MP que proíbe bets deve ser votada pelo Congresso em até 120 dias

Medida anunciada por Lula começa a valer após publicação, mas deputados e senadores terão que analisar texto para que proibição se torne permanente

O Congresso Nacional é uma obra do arquiteto Oscar Niemeyer e é sede do Poder Legislativo do Brasil.
Foto: Roque de Sá/Agência Senado
O Congresso Nacional é uma obra do arquiteto Oscar Niemeyer e é sede do Poder Legislativo do Brasil.

A medida provisória (MP) que determina o fim das bets no Brasil , anunciada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nesta sexta-feira (25), começa a produzir efeitos após sua publicação, mas não tem validade permanente. Para continuar em vigor, o texto precisará ser analisado pelo Congresso Nacional . 

O prazo para a análise pode chegar a 120 dias, considerando os 60 dias iniciais de validade de uma medida provisória e a possibilidade de uma prorrogação por mais 60 dias.

A decisão ocorre nove dias antes do primeiro turno das eleições de 2026 . Com o Congresso esvaziado pela campanha eleitoral, a expectativa é que a discussão sobre a medida ganhe força somente depois da votação.

Como será a votação da MP das bets

Para que a proibição das plataformas de apostas se torne definitiva, a medida provisória terá de passar por uma comissão mista formada por deputados e senadores. Depois dessa etapa, o texto ainda precisará ser votado pelos plenários da Câmara dos Deputados e do Senado .

Até o momento, não foram definidos pela cúpula do Congresso o calendário de tramitação nem os parlamentares que deverão ocupar a presidência e a relatoria da comissão mista.

O presidente do Senado e do Congresso, Davi Alcolumbre (União-AP), e o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), ainda não reuniram os líderes partidários para estabelecer os próximos passos.

A expectativa é que um acordo seja construído após o primeiro turno, quando os parlamentares estarão menos envolvidos nas campanhas eleitorais.

Quanto tempo uma medida provisória pode durar?

Uma MP passa a ter força de lei imediatamente após sua publicação e tem validade inicial de 60 dias. Se não for votada nesse período, pode ser prorrogada uma vez por mais 60 dias.

Na prática, o prazo máximo pode chegar a 120 dias.

A contagem pode ser interrompida durante o recesso parlamentar. No fim do ano, o Congresso costuma entrar em recesso, mas a suspensão das atividades depende também da votação da proposta orçamentária.

Se o Orçamento for aprovado e o Congresso entrar oficialmente em recesso, a votação da MP poderá ficar para fevereiro de 2027 . Caso o recesso não aconteça, o prazo para análise será anterior, em janeiro.

O que muda para quem tem dinheiro em bets?

A medida anunciada pelo governo prevê o bloqueio das plataformas de apostas no país, mas estabelece um período para que os usuários possam retirar os valores disponíveis.

Com a publicação da MP, novos depósitos nas contas das empresas de apostas não serão permitidos.

Os sites permanecerão acessíveis para os apostadores realizarem o resgate dos valores remanescentes até 23h59 de 5 de outubro .

A partir de 6 de outubro, as plataformas deverão ser bloqueadas.

Quem não retirar voluntariamente o dinheiro dentro do prazo terá os valores devolvidos pelas instituições financeiras que operam para as casas de apostas. O cronograma informado prevê a devolução entre 9 e 14 de outubro.

A medida também proíbe a contratação de novas campanhas publicitárias relacionadas às bets.

Governo quer criminalizar operadores

Além da MP que determina o encerramento das bets, Lula anunciou que o governo encaminhará ao Congresso um projeto de lei para criminalizar as bets e seus operadores.

A proposta prevê penas de dois a seis anos de prisão para determinadas condutas relacionadas à atividade.

Diferentemente da medida provisória, o projeto de lei não passa a valer imediatamente. Para entrar em vigor, precisará ser analisado e aprovado pelo Congresso e, posteriormente, seguir para sanção presidencial.

Fim das bets muda regra criada em 2023

A decisão anunciada pelo governo representa uma mudança em relação à política adotada há menos de três anos.

Em dezembro de 2023, o governo federal sancionou a chamada Lei das Bets, que estabeleceu regras para regulamentar o mercado de apostas de quota fixa no país.

Desde então, o setor passou a operar sob regras específicas de fiscalização, tributação e publicidade.

Agora, o governo pretende interromper a atividade das plataformas. A justificativa apresentada para a mudança está relacionada, entre outros fatores, ao endividamento das famílias brasileiras provocado pelas apostas.

Entretanto, a proibição ainda depende do Congresso para se tornar permanente. Por isso, o futuro das bets deverá ser um dos temas a serem discutidos pelos parlamentares após as eleições de 2026.


O que acontece agora?

Até a definição do Congresso, a medida provisória terá de seguir o rito previsto para esse tipo de proposta.

O primeiro passo será a instalação da comissão mista, que analisará o texto e poderá apresentar um relatório. Depois, a MP seguirá para os plenários da Câmara e do Senado.

Se for aprovada dentro do prazo, a proibição poderá ser transformada em regra permanente. Se não houver votação dentro do período de validade, a medida perderá eficácia, salvo se houver uma solução legislativa prevista para o caso.

Com o calendário eleitoral interferindo nas atividades do Congresso, a discussão sobre a MP das bets deve ficar concentrada no período posterior ao primeiro turno e poderá avançar nos meses seguintes, inclusive já em 2027.