"É difícil dizer que o erro foi dos pilotos", afirma ex-comandante

Felipe Wagner voou durante 44 anos. Ele, como outros especialistas, acha cedo culpar pilotos pelo acidente com o voo 447

Carol Garcia e Fernanda Simas, iG São Paulo |

A publicação do relatório preliminar do voo 447 da Air France , que partiu do Rio de Janeiro com destino a Paris e caiu no Oceano Atlântico, matando todas as 228 pessoas a bordo, no dia 31 de maio de 2009, gerou questionamentos sobre a responsabilidade dos pilotos que comandavam o Airbus. Segundo o Escritório de Investigações e Análises (BEA), agora as investigações vão se concentrar nas diferentes ações dos pilotos diante do problema da perda das indicações de velocidade do avião, causada pelo congelamento dos sensores, os chamados tubos pitot .

O comandante aposentado Felipe Wagner voou durante 44 anos, acumula mais de 32 mil horas de voo e hoje é dono de uma escola de um Centro de Treinamento de Aviação. Ele explicou ser muito cedo para apontar que a culpa do acidente foi dos pilotos. “Fica muito difícil dizer que o erro foi dos pilotos. Analisar a situação dois anos depois é uma coisa. Na época, a situação era complicada.”

Wagner explicou que os pilotos conseguem ver no radar que vão entrar em uma turbulência, mas não sabe qual a intensidade que vão enfrentar e que, em consideração aos familiares das vítimas, considera prudente aguardar o fim das investigações para apontar culpados. “Até por respeito à família dessas pessoas, nós temos que saber exatamente o que aconteceu. Temos que esperar um pouco. Temos que ter muito cuidado com o que afirmar.”

O piloto Mário Moreira tem opinião diferente. Ele voa há 39 anos, já pilotou caças da Força Aérea e possui uma companhia aérea brasileira. Para Mário, os comandos dados a partir da pane do pitot foram desastrosos. “Ao invés de querer consertar a atitude do avião (que subia e perdia velocidade), ele [piloto] piorou acelerando o motor. Até que o avião para de voar e cai.”

Ele ressaltou que uma das primeiras coisas que se ensina na aula de pilotagem é justamente como corrigir o avião que está em “stall”, ou seja, perdendo velocidade. “É básico. [Para se corrigir] stall é nariz pra baixo e motor pra frente. Os pilotos não entenderam e não souberam colocar o avião em situação de voo”, diz Mário, explicando que eles colocaram a aeronave em posição de decolagem, levantando a sua frente.

AP
Uma das duas caixas-pretas do Airbus da Air France (foto divulgada no dia 03/05)
O piloto lembra que essa questão é básica, mas precisa melhor abordada durante os treinamentos, que “são muito focados nas bases tecnológicas”. Além disso, Mário aponta que é necessário esperar o término da investigação para saber se os pilotos tentaram corrigir a posição do avião, mas, por algum problema mecânico, isso não foi possível.

O presidente da Associação Brasileira de Pilotos e Proprietários de Aeronaves, George Sucupira, afirmou que os pilotos do voo 447 se equivocaram ao decidir enfrentar o mau tempo, mas que diante do problema da velocidade eles não tinham como agir de outra maneira. “O avião realmente entrou numa formação pesada. Eles poderiam ter desviado como o avião da Ibéria [o avião da Air France seguiu na direção oeste, enquanto o da Ibéria seguiu para o leste, direção oposta]. Diante do problema da velocidade, os pilotos reagiram.”

“Não teria como eles reagirem de maneira diferente. Era um caso isolado sem histórico algum na região. Hoje já existe um treinamento para esse tipo de pane”, argumenta Sucupira. Além disso, ele explicou que com o congelamento do pitot, os pilotos receberam informações erradas sobre a velocidade da aeronave e isso os atrapalhou, ainda mais pelo fato de não terem sido treinados para reagir em uma situação assim. “Eles não entenderam o que estava acontecendo. Essa discrepância de velocidade provavelmente já refletia um problema do pitot. Eles não poderiam fazer algo que não constava no treinamento deles.”

A companhia aérea Air France declarou nesta sexta-feira que é necessário esperar as futuras análises do BEA das caixas-pretas para determinar a causa precisa da queda do avião e ressaltou que “os três pilotos experientes demonstraram uma atitude totalmente profissional e estavam comprometidos em realizar suas tarefas até o fim”. No entanto, uma fonte ligada à investigação, segundo a agência de notícias AFP, ficou surpresa com ação dos pilotos. “Por que, ao receber o sinal de alerta, os pilotos empinaram a aeronave para cima e não para baixo?”

O piloto aposentado Jack Krine disse à AFP que em caso de alerta o procedimento normal é levar a frente da aeronave para baixo com o objetivo de ganhar velocidade e então subir, acrescentando que eles podem não ter tido tempo suficiente para analisar a situação de forma adequada. Os últimos dados das gravações mostraram que o nariz do avião estava para cima em um ângulo agudo, e atingiu o oceano a uma velocidade de 10.912 pés (3.300 metros) por minuto.

Sensação dos passageiros

Segundo o piloto Mário Moreira, os passageiros do voo 447 sentiram as mudanças de altitude da aeronave. “Em um determinado momento o nariz [do avião] subiu até 40 graus”, conta, explicando que os passageiros são capazes de sentir a aeronave levantando voo, com uma inclinação de cerca de 15 graus. “E teve oscilações fortes de um lado para o outro que o labirinto percebe. Em determinado momento [passageiros] sentiram como se estivessem flutuando na cadeira, o que estava no chão voou para cima”, acrescenta Mário.

Mesmo com essas sensações, Moreira opina que as pessoas morreram com o impacto do avião na água porque “não houve despressurização”. “Ninguém morreu antes do impacto. A cabine estava preservada até o momento do toque [na água].”

Com AFP

    Leia tudo sobre: voo 447air francepilotosculpadosrelatórioBEA

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG