Vídeo mostra o sequestro de cinco mulheres israelenses em 7 de outubro
Reprodução / x @Israel
Vídeo mostra o sequestro de cinco mulheres israelenses em 7 de outubro

Há relatórios que informam. Há relatórios que chocam. E há relatórios que atravessam a alma humana e deixam uma marca impossível de apagar.

O relatório “Silenciadas Não Mais”, produzido pela Comissão Civil sobre os Crimes de 7 de Outubro, é um dos documentos mais devastadores já elaborados sobre violência sexual em contextos de guerra e terrorismo. Depois de dois anos de investigação, mais de 430 testemunhos, 1.800 horas de análise de imagens e mais de 10 mil fotos e vídeos examinados, a conclusão é incontestável sobre a violência sexual cometida pelos terroristas do Hamas em 7 de outubro. Não foram casos isolados não foi consequência descontrolada do conflito. Foi, sim, minuciosamente planejado, sistemático e utilizado como instrumento de terror.

As evidências reunidas descrevem estupros coletivos, mutilações, tortura sexual, execuções após abuso, nudez forçada, profanação de corpos e violência cometida diante de familiares. Mulheres foram sequestradas ao lado de seus filhos. Homens e meninos também sofreram agressões sexuais. Em muitos casos, o objetivo parecia ultrapassar a destruição física da vítima. Tratava-se de aniquilar sua dignidade, romper vínculos humanos e transformar o sofrimento em arma psicológica coletiva.

O relatório introduz ainda um conceito particularmente perturbador que é o “kinocídio”, definido como a destruição deliberada da unidade familiar como método de terror. Famílias foram obrigadas a testemunhar a violência umas contra as outras, numa tentativa fria e calculista de deixar marcas permanentes não apenas nos sobreviventes, mas em toda a sociedade israelense.

Há algo especialmente brutal na natureza desses crimes. Muitos deles foram filmados pelos próprios terroristas e divulgados nas redes sociais das vítimas e de suas famílias. O terror deixou de ser apenas físico e passou a ser também digital, psicológico e público. A violência foi transformada em espetáculo. A humilhação passou a fazer parte da estratégia.

Ao longo da história, o estupro foi utilizado como arma de guerra em diversos conflitos. O mundo viu isso na Bósnia, em Ruanda, no Congo e nos crimes cometidos pelo ISIS. Não se trata de um fenômeno novo. O que deveria ser inconcebível é a incapacidade de a sociedade reconhecer imediatamente sua gravidade moral quando ela volta a acontecer. E esse silêncio não é irrelevante

E talvez seja exatamente aí que o relatório revele uma ferida ainda mais profunda. Durante meses, parte significativa da comunidade internacional, reagiu com desconfiança, silêncio ou desconforto diante das evidências apresentadas. Organizações feministas que historicamente lideram o combate à violência sexual ficaram em silêncio. Agências da ONU demoraram a se posicionar com firmeza contra a violência sexual. Em vez de uma indignação imediata, houve relativização. Em vez de solidariedade inequívoca, houve cautela política. O sofrimento das vítimas passou a ser usado por disputas ideológicas.

Quando crimes dessa magnitude deixam de provocar condenação instantânea, algo profundamente perigoso está acontecendo com a consciência coletiva. A violência sexual deixa de ser percebida como um limite absoluto da condição humana e passa a depender de contexto, narrativa e conveniência política.

Como mulher, como mãe, como judia e como ser humano, ler esse relatório provoca uma sensação profunda de violação. Uma dor que atravessa a alma. Não apenas pelo horror descrito em suas páginas, mas pela percepção de que até mesmo diante de crimes dessa natureza o mundo ainda é capaz de hesitar.

Porque no momento em que o estupro deixa de provocar repulsa imediata e universal, algo essencial na civilização começa a ruir. O que está em jogo não é apenas a memória das vítimas de 7 de outubro, mas a capacidade do mundo de ainda reconhecer limites morais inegociáveis. Uma sociedade que relativiza a violência sexual por conveniência ideológica não trai apenas essas mulheres. Trai a si mesma.


* Elisa Nigri Griner é dealizadora e coordenadora do grupo de Liderança e Networking de mulheres

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do iG

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