'O tempo piora a dor', diz pai de vítima de voo 447

Dois anos após acidente, notícia de que corpos das vítimas foram encontrados no fundo do mar dividiu os familiares

BBC Brasil |

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Passados dois anos do acidente do voo da Air France, o tempo não trouxe nenhum alento para o médico Oswaldo Seba. Ele perdeu sua filha única no acidente, a psicóloga Luciana Clarkson Seba, de 31 anos. "Para mim e para a minha esposa, não houve mudança alguma nestes dois anos. O tempo parece que piora mais a dor", diz Seba, de 60 anos, que está há dois anos sem trabalhar e vive à base de medicamentos.

Seba não conseguiu retomar a profissão desde a morte de Luciana, que viajava com o marido e os sogros para encontrar a cunhada na França. "É uma coisa muito dura. A gente está tentando sobreviver. Com uma tragédia dessas, a gente não consegue nem viver, apenas sobrevive".

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Além de filha única, Luciana era neta única, a última na linha de sucessão da família. "Ficou um vazio enorme", diz o pai. "A gente vem tentando acomodar essa dor, mas a todo momento vêm as notícias, a toda hora abre a ferida", diz a nutricionista Sylvie Mello, de 37 anos, que perdeu o irmão e a cunhada no acidente. "Primeiro havia a expectativa de encontrar a caixa-preta. De repente a ministra francesa anuncia que foram encontrados corpos também, corpos bem conservados. É uma angústia enorme."

‘Orgulho da família’

O irmão de Sylvie, o procurador federal Carlos Eduardo Lopes de Mello, de 33 anos, e a cunhada, Bianca Pires Cotta, de 25 anos, recém-formada em medicina, partiam em lua de mel após a festa de casamento no dia anterior.

"A gente tinha acabado de sair de uma festa linda, um casamento, um sonho que se realizou. Eles foram em lua de mel, eu os levei ao aeroporto, a gente tem toda aquela imagem", conta. Seu irmão, que passara no concurso de procurador federal antes mesmo de terminar a faculdade, aos 23 anos, era "o orgulho da família".

Segundo Sylvie, seus pais estão "destruídos". Sua mãe não pode nem ouvir falar do acidente. Seu pai quer acompanhar todas as notícias.

"É um turbilhão, isso consome a gente. Por mais que você não queira assistir, você vai à padaria e dá de cara com as notícias. Minha mãe entra no elevador e alguém fala com ela sobre o assunto. Conviver com isso é muito ruim. Você vive abalado psicologicamente, frequentando psiquiatra, tomando remédio para dormir, tirar sua angústia. É assim que a sua família vive. À base de medicamento, de medicação, a todo momento é pego por uma informação."

Na última sexta-feira, o primeiro relatório oficial com base nos dados extraídos das caixas-pretas foi divulgado pelo Escritório de Investigações e Análises (BEA, na sigla em francês), confirmando falhas na medição da velocidade da aeronave e seu tempo de queda, de 3 minutos e meio.

Só no fim de julho, entretanto, será divulgado o primeiro relatório sobre as causas do acidente de fato. São respostas ansiosamente aguardadas pelas famílias.

Para Nelson Faria Marinho, presidente da Associação de Familiares das Vítimas do Voo AF 447, as informações divulgadas na sexta-feira passada não trouxeram nada de novo. "Agora, são mais dois meses de sofrimento para saber o que aconteceu", diz. "Só espero transparência do governo francês. Porque nós vamos até o final, queremos saber o que aconteceu". Ele perdeu o filho no acidente.

Nelson Marinho, de 40 anos, que trabalhava em prospecção de petróleo e seguiria de Paris para Angola a trabalho. Era o segundo de cinco irmãos. "Isso desestruturou toda a família. Criou problemas de tudo quanto é ordem. Não sei nem traduzir em palavras", diz o pai.

A notícia de que corpos das vítimas foram encontrados no fundo do mar dividiu os familiares. Porta-voz das famílias, Nelson Marinho vem lutando para que sejam resgatados, identificados e devolvidos às famílias.

"Queremos os restos mortais para que possamos finalizar a vida, para que possamos fazer um enterro para nossos entes queridos e ter um lugar para visitar", diz. A notícia do resgate de mais corpos nos últimos dias deixou-o extremamente ansioso: "Todo mundo pensa que o seu (parente) vai estar entre eles, mas na verdade ninguém sabe".

Temores

Outras famílias prefeririam que os corpos fossem mantidos onde estão. A advogada Julienne Owondo, de 28 anos, perdeu o pai, Joseph Owondo, advogado da ONU. Ela teme ter que voltar a tomar remédios se o corpo for encontrado, como fez na época do acidente.

"Se encontrarem, vai reavivar tudo. É uma coisa que não se fecha. Eu prefiro não saber. Eu vou ficar muito mal e não vou conseguir me concentrar nas coisas que tenho que fazer. Posso ter que voltar a tomar medicamentos. No início eu tomei, porque não tinha condição nenhuma", conta.

Sylvie Mello diz que sua família quer que "os deixem quietos". "Até porque, no nosso caso, são dois. A gente não quer só um", diz. Ela afirma que ficou horrorizada ao ouvir um perito afirmando que talvez não fosse possível fazer o teste de DNA das vítimas. "Se não for possível a identificação, então quem é essa pessoa, o que vai ser feito com o corpo? Não vai poder entregar para a família?", questiona.

Ela se arrepia também com as notícias sobre o transporte dos corpos. "Acho desumano veicular notícias de que os corpos estão sendo desmembrados. É como se fossem uma mala que abriu, e caiu uma peça. São as pessoas que pegaram o avião querendo chegar ao seu destino, uns de férias, outros a trabalho, outros para iniciar nova etapa da vida".

Mas iniciar uma nova etapa é difícil sem um desfecho para o sofrimento, e por isso a jornalista Renata Mondelo Mendonça, de 40 anos, se considera "afortunada". O corpo de seu marido foi encontrado na primeira fase de buscas, nos dias após o acidente. "Eu pude enterrá-lo e achei importante finalizar, ter um lugar para rezar. Mas entendo os dois lados. Revisitar a dor é muito difícil."

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