Estrada Velha Rio-São Paulo: conheça alternativa à Dutra

Construída há quase 100 anos, a rodovia foi a primeira ligação rodoviária entre as duas maiores cidades do país, e segue tendo movimento de veículos

Estrada Velha Rio - SP, no trecho de Taubaté (SP): conheça alternativa em à Dutra
Foto: Pedro Boaventura/iG
Estrada Velha Rio - SP, no trecho de Taubaté (SP): conheça alternativa em à Dutra

Antes do surgimento da Rodovia Presidente Dutra (BR-116), a ligação entre os estados do Rio de Janeiro e São Paulo era feita por outra rodovia. Criada em 1928, durante a época do governo de Washington Luiz, a via recebeu o nome do então presidente da República.

Com o passar dos anos e a construção da Dutra, passou a ser chamada de Estrada Velha Rio-São Paulo. Ou, para os moradores das inúmeras cidades que a rodovia corta, simplesmente Estrada Velha. Ela foi pensada para ligar os estados mais populosos do país. Na época, a capital federal era o Rio de Janeiro e São Paulo vivia um período de crescimento.

A Estrada Velha corre paralela à Dutra, com a maioria dos trechos em mão unica. Para quem viaja no sentido Rio - São Paulo, a rodovia quase centenária fica do lado direito na maior parte do percurso (veja imagem abaixo).  

Antes dela, eram necessários cerca de seis dias para ir de uma capital até a outra. Atualmente, a viagem de carro dura em torno de 6 horas, em condições normais.

Fábricas de carros forçaram o país a ter mais rodovias

Nas primeiras décadas do século passado, a população estava em expansão, principalmente no lado paulista. Entre 1900 e 1920, o número de habitantes na cidade de São Paulo saltou de 239  mil para 579 mil (mais de 140% de crescimento).

Naquele período, o Brasil viu serem instaladas as primeiras fábricas de carros no país, quando a Ford e a General Motors abriram unidades na capital paulista.

Até então, o estado tinha cerca de 5 mil veículos, e alcançaria mais de 40 mil em  menos de 20 anos. E as vias existentes não comportariam essa mudanca. 

Estrada Velha Rio-São Paulo; conheça alternativa à Dutra
Foto: Reprodução
Estrada Velha Rio-São Paulo; conheça alternativa à Dutra


Com isso, apesar do então predomínio do transporte por trem, a demanda por estradas para receber carros precisava ser atendida. Sem contar que as viagens de ônibus também cresciam. 

Foi nesse cenário que o governo brasileiro estabeleceu as primerias diretrizes para um projeto rodoviário federal, com o chamado Plano Catrambi, estabelecendo que o Brasil teria, inicialmente, 17 estradas federais e 12 estaduais.

Entre as medidas para aumentar e melhor o sistema de rodovias, ficou definida a ligação Rio - São Paulo e a pavimentação da Rio - Petrópolis.

Rota comercial

Batizada de SP-62, a Estrada Velha liga o distrito de Eugênio de Mello, em São José dos Campos, até Cachoeira Paulista, já próximo à divisa com o estado fluminense, numa distância superior a 100 quilômetros. 

Apesar de serem, na teoria, a mesma ligação, na prática, a Via Dutra e a Estrada Velha possuem características distintas.

A rodovia que vai completar um século em 2028 foi criada também para fortalecer a relação comercial entre as cidades da região. 

Em conversa com o iG, o historiador Moacir José dos Santos, da Universidade de Taubaté (UNITAU), explicou que essa ligação estimulada pelo uso da via representava a modernidade da época, além do impacto simbólico de aproximação.

Havia a ideia de que a construção de estradas, o uso de carros, principalmente automóveis, seria um símbolo de modernidade, de modernização do país. Inclusive, essa foi a visão do presidente Washington Luiz, que estimulava a construção de estradas no país. Então, de fato, ela (SP-62) teve um impacto não apenas de ligação. Ela trouxe uma outra via e aumentou as trocas comerciais. Não só em São Paulo e no Rio de Janeiro, mas nas demais cidades. Assim, ela tem esse efeito simbólico da ideia de aproximação dos dois principais centros do país a partir de um símbolo que naquele momento representava modernidade.
Prof. Dr. Moacir José dos Santos, da Universidade de Taubaté (UNITAU)

Esse processo de formação, ainda de acordo com o especialista, é diferente da proposta de surgimento da Dutra

São efeitos distintos, então a gente pode dizer que a estrada velha tem um efeito maior em termos de ligações comerciais, enquanto a Dutra, além de cumprir essa função, foi um dos fatores que desenvolveu a indústria junto com políticas públicas específicas no pós-segunda guerra mundial."
Prof. Dr. Moacir José dos Santos, da Universidade de Taubaté (UNITAU)

Estrada Velha garante acesso direto a quase todas as cidades

Inaugurada mais de 20 anos depois, depois modernizada e tendo as faixas ampliadas, a Via Dutra não contempla todas as cidades por onde passa a Estrada Velha.

