Relatório parcial de voo 447 abre questionamentos sobre acidente com avião da Air France

Veja questões que não foram esclarecidas como as decisões da tripulação e a situação dos passageiros no momento do acidente

iG São Paulo |

O Escritório de Investigações e Análises (BEA), órgão francês responsável pelas investigações do acidente com o Airbus da Air France, divulgou na sexta-feira (27) um relatório preliminar do voo que partiu do Rio de Janeiro com destino a Paris e caiu no Oceano Atlântico, matando todas as 228 pessoas a bordo. Neste estudo parcial, foram detalhados o ambiente e os registros técnicos da aeronave durante o voo.

O relatório conclusivo sobre o caso será divulgado no final de julho deste ano. Até lá, devido à ausência de explicações sobre as causas do acidente, ainda há muitas perguntas sem respostas do ponto de vista técnico e da situação dos passageiros durante o voo. 

1. Por qual razão a tripulação decidiu manter a rota original rumo à tempestade?

Os registros do voo mostraram que a tripulação do Airbus A330-203 decidiu seguir rumo a uma tempestade tropical no meio do Oceano Atlântico, quando outros voos de outras companhias aéreas, que possuíam a mesma rota, optaram pelo desvio.

De acordo com o presidente da Associação Brasileira de Pilotos e Proprietários de Aeronaves (Appa), George Sucupira, a escolha dos pilotos de manter a rota foi confusa. “O avião realmente entrou numa formação pesada. Eles tomaram a decisão equivocada de seguir na rota e enfrentar o mau tempo”, explica. “Não entendo o que teria motivado a tripulação e seguir por lá. Outros voos, como o da Ibéria, decidiram desviar 20 graus para a direita para sair da turbulência”. Os pilotos da Air France realizaram um desvio para sair da turbulência, porém, a curva foi para a esquerda – manobra que complicou mais ainda a situação da aeronave.

A tempestade no local da queda era formada pela forte presença de nuvens do tipo cúmulos-nimbos, que são enormes nuvens de tempestade, com a forma de montanhas de até 23 km de altitude. Enfrentar esse tipo de tempestade significaria voar contra ventos de mais de 92 km/h em diferentes direções.

Sem explicação para a decisão dos pilotos, existe a hipótese de que eles decidiram manter a rota já que não tinham conseguido entrar em contato com a estação de controle mais próxima, que fica no espaço aéreo do Senegal, na África. Há também a suspeita que as sondas de velocidade (pitots) foram danificadas pelos cristais de gelo presentes na tempestade. O Airbus é equipado com três sondas que, ao serem danificadas, enviaram informações erradas aos pilotos.

2. Por que os pilotos não conseguiram controlar a aeronave no momento da turbulência?

 Um dos grandes questionamentos é por que houve um forte descontrole da aeronave sendo que "os motores estavam em pleno funcionamento e sempre responderam aos comandos da tripulação", explica o relatório do BEA.

O relatório documenta que, às 2h10min51s, o copiloto colocou os manches de controle de impulso na posição TO/GA (posição de aceleração máxima) alcançando altitude de 38 mil pés. No momento, os motores estavam a 100% (também em potência máxima). Às 2h12min02s, quando o comandante de bordo disse não ter mais “nenhuma indicação válida”, os manches de impulsão se encontravam em posição neutra, sem ação, e os motores registravam 55% de potência (medida padrão).

As últimas ações dos pilotos , com mudanças severas nas manobras, revelariam que a ausência de registros de velocidade bloqueou e impediu a percepção sobre a necessidade de aumentar ou reduzir a velocidade da aeronave para alcançar a sustentação.

 “Os pilotos ficaram presos nos parâmetros divergentes, isso foi um erro grave. Não entendo por que eles ignoraram o satélite presente na aeronave”, explica o ex-piloto Sucupira garantindo que, ao consultar o computador presente no avião, o piloto poderia entender o cenário que o Airbus se encontrava.

3. Por que o piloto automático foi desligado?

Com o suposto congelamento das sondas de velocidade e com o envio de informações erradas à cabine, o piloto automático teria desligado até o fim do voo. Segundo as avaliações preliminares do BEA, os problemas com o avião ocorreram depois que o piloto automático parou de funcionar a 4 minutos e 23 segundos antes do impacto da aeronave com a água. O avião se encontrava a uma altitude muito elevada (38 mil pés) quando os problemas ocorreram. Segundo especialistas, é muito difícil pilotar um avião manualmente em tais condições.

4. É oficial que houve um problema com a leitura das velocidades. Até que ponto isso poderia interferir e tornar inválidos os computadores do Airbus?

O relatório afirma que houve uma “inconsistência dos medidores de velocidade” entre a medição do lado esquerdo e a do lado direito. Essa discrepância durou pouco menos de um minuto. Fica a questão de quão grave foi esse intervalo de informações a ponto de confundir os pilotos a tomarem decisões equivocadas.

 Porém, vale ressaltar que o problema pode ter levado a uma má interpretação da situação do Airbus – levando a tripulação à “desorientação espacial”, quando a pessoa perde a noção para qual direção está indo. Com isso, passageiros e tripulação podiam sentir que o Airbus estava subindo, quando na verdade estava em queda. Sem o instrumento de resgate (ISIS), os pilotos se encontravam às cegas sem informações básicas, como altitude e velocidade.

5. Por que o copiloto decidiu colocar o nariz do Airbus para cima e não para baixo – manobra considerada padrão por especialistas – ao tentar recuperar a sustentação da aeronave?

A outra questão é o que teria levado o copiloto no comando decidir, durante forte turbulência, que o mais correto era colocar o nariz da aeronave para cima - quando a manobra padrão para essa situação seria fazer o contrário para ganhar velocidade e consequentemente uma sustentação da aeronave.

A possível resposta para esse feito seria que a tripulação não tenha sido suficientemente treinada para operar com tal pane. George Sucupira afirma que é cedo para avaliar possíveis erros dos pilotos. Segundo ele, por ser um caso isolado e sem histórico algum, os pilotos não possuíam treinamento específico. “Os próprios simuladores de Airbus responderam que qualquer avião cairia naquelas condições de desorientação espacial. Eles não poderiam fazer algo que não constava no treinamento deles”, conclui.

O ex-piloto afirma ainda que a equipe optou por levantar o nariz da aeronave porque recebeu informações erradas sobre a velocidade e altitude do Airbus. “Diante do problema da velocidade, os pilotos reagiram. Não teria como eles reagirem de maneira diferente”, explica.

Além da ausência de experiência, também há a hipótese da tripulação ter tentado subir o mais alto possível para passar por cima da tempestade e limpar as sondas externas de velocidade (pitot) que possivelmente estavam congeladas e não ofereciam apoio técnico aos pilotos.

6. Como os passageiros estavam durante o momento crítico do voo? Eles estavam conscientes do que estava acontecendo?

 A falta de informações sobre a situação dos passageiros durante o voo também intriga e leva a diferentes hipóteses sobre o possível sofrimento e desespero das vítimas. Segundo o relatório, a queda da aeronave durou 3 minutos e meio e ela se chocou no mar a uma velocidade 200 km/h.

 A principal angústia de familiares das vítimas do voo é como foram os últimos minutos dos 228 a bordo . Especialistas divergem sobre o cenário das vítimas. Para alguns, sair dos 200 km/h para zero é fatal e as vítimas morreram imediatamente sem consciência de que estavam caindo. Outros acreditam que as pessoas estavam conscientes durante os quase quatro minutos, até a aeronave se chocar contra a água, já que não houve despressurização e a aeronave caiu de forma nivelada.

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