
Ainda hoje é possível encontrar comentários sobre as boas memórias e conhecimentos deixados por Giovanni Gallo na Ilha de Marajó, no Pará . Padre italiano jesuíta, Gallo esteve na região em 1970, quando trabalhou em projetos comunitários para financiar obras de infraestrutura. Dentre eles, a venda de piranhas “empalhadas”.
O centro da atuação de Gallo foi a Vila de Jenipapo, localizada às margens do rio Arari. As piranhas eram recolhidas mortas de redes dos pescadores e então preparadas para serem comercializadas para o exterior.
À época, o sacerdote assumiu a paróquia de Santa Cruz do Arari (PA), onde estruturou a atividade artesanal baseado nos recursos locais . Com isso, desenvolveu um laboratório onde ensinou mulheres de Jenipapo a embalsamar as piranhas.
O projeto fez parte de uma iniciativa mais ampla: o Museu do Marajó . Nascido em 1972, a proposta era desenvolver a região por meio da cultura. Para isso, a população local participava da formação do acervo, doando cacos e peças arqueológicas marajoaras de diferentes pontos do arquipélago.
O dinheiro dos 12 mil exemplares foi usado em pagamentos aos moradores e em obras públicas da comunidade. Gallo usou a rede de contatos que deixou para trás na Itália para exportar e vender o artesanato.

Segundo registros do próprio Museu do Marajó, datados entre 2007 a 2009, por Paulo De Carvalho, diretor-executivo, pelo menos 350 metros de pontes de madeira, um cemitério e uma pista de pouso de 800 metros foram viabilizados com a atividade das piranhas.
Cultura, economia e preservação
Os trabalhos estruturados por Gallo geraram autonomia financeira e consciência histórica de habitantes locais em relação ao patrimônio que o arquipélago da Ilha de Marajó (PA) possui.
Isso porque enquanto incentivava a atividade, Gallo convidou os moradores a construírem o acervo do próprio museu que estava inaugurando.
Com isso, o padre buscava fazer com que a comunidade participasse da construção da memória, unindo dois objetivos que pareciam muito distantes: atividade econômica e preservação cultural.
Museu na “ponta dos dedos”
Além do legado no desenvolvimento socioeconômico da região, o padre tinha outra preocupação central: a cultura.
O Museu do Marajó nasceu da ideia de "O Nosso Museu", em Santa Cruz do Arari (PA). Em 1987, foi transferido para Cachoeira do Arari (PA), com uma proposta diferente do usual.
Ao invés de somente exibir peças, a ideia do religioso era que os visitantes participassem, descobrissem, interagissem. Um exemplo disso são os “computadores de marca caipira”, objetos de madeira com diferentes formas que escondiam perguntas.
As engenhocas eram feitas a partir dos saberes locais e da interação com a comunidade marajoara, preservando uma ideia de conhecimento vivo e compartilhado entre a população.
Gallo nomeou a ideia de “museu na ponta dos dedos”, por que não separava os visitantes e a exposição com vitrines, mas incentivava a descobrirem por conta própria as informações apresentadas.
O padre teria tido a ideia observando o modo de viver local, em que os moradores tinham a tendência de “ver com as mãos”, experimentando e tocando.