Queda do voo 447 durou três minutos e meio, dizem investigadores franceses

Escritório de Investigações e Análises divulgou relatório preliminar sobre caixas-pretas e diálogo da tripulação

iG São Paulo |

O Escritório de Investigações e Análises (BEA), órgão responsável pelas investigações do acidente com o Airbus da Air France, divulgou nesta sexta-feira (27) um relatório preliminar do voo que partiu do Rio de Janeiro com destino a Paris e caiu no Oceano Atlântico, matando todas as 228 pessoas a bordo. Leia o diálogo dos pilotos e o histórico do voo.

Segundo o BEA, cerca de dois minutos após o início dos problemas - os incidentes na cabine ocorreram entre 2h10 (23h10 do dia anterior em Brasília) e 2h14 (23h14) - o avião Airbus A330-203, que estava a uma altitude de 35 mil pés (cerca de 11 mil metros), começou a cair a uma velocidade vertical de 10 mil pés (3 mil metros) por minuto. A aeronave também começou a oscilar, subindo e descendo devido às rajadas de vento.

Com o piloto automático desligado, os pilotos, por três minutos e meio, tentaram, por meio de manobras no manche, reverter a queda. À BBC Brasil, Jean-Paul Troadec, diretor do Escritório de Investigações e Análises, revelou que um dos piltos disse "Não estou entendendo mais nada", durante a perda de controle do Airbus. A frase não consta do relatório parcial divulgado pela BEA nesta sexta-feira.

O Airbus chegou a subir a 38 mil pés (11,5 mil metros), até que o alarme de perda da altitude disparou e o avião começou a cair novamente. Ainda segundo o relatório parcial, a queda da aeronave durou cerca de três minutos e trinta segundos - durante a descida, o airbus permaneceu em situação de perda de altitude, girando da esquerda para a direita. Neste momento, o avião estava posicionado a 35 graus (inclinação de queda).

Os últimos valores registrados pelas caixas-pretas são velocidade vertical de -10.912 pés/min, velocidade de solo de 107 nós (estava a 197,95 quilômetros por hora quando bateu no mar), altitude de 16,2 graus de elevação do nariz (bico da aeronave inclinado para cima), rolagem (curva) de 5,3 graus à esquerda e um rumo magnético de 270 graus (direção da aeronave apontava para oeste. Pela rota original, Paris fica a leste).  

AP
Uma das duas caixas-pretas do Airbus da Air France (foto divulgada no dia 03/05)
Outro ponto apresentado pelo estudo é que houve informações diferentes sobre as velocidades indicadas no painel do controle - a velocidade indicada no lado esquerdo e a indicada no instrumento de resgate (ISIS), no lado direito, oscilaram em "pouco menos de um minuto".

Em entrevista à BBC Brasil, Jean-Paul Troadec, diretor do Escritório de Investigações e Análises (BEA), diz que as investigações vão se concentrar agora nas diferentes ações dos pilotos diante do problema da perda das indicações de velocidade do avião, causada pelo congelamento dos sensores, os chamados tubos Pitot.

O BEA afirma acreditar que os sensores de velocidade, que ficam na parte externa do avião, tenham ficado entupidos por cristais de gelo formados em alta altitude. "Vamos investigar qual foi o treinamento individual dos pilotos e quais procedimentos de emergência relativos a problemas nos sensores de velocidades foram aplicados. Sabemos que as falhas nos sensores de velocidade são o primeiro elemento de uma série de eventos que conduziram ao acidente. Se não tivesse ocorrido esse problema, não estaríamos na situação atual", afirma Troadec.

Os investigadores vão tentar descobrir por que a tripulação da Air France não conseguiu recuperar o controle do avião. "Em incidentes similares, os pilotos haviam conseguido resolver a situação em um lapso curto de tempo", diz Troadec.

Troadec afirma que um relatório preliminar sobre as causas do acidente será divulgado no final de julho.

Diálogos dos copilotos e comandantes

Segundo o relatório do BEA, a composição da tripulação estava de acordo com os procedimentos e que, no momento do evento, os dois copilotos estavam na cabine. O comandante de bordo estava de repouso e retornou para a cabine cerca de 1m30s após o alarme de perda soar. (Os horários são do meridiano de Greenwich - três horas à frente do horário de Brasília).

Pela transcrição da caixa-preta, o comandante de bordo deixou a cabine entre 1h59 e 2h01 (horário da França). A partir das 2h10m05s, o piloto automático e a auto-implusão são desativados e o copiloto anuncia "eu tenho os comandos". A aeronave rola para a direita e o copiloto exerce uma ação à esquerda e de elevação do nariz. O alarme de perda de altitude dispara duas vezes. Os parâmetros registrados mostram uma queda brutal de cerca de 275 nós para 60 nós da velocidade mostrada do lado esquerdo e poucos momentos depois a velocidade mostrada no instrumento de resgate (ISIS).

A partir das 2h10m50s, o comandante de bordo foi chamado várias vezes e retornou à cabine cerca 1m30s depois. Às 2h12min02s, o copiloto diz "Eu não tenho mais nenhuma indicação" e o comandante responde "Não temos nenhuma indicação que seja válida".

Às 2h13min32s, o copiloto diz: "Vamos chegar ao nível cem". Cerca de quinze segundos depois, ações simultâneas dos dois pilotos nos mini-manches são registradas. "Vamos lá, você tem os comandos", diz o copiloto.

Às 2h14min28s, não há mais registros do voo.

Airbus

A Airbus afirmou que as informações preliminares divulgadas pelas autoridades francesas sobre o acidente no voo Rio-Paris são um "passo significante" para entender as causas da queda do avião A330 no oceano Atlântico. "O trabalho do BEA constitui um passo significante para a identificação completa da cadeia de eventos que levou ao trágico acidente do voo 447 da Air France em 2009", disse a Airbus em comunicado.

* Com Reuters e BBC Brasil

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