É o que acontece com Silveiras, São José do Barreiro, Areias, Bananal no Vale Histórico, que não são acessadas diretamente pela Dutra, mas, sim, pela  Rodovia dos Tropeiros (SP-68), também chamada de Estrada Velha .

Por causa da Dutra, esse trecho perdeu bastante movimento e, consequentemente, importância econômica.

Para essas cidades, ela tem um papel, sim, de ligação importante para esses municípios, mas no conjunto ela perdeu representatividade, ou seja, ela continua em uso, especialmente nesses municípios que não são cortados pela Via Dutra, mas em comparação ao passado, ela perdeu representatividade."
Prof. Dr. Moacir José dos Santos, da Universidade de Taubaté (UNITAU)





A vida de quem mora ao lado da Estrada Velha 

Diferentemente da ''vizinha'' Dutra, onde ter uma casa colada com a pista não é possível, na velha rodovia isso é bastante comum. É o caso do senhor Antônio Augusto da Silva, de Cachoeira Paulista, há mais de 70 anos. 

Em entrevista ao iG, o aposentado contou que o pai recebeu a casa do patrão para cercar a fazenda em que eles viviam, por causa da construção da rodovia. 

Foi combinado que meu pai ficaria tomando conta da área e fazendo o conserto de cercas para que os animais da fazenda não saíssem na rodovia. E nessa época ela foi construída e logo foi estabilizada a construção da rodovia, paralela à ferrovia, para fazer o transporte do café."
Antonio Auguto da Silva, morador

Mesmo com a redução do movimento, deslocado para a Dutra, Luiz Cláudio, outro morador de Cachoeira Paulista, diz que ainda não se acostumou com o movimento do lugar para onde se mudou há pouco mais de 10 anos.

Dá para levar a vida, né? 12 anos já viu, é bastante tempo. Não me acostumei muito só com os barulhos dos carros, mas aqui eu me sinto bem."
Luiz Claudio Suriano, morador


Foto: Pedro Boaventura/iG
Estrada Velha Rio-São Paulo; conheça alternativa à Dutra

Diferentes nomes

No Vale do Paraíba, a Estrada Velha Rio-São Paulo tem diversos nomes, e em cada cidade é chamada de forma diferente.

Ao todo, são oito formas de identificar a SP-62, que se junta à Rodovia dos Tropeiros (SP-68)  para seguir até o estado do Rio de Janeiro. Veja:

  • Rodovia Prefeito Edmir Viana Moura:

Tem início no distrito de Eugênio de Melo, em São José dos Campos, e vai até o limite com Caçapava.

  • Rodovia Vito Ardito Lerário:

Cruza a cidade de Caçapava e segue até a entrada de Taubaté, no entroncamento com a Rodovia Oswaldo Cruz (SP-123).

  • Rodovia Prefeito Emílio Amadei Beringhs:

Vai do entroncamento com Oswaldo Cruz até o início da área urbana de Taubaté.

  • Rodovia Amador Bueno da Veiga:

Conecta o município de Taubaté à cidade de Pindamonhangaba.

  • Rodovia Vereador Abel Fabrício Dias:

Tem início em Pindamonhangaba, passando pelo distrito de Moreira César, e segue até o município de Roseira.

  • Rodovia Professora Marieta Vilela da Costa Braga :

Liga Roseira à cidade de Aparecida.

  • Rodovia Padroeira do Brasil:

Conecta Aparecida até o trecho de Guaratinguetá.

  • Rodovia Prefeito Aristeu Vieira Vilela:

Conecta Guaratinguetá até o trecho de Lorena.

  • Deputado Oswaldo Ortiz Monteiro:

Tem início em Lorena, passando por Canas, e segue até o município de Cachoeira Paulista.

  • Rodovia dos Tropeiros (SP-68): 

A Rodovia dos Tropeiros, diferentemente da SP-062, possui apenas um nome oficial para toda a sua extensão. O trecho é a continuação da Estrada Velha Rio-São Paulo na região do Vale Histórico. Ela tem cerca de 130 quilômetros de extensão e começa em Silveiras, seguindo até a divisa com o estado do Rio de Janeiro, em Bananal.