Mulher de vítima do voo 447 diz que ficou com "coração aflito" ao ler diálogo

Ela afirmou acreditar que escritório responsável pelas investigações omitiu relatos de desespero dos pilotos

iG Rio de Janeiro |

"Comecei a ler o diálogo entre os pilotos e me deu uma aflição horrorosa. Eu lia e chorava. Só de imaginar que o meu marido estava ali, berrando e gritando, o que ele estava pensando na hora. Fiquei arrasada. Estou péssima, bastante deprimida, com o coração aflito."

Essa foi a reação da jornalista Renata Mondelo, de 40 anos, que perdeu o marido, Marco Antônio Camargos Mendonça, de 44 anos, no acidente com o voo 447 da Air France, ao ler trechos dos diálogos entre os pilotos da aeronave que foram divulgados nesta sexta-feira (27) pelo Escritório de Investigações e Análises (BEA), órgão responsável pelas investigações.

O acidente ocorreu no dia 31 de maio de 2009. O avião decolou do Rio de Janeiro para Paris e caiu no Oceano Atlântico, matando as 228 pessoas que estavam a bordo.

De acordo com relatório preliminar do BEA , cerca de dois minutos após o início dos problemas - os incidentes na cabine ocorreram entre 2h10 (23h10 do dia anterior em Brasília) e 2h14 (23h14) - o avião Airbus A330-203, que estava a uma altitude de 35 mil pés (cerca de 11 mil metros), começou a cair a uma velocidade vertical de 10 mil pés (3 mil metros) por minuto. A aeronave também começou a oscilar, subindo e descendo devido às rajadas de vento.

Com o piloto automático desligado, os pilotos, por três minutos e meio, tentaram, por meio de manobras no manche, reverter a queda. À BBC Brasil, Jean-Paul Troadec, diretor do Escritório de Investigações e Análises, revelou que um dos piltos disse "Não estou entendendo mais nada", durante a perda de controle do Airbus. A frase não consta do relatório parcial divulgado pelo BEA.

Trechos cortados

Renata disse acreditar que o BEA omitiu trechos dos diálogos para poupar as famílias. Segundo ela, as conversas divulgadas não relatam momentos de desespero que os pilotos enfrentaram.

"Não temos a real noção do que aconteceu. É difícil imaginar que os pilotos não entrem em desespero ao ver que o avião está caindo. Eles devem ter gritado, xingado. Os diálogos divulgados só mostram os pilotos falando de controle. Nas conversas, há várias reticências. Eles (BEA) cortaram, é óbvio", disse.

A jornalista afirmou que a única novidade que o relatório preliminar do BEA trouxe foi o tempo de queda do avião que foi de três minutos e meio. Ela disse que, anteriormente, imaginava-se que o tempo teria oscilado entre 4m e 4m16s.

Ela comentou ainda que o documento do BEA acaba com os rumores de que a culpa teria sido dos pilotos. "Os diálogos mostram que os pilotos estavam presentes. O comandante deixou a cabine e retornou. A tripulação estava bem preparada. A Air France não iria contratar pilotos despreparados", analisou.

Pai de brinquedo

Renata afirmou que o marido viajou a Paris para ser nomeado presidente do Instituto Mundial de Manganês. Ela disse que, com a perda, sua vida ficou sem rumo. "Quero minha vida de volta. Tínhamos na época do acidente um filho de 11 meses e queria muito ter outro. Eu e meu marido possuíamos planos comuns e, de repente, isso saiu de cena. Está sendo difícil se refazer, replanejar a vida."

A jornalista contou ainda que passou momentos dramáticos nos primeiros meses após a tragédia. "Eu tinha pesadelos. Sonhava que estava aeronave e que o avião estava caindo."

Renata revelou ao iG que o filho do casal, que hoje tem dois anos, vive perguntando por que o avião caiu, onde está o seu pai e já até lhe pediu um pai de brinquedo.

    Leia tudo sobre: voo 447air france

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG