
O avanço de um Super El Niño pode provocar mudanças importantes no clima nos próximos meses , com possibilidade de eventos extremos em diferentes regiões do Brasil . O fenômeno está associado a alterações nos padrões de chuva e temperatura, podendo favorecer períodos de calor intenso, chuvas volumosas e também estiagens.
Mas os efeitos não ficam restritos ao clima . As mudanças ambientais também podem interferir no comportamento de animais, na presença de insetos e roedores e na relação entre a fauna e as áreas ocupadas por seres humanos.
Esse cenário pode aumentar as oportunidades de transmissão de doenças conhecidas como zoonoses, que são aquelas capazes de passar entre animais e pessoas.
Chuva pode favorecer mosquitos e outros vetores
Em períodos de chuva intensa, o aumento da água disponível no ambiente pode criar condições favoráveis para a reprodução de mosquitos. Com mais criadouros, a população desses insetos pode crescer e aumentar a possibilidade de contato com pessoas.
O cenário também pode favorecer outros organismos envolvidos na transmissão de doenças. Ambientes úmidos podem contribuir para a presença e a atividade de carrapatos e caramujos, por exemplo.
No caso dos mosquitos, a preocupação inclui enfermidades como dengue, chikungunya e malária, dependendo da região e da presença dos vetores responsáveis pela transmissão.
Por isso, a combinação entre calor, umidade e água acumulada merece atenção, principalmente em áreas urbanas onde recipientes, terrenos e locais com drenagem inadequada podem se transformar em pontos de reprodução.
Períodos de seca também exigem cuidado
Embora as chuvas costumem chamar mais atenção quando o assunto é a proliferação de vetores, a estiagem prolongada também pode alterar o comportamento dos animais.
Com menos água e alimento disponíveis em ambientes naturais, algumas espécies passam a procurar recursos em locais próximos às casas, propriedades rurais e áreas urbanizadas.
Os roedores estão entre os animais que podem se aproximar de áreas ocupadas por pessoas durante períodos de escassez. Essa aproximação aumenta o risco de contato com fezes e urina contaminadas e pode favorecer a transmissão de doenças como a hantavirose.
O problema pode ser maior em locais onde alimentos são armazenados de maneira inadequada ou onde há materiais acumulados que servem de abrigo para esses animais.
A seca também não significa necessariamente o desaparecimento dos mosquitos. Em algumas situações, a água armazenada artificialmente pode se tornar uma alternativa para a reprodução dos insetos.
Fauna pode se aproximar das cidades
As mudanças no clima interferem na disponibilidade de água, comida e abrigo, recursos essenciais para a sobrevivência dos animais.
Quando esses elementos ficam escassos em áreas naturais, algumas espécies podem buscar alternativas em ambientes urbanos e rurais. É nesse momento que a distância entre seres humanos e animais silvestres pode diminuir.
A aproximação pode acontecer de diferentes formas: animais em busca de comida, espécies utilizando estruturas urbanas como abrigo ou até o contato indireto com fezes, urina e restos de alimentos.
Esse cenário aumenta as oportunidades de circulação de vírus, bactérias, fungos e outros microrganismos entre animais, ambiente e seres humanos.
Animais domésticos também podem participar desse ciclo
Cães e gatos também podem ter papel nessa relação, principalmente quando circulam livremente por áreas onde há presença de animais silvestres.
Eles podem entrar em contato com espécies infectadas, carcaças, secreções ou ambientes contaminados e, posteriormente, levar esses agentes para mais perto das pessoas.
Por isso, a saúde humana, animal e ambiental não pode ser analisada de forma completamente separada. Mudanças em um desses elementos podem provocar consequências nos demais.
Clima não "cria" doenças sozinho
É importante destacar que o El Niño não provoca diretamente uma doença nem torna automaticamente vírus e bactérias mais perigosos.
O que muda é o ambiente onde esses microrganismos, animais e vetores vivem.
Temperatura, umidade, disponibilidade de água, quantidade de alimento e condições de abrigo podem alterar a distribuição e o comportamento de diferentes espécies. Com isso, também podem mudar as oportunidades de contato entre animais, vetores, agentes infecciosos e seres humanos.
Em situações de enchentes, por exemplo, a água pode carregar resíduos e contaminantes para áreas ocupadas pela população. O contato com água contaminada é um dos fatores associados ao aumento do risco de leptospirose.
Desmatamento aumenta a pressão sobre a fauna
O clima também não deve ser analisado isoladamente. As transformações provocadas pela ocupação humana podem intensificar os efeitos das alterações ambientais.
O desmatamento e a perda de áreas naturais reduzem os espaços disponíveis para os animais e podem obrigar algumas espécies a buscar alimento e abrigo em áreas rurais ou urbanas.
Com menos distância entre a fauna e as pessoas, aumentam as possibilidades de encontros e de contato com agentes infecciosos.
Esse processo também pode afetar os próprios animais, que ficam expostos a ambientes diferentes daqueles em que normalmente vivem.
Um conjunto de fatores merece atenção
O Super El Niño, por si só, não significa que haverá necessariamente uma onda de doenças. O risco depende de uma combinação de fatores ambientais, ecológicos e sociais.
Chuvas intensas podem favorecer criadouros de mosquitos e aumentar o risco de contato com água contaminada. Já períodos prolongados de seca podem levar roedores e outros animais a procurar recursos próximos das pessoas.
Temperaturas mais altas também podem influenciar o desenvolvimento e a atividade de determinados vetores.
Ao mesmo tempo, alterações no ambiente, como desmatamento e expansão das áreas urbanas, podem aproximar animais silvestres das cidades.
Por isso, o acompanhamento das condições climáticas e ambientais é importante para antecipar possíveis mudanças na circulação de doenças.
Cuidados ajudam a reduzir riscos
Mesmo diante de um fenômeno climático de grande escala, algumas medidas simples podem diminuir as chances de contato com vetores e animais potencialmente contaminados.
Entre os principais cuidados estão:
- evitar água parada em recipientes e objetos expostos;
- manter caixas-d'água e outros reservatórios devidamente tampados;
- armazenar alimentos em locais fechados;
- evitar o acúmulo de entulho e materiais que possam servir de abrigo para roedores;
- não entrar em contato com animais silvestres encontrados mortos ou doentes;
- manter animais domésticos sob supervisão, principalmente em áreas próximas a matas;
- evitar contato com água de enchentes e locais possivelmente contaminados.
O cenário reforça que os impactos de um fenômeno climático não aparecem apenas na temperatura ou no volume de chuva. Quando as condições ambientais mudam, o comportamento dos animais também pode mudar, e isso pode alterar a forma como pessoas e fauna se relacionam.