Mistério de 137 anos tem fim: grupo reencontra tumba de 600 a.C

Arqueólogo francês identificou monumento funerário em 1889, mas não conseguiu encontrar; local pertenceu à próspera civilização anterior à Roma

Dentro das câmaras foram encontrados itens pertencentes a pessoas da elite da sociedade etrusca de VII a.C
Foto: Divulgação/Retour à Vulci
Dentro das câmaras foram encontrados itens pertencentes a pessoas da elite da sociedade etrusca de VII a.C

Uma descoberta arqueológica respondeu a uma pergunta deixada há 137 anos por Stéphane Gsell . O arqueólogo francês identificou, em 1889, um grande monumento funerário em uma cidade etrusca, mas após 3 anos de escavações malsucedidas, desistiu de encontrar o que estipulou ser uma das maiores tumbas da história da Itália .

Agora, pesquisadores e arqueólogos do projeto Retour à Vulci divulgaram, no dia 21 de setembro, que finalmente reencontraram a tumba desaparecida.

Segundo as informações, o “Grande Túmulo de Gsell” é ainda maior do que os 92 metros estimados anteriormente, contendo três câmaras e uma série de objetos da elite da sociedade etrusca .

Ou seja, há 137 anos se sabia do perímetro onde estaria o possivelmente maior achado necrófago da Itália (Necrópole de Polledrara), mas ninguém havia conseguido encontrar a tumba contendo os objetos e corpos enterrados.

A hipótese, contudo, ainda será investigada com cálculos sobre as dimensões e comparações com outros monumentos funerários, como o de Cuccumella.

As escavações foram realizadas a partir do dia 15 de julho em Vulci, na Itália, para encontrar a Tumba da Câmara de Pedra. O projeto foi iniciado em 2023 e é liderado pelos cientistas Laura Maria Michetti, Christian Mazet e Alessandro Conti.

O objetivo do grupo é redocumentar contextos que já foram escavados e cruzar diferentes informações, a fim de obter uma perspectiva muito mais ampla do disperso patrimônio de Vulci e da sociedade da época, anterior à Roma .


Um “banquete” arqueológico

Conforme as informações do projeto Retour à Vulci, o sepultamento ocorreu no final do século VII a.C, há cerca de 2.600 anos . Dentro da tumba principal, os  arqueólogos encontraram itens pertencentes a pessoas da elite da sociedade de Vulci, que vivia seu momento mais próspero.

Foram encontradas três câmaras, que reúnem armas, objetos de ouro e bronze, cerâmicas nas posições originais que foram deixadas, peças de osso, de marfim e objetos utilizados em banquetes de alto padrão.

Um dos maiores destaques foi um tripé de bronze que carregava uma rara produção policromada de cerâmica, algo muito complexo para a época. O conjunto contém vasos para tomar vinho, taças e mais recipientes.

À título de comparação, peças semelhantes foram encontradas na Tumba de Ísis , outro sepultamento importante de Vulci, que apesar de estar na Itália tem relação com templos dedicados à deusa egípcia.

De acordo com os pesquisadores, o achado finalmente fechou o ciclo deixado por Gsell, e é um “daqueles casos de arqueologia” que, ao encontrar o que procurava, descobre muito mais ainda a ser buscado.

O grupo espera que os novos achados ajudem a compreender mais sobre uma das grandes civilizações da história da humanidade, parte de uma cidade próspera e desenvolvida à época, mas que continua com contextos em anonimato.

O objetivo final de todos nós é poder contar um novo capítulo da história de uma grande cidade do mundo antigo                   
Laura Maria Michetti, diretora científica do projeto Retour à Vulci.


Dimensão da civilização etrusca

A tumba pertenceu à civilização etrusca, uma das principais da Itália antes da expansão de Roma . A cidade de Vulci era uma das mais importantes da Etrúria, cuja população existiu séculos antes do domínio romano.

Cidades etruscas mantiveram relações comerciais com povos distantes de diferentes partes do Mediterrâneo e acumulavam esses objetos. Quando Roma surgiu, a relação foi próxima, com contatos e conflitos que deixaram marcas na cultura e sociedade posterior.

O conjunto funerário carrega informações sobre uma cidade anterior à Roma, de cerca de 500 a 600 anos antes de Cristo, mas que participou do contexto cultural e político da hegemônica sociedade italiana.

Com isso, o grupo Retour à Vulci espera que o trabalho possa ajudar a reconstruir parte da Etrúria com detalhes que permaneceram desconhecidos ao longo dos 137 anos após Gsell.