
Uma câmera colocada dentro da tubulação de esgoto para procurar rachaduras encontrou algo bem diferente de um defeito na rede. A equipe de obras públicas de Oviedo, cidade da Flórida, nos Estados Unidos, registrou um jacaré-americano de aproximadamente 1,5 metro enquanto verificava o sistema subterrâneo da rua Lockwood Boulevard.

A inspeção tinha sido motivada por uma série de buracos que surgiram na pista, já que os funcionários queriam verificar se algum tubo estava quebrado ou apresentava vazamento. Para evitar a entrada de uma pessoa, a Prefeitura de Oviedo enviou um robô de quatro rodas equipado com câmera. Durante os primeiros metros, nada incomum apareceu. Mais adiante, porém, a iluminação do aparelho encontrou dois reflexos.
A equipe pensou que fossem os olhos de um sapo, mas conforme a câmera chegou mais perto, surgiu a cabeça do jacaré. O animal ficou assustado e recuou dentro do tubo sem tirar os olhos do robô. Em determinado momento, inclusive, o jacaré-americano abriu a boca e permaneceu parado, adotando uma postura defensiva. Posteriormente, o réptil virou e seguiu pelo corredor subterrâneo.
Os funcionários continuaram acompanhando a movimentação do animal, mas o equipamento ficou preso em uma depressão na tubulação. A administração do município acredita que o réptil entrou por uma das lagoas pluviais conectadas à rede, que recebem a água das chuvas e fazem parte do sistema utilizado para evitar alagamentos.
Não foi um caso único: câmeras encontraram outros jacarés
A presença dos alligators em redes subterrâneas já foi quantificada por pesquisadores da Universidade da Flórida. Em um estudo publicado na revista científica digital Urban Naturalist, algumas dezenas de câmeras foram instaladas em 39 locais do condado de Alachua. Durante o período de coleta, entre fevereiro e maio de 2023, foram obtidas quase 3,8 mil detecções de animais, distribuídas entre 35 espécies diferentes.
No total, os pesquisadores contabilizaram 50 registros de jacarés-americanos. Mais de dois terços, cerca de 35 ocorrências, mostravam os répteis nadando de uma lagoa para outra utilizando as tubulações. A passagem subterrânea evita que tenham de cruzar rodovias e avenidas, oferecendo maior segurança. Para além da movimentação territorial, as gravações também mostraram comportamentos de caça.
Alguns jacarés-americanos foram vistos esperando próximos às saídas dos tubos e, em um caso, um deles consumiu um peixe em um trecho raso e fechado do corredor subterrâneo. O doutorando em Recursos Florestais e Conservação pela Universidade da Flórida, Alan Ivory, cogitou que os animais estivessem fazendo uso estratégico da estrutura durante a predação.
Dessa forma, a velha lenda de jacarés habitando o esgoto, que virou traço cultural da cidade de Nova York, ganha tons de realidade. O fenômeno que a inspirou já virou consenso científico, visto que os alligators da Flórida comprovadamente usam redes subterrâneas reais para atravessar áreas urbanas e buscar alimento.