas a pagar e nem que o preço será mantido. Ananda Quintas, proprietária da loja de TCG USA Trendies


Para Ananda, a visibilidade continua sendo positiva, uma vez que traz novas pessoas para o colecionismo, mas “quando o destaque é sempre uma carta vendida por uma fortuna”, o hobby ganha um significado que engana o comprador: “quem não conhece esse universo pode achar que é só comprar alguns produtos e esperar o dinheiro aparecer. Ninguém está vendo quanto foi gasto, quanto tempo levou para vender ou quantas outras compras não deram o mesmo resultado”. A lojista conclui afirmando que “quem sustenta esse mercado é gente que quer continuar jogando, colecionando e fazendo parte dele porque realmente gosta do hobby.”, não somente quem lucra a partir dele.

Como colecionador e conhecedor do movimento econômico gerado pelas cartas, Cast também frisa a importância de entender os diferentes lançamentos e a valorização que eles realmente geram. Para o influenciador, a base do hobby, que é o colecionador, está se afastando cada vez mais por conta dos altos valores:

Os produtos estão ficando tão caros, mas tão caros, que é só investidor comprando de investidor ou especulador comprando de especulador. Quando isso acontece, a tendência é que a base saia e simplesmente, os preços fiquem mais baratos, justamente por não ter nenhuma demanda de compra. Cast, colecionador e influenciador digital de Pokemon TCG


Caio Tobias, jornalista e colecionador de Pokémon TCG, concorda que há complicações em manter o hobby: “Hoje em dia sinto muita dificuldade em achar alguma loja especializada com bons valores. Quando encontro produtos de alguma coleção que quero, os preços acabam sendo muito altos. Espero que o problema com os Scalpers seja resolvido logo para os preços voltarem ao normal.”

Cast conclui afirmando que acredita que uma grande queda nos valores atinja o hobby no próximo ano justamente por esse desinteresse dos reais colecionadores causado pelos altos valores impostos pelos scalpers e especulados pela mídia.

Como fugir dos scalpers

Colecionadores e jogadores muitas vezes se encontram sem saída em uma tentativa de colecionar sem gastar demais. Por mais que as condições atuais não sejam favoráveis a todos os lojistas, a fundadora da loja USA Trendies defende que as lojas podem, e devem agir a favor dos colecionadores sempre que possível.

Dentre as medidas sugeridas por Ananda, está a limitação de unidades vendidas para cada cliente nos dias que seguem os lançamentos das coleções mais disputadas; outras sugestões envolvem o acompanhamento de pedidos incomuns e a determinação clara dos critérios de cada uma das vendas, em uma tentativa de localizar quem são esses possíveis scalpers e limitar o acesso deles aos produtos, permitindo que todos que frequentam a loja tenham a oportunidade de comprar.

São medidas que ajudam a distribuir o estoque entre mais pessoas, mas exigem muito trabalho e podem significar abrir mão de uma venda grande e imediata para preservar o relacionamento com a comunidade e o equilíbrio do hobby no longo prazo. Ananda Quintas, proprietária da loja de TCG USA Trendies


Cast também recomenda que um relacionamento seja criado entre o cliente e o lojista, afirmando que a melhor maneira de fugir do superfaturamento é “conhecer diversas lojas que estão na sua região e frequentá-las”. O influenciador também afirma que não é 100% das vezes que as lojas vendem no preço sugerido, mas, conhecer lojas próximas e “fomentar a comunidade local”, auxiliam o cliente a fugir das grandes lojas de brinquedos ou de anúncios em sites na internet.

Você como consumidor tem o total direito e dever de conhecer os produtos que você está comprando e você pode filtrar. Se você vê alguma coisa que está sendo superfaturada, você tem que falar ‘Não, não vou gastar o meu dinheiro com isso’Cast, colecionador e influenciador digital de Pokemon TCG


Segundo Ananda, ao mesmo tempo que as lojas locais tentam incentivar a venda no preço sugerido pelas companhia, os estabelecimentos que operam corretamente sofrem com uma margem extremamente baixa de vendas: “Cuidar do acesso ao hobby, manter um relacionamento equilibrado com a comunidade, lidar com a grande rotatividade das coleções, a instabilidade e a fortíssima imprevisibilidade do mercado não são compatíveis com a sustentabilidade do negócio.”

Produtos para colecionadores na loja USA Trendies
Divulgação
Produtos para colecionadores na loja USA Trendies


“Essa responsabilidade deveria ser compartilhada com fabricantes, distribuidores e os demais participantes do mercado, não dá pra esperar que poucas lojas resolvam sozinhas um problema que envolve produção, distribuição e comportamento de compra.”, diz a lojista quando questionada sobre como combater os scalpers.

A loja precisa incentivar o hobby de maneira saudável fora dos grandes lançamentos. Organizar torneios, ensinar a jogar, criar oportunidades de troca entre os colecionadores, mostrar que existem cartas e formas de colecionar para diferentes bolsos… tudo isso faz diferença porque quem coleciona um Pokémon favorito e compra cartas baratinhas deve se sentir tão bem-vindo quanto quem procura uma carta de milhares de reais. Quanto mais gente participa e se diverte com o hobby, mais saudável e equilibrado fica o mercado para os jogadores, colecionadores e lojas. Ananda Quintas, proprietária da loja de TCG USA Trendies



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