Criminosos vendem acesso a sistemas públicos por até R$ 1 mil

Credenciais de servidores e autoridades são negociadas na internet para alterar processos, apagar multas e retirar mandados de prisão

Criminosos vendem acesso a sistemas públicos por até R$ 1 mil
Foto: Reprodução/Fantástico
Criminosos vendem acesso a sistemas públicos por até R$ 1 mil

Um mercado clandestino na internet vende logins e senhas capazes de abrir portas para sistemas públicos e dados protegidos. Entre os serviços oferecidos estão a alteração de processos judiciais, a exclusão de multas de trânsito e até a retirada de mandados de prisão. Os acessos chegam a custar R$ 1 mil.

A existência desse mercado foi revelada pelo Fantástico, programa da TV Globo, que acompanhou durante um mês grupos e fóruns usados por criminosos para negociar credenciais roubadas.

Os vendedores oferecem dados de servidores e autoridades que, por causa dos cargos, possuem acesso a plataformas protegidas. Também comercializam os chamados “painéis”, que reúnem informações obtidas ilegalmente.

Entre os dados anunciados estão registros do Imposto de Renda, informações de saúde, vacinas, funcionários e veículos.

Um acesso à Secretaria de Segurança do Paraná era oferecido por pouco mais de R$ 100. Em outra negociação, um criminoso cobrava R$ 110 por informações de um veículo, incluindo nome, chassi, motor, fotos e dados do condutor.

Na Justiça, um login do Tribunal de Justiça de Santa Catarina era anunciado por R$ 500. Outro serviço prometia alterar informações de processos e retirar um mandado de prisão por R$ 1 mil.

Nos Detrans, os criminosos ofereciam apagar multas ou até registrar uma infração no nome de outra pessoa. Em uma conversa acompanhada pela reportagem, um vendedor afirmou que retiraria uma multa cobrando metade do valor.

Senhas realmente funcionavam

A equipe do Fantástico levou as credenciais encontradas ao Ministério Público do Rio Grande do Sul, que já investigava a atuação desses grupos.

Com autorização e protocolos de segurança, investigadores testaram os acessos para verificar se eram verdadeiros e quais informações poderiam ser alcançadas.

“Percebemos que é funcional. O que eles prometem, eles conseguem fazer” , afirmou Fábio Costa Pereira, procurador de Justiça do Rio Grande do Sul.

Segundo o promotor Leonardo dos Santos Rossi, a venda de credenciais já havia aparecido em denúncias e investigações anteriores.

“Essas vendas de senhas, vendas de credenciais, elas realmente funcionam, são verdadeiras” , disse.

Mandados de prisão chegaram a ser alterados

Em Goiás, o problema alcançou diretamente o sistema judicial .

A Divisão de Inteligência do Tribunal de Justiça investiga o roubo de logins e senhas usados para acessar a plataforma. Em uma das investigações, cerca de 140 adulterações foram identificadas no Banco Nacional de Mandados de Prisão.

As alterações incluíam informações incorretas que poderiam fazer com que uma pessoa inocente fosse presa.

Ao todo, o Tribunal de Justiça de Goiás identificou 350 acessos fraudulentos. Um casal foi preso por envolvimento nas invasões e responde ao processo em liberdade.

“Credenciais de acesso subtraídas de servidores ou dos próprios magistrados têm sido utilizadas para poder fraudar, inserir, alterar ou excluir, inclusive ordens de prisão dos bancos nacionais” , afirmou Sabrina Leles, delegada da Polícia Civil de Goiás.

Mercado também vende dados pessoais

O acesso aos sistemas públicos é apenas uma parte desse mercado.

Em Belém, uma investigação da Polícia Civil encontrou grupos que comercializavam logins, senhas e dados pessoais. Os investigadores também identificaram atividades criminosas relacionadas a esses grupos.

A Polícia Civil do Pará trabalha com pesquisadores da Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA), que monitoram a circulação de dados vazados.

Somente em 2026, o projeto identificou 18 bilhões de dados expostos.

Segundo o pesquisador Alan Douglas Bento da Costa, os bancos de dados reúnem informações como e-mails, CPFs, logins e senhas.

“É uma volumetria muito fora do padrão” , afirmou.

Ataque chegou à Defesa Civil

Um dos episódios mais preocupantes investigados envolve o sistema nacional de alertas da Defesa Civil.

Na madrugada de 20 de junho, milhões de celulares receberam uma mensagem que trazia a palavra “misantropia” , termo usado para designar aversão ou ódio à humanidade.

A mensagem não havia sido enviada por uma autoridade autorizada. O sistema foi invadido, e o alerta acabou disparado para diversas regiões do país.

A Secretaria da Justiça do Paraná confirmou oficialmente que a plataforma de envio do Defesa Civil Alerta sofreu uma invasão e que a mensagem foi disparada remotamente por alguém de fora do Sistema Nacional de Proteção e Defesa Civil.

A investigação identificou que foram utilizadas credenciais de dois bombeiros do Pará.

Quem está por trás das invasões

Parte dessas comunidades está ligada ao chamado “The Com”, nome usado para descrever uma rede de grupos criminosos digitais espalhados por diferentes países.

O FBI acompanha a atuação dessas comunidades e aponta que muitos de seus integrantes são jovens.

Os dados roubados também podem ser usados para extorsão. Um dos crimes identificados é a sextorsão, quando criminosos ameaçam divulgar imagens íntimas ou outras informações pessoais para pressionar as vítimas.

Investigadores brasileiros também encontraram grupos que compartilham dados e os utilizam para localizar e perseguir pessoas fora da internet.

Como os criminosos conseguem as senhas

Para os investigadores, um dos principais pontos de vulnerabilidade continua sendo o comportamento dos próprios usuários.

Senhas reutilizadas, links maliciosos, mensagens falsas e descuidos com credenciais podem permitir que criminosos obtenham acesso a contas que possuem privilégios dentro de sistemas públicos.

Depois que uma credencial é roubada, ela pode ser revendida diversas vezes. Quanto maior o nível de acesso associado ao usuário, maior pode ser o valor cobrado.

O Conselho Nacional de Justiça e tribunais informaram que adotam medidas como autenticação multifator, controle de acessos, gestão de credenciais e treinamento de funcionários para reduzir esse tipo de risco.

O Ministério da Saúde e a Receita Federal afirmaram que não identificaram evidências de invasão ou comprometimento de seus sistemas.