Esquema com remédios de câncer movimentou mais de R$ 70 milhões

Investigações apontam falsificação, superfaturamento e compras direcionadas; casos atingem ao menos quatro estados e envolvem recursos públicos

Remédios
Foto: Arquivo/Prefeitura
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Empresas ligadas a um esquema investigado em Mato Grosso do Sul por suspeita de superfaturar medicamentos destinados a pacientes com câncer faturaram mais de R$ 70 milhões entre 2021 e 2025, segundo dados da Receita Federal apresentados em reportagem do Fantástico neste domingo (20). Dois funcionários da Secretaria Estadual de Saúde foram afastados.

A investigação encontrou receitas falsas e medicamentos importados sem registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Segundo a Defensoria Pública de Mato Grosso do Sul, produtos adquiridos não correspondiam ao que havia sido determinado pela Justiça.

O caso faz parte de uma série de apurações policiais sobre crimes envolvendo tratamentos oncológicos. Só neste ano, investigadores identificaram suspeitas de adulteração em pelo menos quatro estados: Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Ceará e Mato Grosso do Sul. As investigações não tratam todos os episódios como parte de um único grupo.

No Rio Grande do Sul, outra apuração identificou 39 possíveis vítimas de uma organização suspeita de fraudar a compra de medicamentos de alto custo. Sete morreram durante o período em que faziam tratamento, mas a polícia ainda apura se alguma das mortes tem relação com os crimes investigados. Ao menos duas dessas pessoas morreram antes de receber o produto obtido judicialmente.

Lote suspeito levantou alerta no Rio Grande do Sul

A Operação Placebo começou após profissionais da Santa Casa de Caridade de São Gabriel, no Rio Grande do Sul, desconfiarem de um lote destinado a pacientes da unidade.

As embalagens apresentavam erros de grafia, diferenças de coloração e textura e até caixa e bula em idiomas distintos. O laboratório responsável pelo medicamento analisou uma amostra e informou à polícia que não reconhecia o produto como legítimo. A distribuição do lote foi suspensa.

Em junho, a Polícia Civil cumpriu 57 mandados de busca e apreensão no Rio Grande do Sul e em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Goiás. A investigação mira 15 pessoas e 14 empresas.

O empresário Lisandro Henriques Hermes, apontado pela polícia como principal articulador do núcleo empresarial, foi preso durante a operação. Na casa dele, agentes encontraram caixas de medicamentos com indícios de adulteração.

Lisandro nega participação no esquema. Segundo a investigação, ele teria ligação direta ou indireta com empresas que apresentavam orçamentos para fornecer os produtos pagos com dinheiro público.

Médico e advogados são investigados

O oncologista Fernando Borges da Silva também entrou na investigação. De acordo com a polícia, ele teria indicado a pacientes medicamentos de alto custo que não eram fornecidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e encaminhado essas pessoas a advogados para obter os produtos pela Justiça.

Os investigadores sustentam que praticamente todas as farmácias que apresentavam os orçamentos tinham alguma ligação com Lisandro. Assim, segundo a polícia, o grupo conseguia direcionar as compras feitas com recursos públicos.

A defesa de Fernando nega que ele tenha cometido qualquer conduta ilícita e afirma que o médico está à disposição da Justiça. A Santa Casa informou que o afastou depois de tomar conhecimento da investigação e ressaltou que o hospital não é alvo da Operação Placebo.

Fernando e três advogados investigados estão proibidos de exercer suas profissões enquanto as apurações avançam. A polícia ainda aguarda o resultado da perícia nos medicamentos apreendidos.

Família ficou dois meses sem tratamento adequado

Uma das pacientes citadas pela reportagem é Maria Jupira, que tratava um câncer de pulmão. Como o medicamento indicado não estava disponível pelo SUS, a família procurou a Justiça para que o Estado custeasse a compra.

O lote que seria utilizado por Maria estava entre aqueles que levantaram suspeitas na Santa Casa.

Segundo as filhas, a apreensão fez com que ela ficasse cerca de dois meses sem o tratamento previsto. Maria recebeu outras medicações depois desse período, mas morreu aos 57 anos.

A família não sabe se ela chegou a receber anteriormente algum produto sob suspeita. Também não há conclusão de que a morte tenha relação com os medicamentos investigados.

Outro episódio ocorreu em Cascavel, no Paraná. Uma farmácia representada pelo grupo investigado venceu a disputa para fornecer medicamentos a Yasmin, de 12 anos, que tratava um neuroblastoma.

Segundo a investigação, cerca de R$ 2,5 milhões repassados pelo governo estadual teriam sido desviados, e apenas parte da medicação foi entregue. Yasmin morreu em fevereiro. A reportagem não estabelece relação entre a morte e a falta dos produtos.

Lisandro e um sócio foram condenados pela Justiça do Paraná por estelionato nesse caso. O empresário afirma ser inocente.

Remédio de R$ 1,2 mil aparecia por até R$ 100 mil

Em Mato Grosso do Sul, a investigação começou após a Defensoria Pública identificar irregularidades em compras autorizadas judicialmente.

Segundo a defensora pública Eni Maria Sezerino Diniz, medicamentos provenientes de países como Índia, China, Paquistão e Turquia chegavam aos pacientes sem registro na Anvisa e não correspondiam necessariamente ao produto determinado pela Justiça.

A apuração também encontrou receitas falsas usadas para importar os produtos.

Dois funcionários da Secretaria Estadual de Saúde são investigados por supostamente encaminhar pedidos de compra para farmácias envolvidas no esquema. Os estabelecimentos e os servidores lucrariam com o superfaturamento, segundo a investigação.

Em um dos casos citados pela Defensoria, um tratamento de três meses aparecia no processo por cerca de R$ 100 mil, enquanto o medicamento custava entre R$ 1,2 mil e R$ 1,6 mil.

As empresas investigadas nessa frente faturaram mais de R$ 70 milhões entre 2021 e 2025, de acordo com a Receita Federal. Os dois funcionários foram afastados, e a Polícia Civil continua investigando o caso.

O mercado clandestino de produtos de alto custo já aparece em outras investigações. Uma delas apura a chamada  lavagem de medicamentos usados contra câncer, doenças autoimunes e em pacientes transplantados, em que produtos roubados ou desviados recebem documentação destinada a fazê-los retornar ao mercado como mercadoria regular.

Em julho, outra operação prendeu suspeitos de integrar uma quadrilha envolvida no  roubo e na redistribuição de medicamentos oncológicos em quatro estados. Segundo a Polícia Civil do Rio de Janeiro, o grupo movimentou mais de R$ 33 milhões em um ano.