
Depois de manter forasteiros à distância por quase 500 anos, o povo indigena Guna, do Panamá , avalia agora uma nova possibilidade que pode transformar radicalmente sua relação com o restante do país. A proposta consiste em abrir caminho, dentro de suas próprias terras, para uma nova rodovia e um sistema de transmissão de energia de grande porte.
A informação foi revelada pelo jornalista Benjamin Howe em reportagem publicada na revista New York Times, na qual ele detalha as negociações em curso entre lideranças Guna e o governo panamenho em torno de um empreendimento batizado de Interconexión .
Um arquipélago sob nova pressão
O arquipélago de Gunayala, conjunto de mais de 300 ilhas espalhadas pelo litoral caribenho do Panamá, é a mais conhecida das três regiões autônomas que abrigam o povo Guna, ao lado de Guna Madugandí e Guna de Wargandí . Nos últimos 19 anos, essa faixa de território tem despertado crescente interesse de investidores, políticos e empresas de energia.
A proposta atual retoma uma ideia sugerida em 2007, quando uma comissão binacional Panamá-Colômbia procurou os Guna para instalar cabos de transmissão de alta tensão sob a água, na tentativa de interligar as redes elétricas dos dois países. Embora os fios em si fiquem submersos, a obra depende da abertura de uma estrada através da densa e úmida floresta tropical, além da construção de dezenas de pontes para viabilizar o tráfego de máquinas pesadas.
De acordo com reportagem do jornal panamenho El Siglo publicada em fevereiro, a Interconexión ligaria Gunayala à Cidade do Panamá pela Rodovia Pan-Americana e tem potencial para beneficiar mais de 20 mil moradores da região; no limite, o projeto conectaria sistemas elétricos de países tão distantes quanto Guatemala e Equador.
Reações positivas ao projeto
De acordo com Howe, que tem vínculo pessoal com os Guna, já que sua família conviveu com a comunidade como antropólogos, o que mais o surpreendeu foi o nível de apoio popular ao projeto . Em determinado momento, moradores entusiasmados começaram, por conta própria, a abrir um caminho na mata com golpes de facão, sem esperar autorização formal ou apoio técnico do governo.
Urbano González, diretor de uma escola local, contou a Howe que crianças de aldeias isoladas como Mordí precisavam caminhar dias inteiros pela selva só para chegar à cidade de Mulatupu, onde ficava a escola mais próxima. Adultos faziam o mesmo trajeto para trocar iguana e queixada defumados por sacos de arroz e açúcar.
Foi justamente a saga dos moradores de Mordí que, em 2013, inspirou voluntários Guna a começarem a abrir manualmente estradas rudimentares entre aldeias remotas e centros maiores.
A história do povo
A relação dos Guna com o Estado panamenho é marcada por uma breve guerra de independência em 1925, deflagrada quando o governo tentou suprimir tradições ancestrais da comunidade. Desde então, ainda que reconheçam nominalmente a soberania panamenha, os Guna administram sua própria província, hasteiam bandeira própria e respondem a uma estrutura de liderança única, conhecida como “os seis Sagladummagan”, caciques distribuídos entre o Congresso Geral de Gunayala e o Congresso Geral de Cultura, responsáveis tanto pela transmissão de tradições ancestrais quanto pelas decisões políticas do território.
Essa autonomia permitiu à comunidade barrar intrusos por gerações, inclusive com uso de força em certas ocasiões, segundo a revista Times; no entanto, o território nunca ficou completamente fechado e pesquisadores, turistas e outros visitantes sempre foram aceitos.
A economia local sempre combinou pesca, agricultura, artesanato e turismo.
A pandemia de covid-19, porém, agravou o isolamento logístico da região. Com a suspensão de voos, viagens por barco se tornaram a única alternativa viável, num percurso marcado por acidentes frequentes e socorro de emergência quase inexistente.
Diante desse cenário, lideranças Guna passaram a pressionar abertamente por investimento em infraestrutura, solicitando ao governo panamenho recursos para pavimentar uma rodovia de duas faixas atravessando a selva, orçada em cerca de 100 milhões de dólares. Segundo relatos a revista Times, autoridades tentaram condicionar esse apoio ao avanço simultâneo das negociações da Interconexión.
Um porta-voz do Ministério de Energia do Panamá confirmou ao jornal que o orçamento nacional de 2027 já prevê recursos para a rodovia, justificando o projeto como uma forma de reparar o que chamou de "dívida histórica" com comunidades historicamente excluídas do desenvolvimento.
Nem todos concordam
O apoio, no entanto, está longe de ser unânime. Moradores de aldeias como Mordí relataram temer que o ruído das obras afugente animais locais e perturbe espaços considerados sagrados pela crença Guna, que atribui a criação da Terra às entidades míticas Babdummad e Nandummad, o Grande Pai e a Grande Mãe, e concebe os seres humanos como iguais a todas as outras formas de vida do planeta.
Essa visão de mundo ajudou a preservar, ao longo de séculos, uma das paisagens mais intocadas do planeta. É justamente esse equilíbrio que preocupa ambientalistas como Indra Candanedo, à frente do grupo de conservação Alianza por Matusagaratí . Ela alertou o Times que o projeto pode acelerar o fim simbólico do chamado “Tapón del Darién”, uma densa e pantanosa lacuna florestal que ainda separa fisicamente a América do Norte da América do Sul, entre Panamá e Colômbia.
Para Candanedo, a ameaça não viria de uma decisão formal de "abrir" essa fronteira natural, mas de um processo gradual e já em curso, impulsionado por madeireiros e especuladores que avançam sobre a floresta do leste panamenho. "Simplesmente acontecerá, porque ninguém impediu", disse ela, admitindo incerteza sobre se ainda há como reverter esse avanço.
Segundo o Times, a liderança local de Wargandí, reserva Guna que também abriga Mordí, votou no mês passado para que uma fase oficial de consulta seja iniciada. Gunayala deve seguir caminho semelhante em outubro.
Como resume Howe em seu texto, tudo indica que as negociações avançarão, na medida em que boa parte do povo Guna se mostra disposta a aceitar o desenvolvimento.